para entender os invernos

é fácil acolher um abraço

algo concreto entre os braços

difícil é afrouxar o traço,

desfazer o laço,

abrir as mãos em água corrente

sem segurar, só dissolver, sentir-se sair, sentir-se não ser.

dói, inverno.

bem-vindo seja, frio.

bem-vindo seja, amargo do sal nos olhos

e o deixar fluir a água corrente dos olhos

esperar, paciente

esperar, aceitando,

esperar, agradecendo,

esperar, primavera.

pequenos ajustes

– Por que meu nome é Béatrice, e não Beatriz?

– Pra combinar com Perrier, é óbvio.

– Acho idiota. Você nem sabe falar francês.

– E daí? Você fala em português!

– Então por que esse nome assotacado?

– Porque eu quero.

– Nosso diálogo vai ser sempre assim?

– Espero que não.

– Tu é chata mesmo, hein?! Marrenta!

– Shhhh!

– chiante!

– Ei! não vale falar em trocadilho!

a propósito…

Béatrice não bebe água Perrier. acha coxinha.

aliás, em suas palavras: “90% do que se classifica como sofisticação é coxinhagem cara, e só por isso, exclusiva.”

e nasce Béatrice Perrier

de uma garrafinha Perrier sem rótulo, levada numa mochila velha. sem pretensão.

só estava ali, desfilando na mala, por dois motivos:

1) era de vidro – portanto, lavável

2) era verde e bonita – sim, e daí?

ouvi de pessoas: “Ui! Perrier?”

virou !: “Ui! Perrier!”

daí veio Béatrice: pra me salvar da chatice.

nasceu da garrafa sem rótulo, tal gênia-mariposa da lâmpida.

Pedro.5

há cinco anos, aconteceu.

na madrugada, a luta estava no ápice. depois de mais de 30 horas de dor, dentre as quais 7 eram de muita dor, ela ainda resistia.

apesar do torpor, da quase perda de consciência, ela firmava sua existência. peitava. esbravejava. se contorcia.

(em segredo, se vitimizava)

tremia.

temia.

não cedia.

o dar-se era inevitável, mas, no momento, impossível.

ela retraía.

quase perdeu os sentidos. num último momento, só sobrou-lhe um: a criança que viria.

só então se deu conta que essa era, ainda, uma informação distante.

então percebeu que não havia, ainda, o amor.

então alguém além dela mesma (ou que pensava ser) o evocou.

então percebeu que amor é também a dor de ir além dos próprios limites: perder-se para expandir-se. abrangência.

ela cedeu.

jogou-se de costas no abismo, sem esperar amparo.

amanheceu.

ela morreu.

um pouco depois das seis, Pedro nasceu.

outra viveu. (que agora, sou eu.)

 

obrigada, filho, pelo presente de saber-se além.

(muitos e muitos anos trazendo a luz com você!)

 

in.

é inexplicável

indizível

indecifrável

mas nem por isso, inatingível.

(e por isso, obrigada corpo.)

pra nascer a borboleta.

no jardim de casa tem uma pequena cerejeira.

no galho da cerejeira tem um pequeno casulo.

as folhas iam sumindo, e eu pensava ser pelo outono

depois percebi que a lagarta ainda comia folhas

mesmo estando no casulo. saía, comia, voltava.

ontem só sobrava uma.

temi pela vida da lagarta.

(como se fosse ela indefesa,

apesar de até ter sua casa)

ela comeu a última.

como faria depois?

aí, à noite, choveu.

foi chuva de vento, raio e tempestade.

logo cedo, corri pra ver se o casulo aguentou.

naturalmente, alheio às dúvidas, ele se segurou.

e um galho de bambu, plantado ao lado, envergou.

cheio de folhas novas

envolvendo o esqueleto da cerejeira

cercando o pequeno casulo.

pintou de verde o quadro seco:

a vida protege as asas nascentes.