lição na escola

– Por que ele fala assim?

Em um ano e meio na escola, foi a primeira vez que uma criança me perguntou, assim, diretamente. Me pegou meio de susto, e na frente do Pedro. Pausa para pensar. Tempo congelado. Pergunta de criança é coisa séria. “Não sei, também estou procurando a resposta” seria algo sincero, mas sabia que para uma criança jamais seria satisfatório. Talvez porque, no fundo, a gente até sabe. Mas o tempo corria, os dois olhos e ouvidos aguardavam com expectativa, e sem que eu me desse conta, saiu:

– Porque antes ele falava com música, e agora tá aprendendo a falar com palavra.

Ouvi o que eu disse sem saber por que tinha dito. Me pareceu verdade, e só. O sorriso da criança confirmou:

– Queria ouvir ele falar com música!

(obrigada, Gustavo, por me lembrar que a aceitação é parte nossa. A diversidade não é estrangeira a uma criança. Aliás, é palavra só existe porque depois se desaprende o que já se viveu.)

 

conseguindo parar para ver

que o olhar meio estrábico de alguém que vejo sempre desperta em mim a beleza da assimetria; que no ar, entre o céu e a terra, cruzam pequenos pontos brancos, leves, inconstantes, às vezes penas, às vezes painas, às vezes nem sei; a ternura de testemunhar pequenas conquistas, como a própria mão escovando feliz um dente de leite; que alguns fios brancos somados na fronte de quem se ama torna presente o tempo do tempo, a dor da passagem, a alegria de vivercom; que um resfriado não é o fracasso do corpo, mas inverno que entra na pele pro corpo virar mais abrigo;

estou conseguindo parar para ver

a impaciência do ser enclausurado na casca do deve ser; que uma semente pode ser barco, fluir pelo rio, mas logo depois virar chocalho;

que no meio do vazio de uma mata uma folha cai, silenciando o silêncio,

enquanto, dentro de mim, todos os ruídos se arranjam em caos iminente.

É quase grosseiro dizer assim, o que se sente: submeter o éter à dura casca da palavra. mas as cascas das sementes também são duras, gerando um oco. E não é da semente que a vida brota, mas da caverna do vazio que nela vive.

ainda inverno

seco.

em silêncio

sincero;

(choro para aguar)

sintetizo.

cinestésicos sins,

som das sombras,

(choro para aguar)

sementes.