aos meninos, primavera de 2012

hoje, num raro momento em que não precisava ser prática, navegando pelo blog do meu companheiro Djair, dei com esse post. uma carta que ele escreveu aos nossos filhos. fiquei emocionada. claro, é um retrato de um momento, provavelmente escrito num desses dias em que ele fica cuidando dos meninos (porque a gente reveza).

hoje sou eu que estou com eles. e enquanto tento escrever esse texto, Gabriel me chama 1000 vezes para fazer um desenho. situação típica e simbólica.

por que é mais importante escrever que atender a uma criança – sendo essa uma fase que durará tão pouco? não sei. é uma intensidade tão grande que talvez a gente peça um escape, imagino. nada é afirmativo quando se trata de filhos.

fiquei então pensando o que escreveria a eles, Pedro e Gabriel, hoje com cinco e dois anos (e meio). é provável que essa carta seja interrompida muitas vezes, para fazer um desenho ou cortar tomates, mas tentarei chegar ao fim.

(pausa para apontar lápis amarelo)

queridos,

(pausa para ensinar apontar lápis. pingar soro no nariz. parar choro por causa do remédio do nariz)

Nem sei como começar isso aqui. Talvez dizendo como me sinto aos trinta e sete anos, sendo mãe de vocês, além de tantas outras coisas… tentando entender (ainda) meu lugar no mundo. Vivendo nessa cidade louca e pensando se é o melhor pra gente, com tanto mato e cachoeira por aí.

Eu, que tinha tanta certeza… elas todas caem de vez em quando, sabe?

Como o papai falou: estamos tentando reinventar o que é ser adulto, o que é ser gente, sem adulterar tudo. Na verdade, estamos tendo é que desaprender um montão de coisas.

Eu, por exemplo, estou tendo que desaprender que a vida de gente grande é chata. Porque sempre pensei que fosse. Porque sentia essa dor de ter que abandonar os sonhos, ou chamar os sonhos de imaginação, ou faz-de-conta, como se fazer de conta fosse fazer de mentira, ou seja, não fazer. Lembro do meu pai nessa mesma correria que a mamãe tem hoje: saindo de um lugar pra outro. Ia para casa almoçar em cinco minutos, e ainda me contava histórias para comer. (Acho que isso não era nesses cinco minutos, talvez fosse no final de semana, mas as histórias e a nutrição sempre me acompanharam. Crescemos juntas.)

Nas histórias eu via meu pai de verdade, assim como adorava ver minha mãe fazendo coisas cotidianas. Não gostava de ir ao supermercado com ela (não sei como vocês gostam de ir comigo), mas gostava dos lanches que ela preparava. E das espadinhas feitas de jornal, e dos arcos e flechas, e pensando bem minha mãe nunca brincou de bonecas com a gente. Ela era bem moleca, pra falar a verdade.

Então eu vejo vocês mergulhados nessa fantasia linda de ser, e fico aqui fazendo força para reaprender o caminho para esse lugar. Vejo você, Pedro, que agora está com mania de cavernas, cercado de bichos de pelúcia e livros. Isso é só o que eu vejo, mas sei que você vê bem mais. Assim como você, Gabriel, no seu cantinho do desmonte, reduzindo cada brinquedo ao seu mínimo. Nesse olhar de curiosidade sem fim, nesse afã de aproveitar tudo o que a vida te oferece, ainda sem medida, mas sei que ela chegará. Porque você tem olhos felizes.

Estamos, papai e eu, tentando viver uma vida coerente, num mundo em constante transição, e com extremos de bondade e falta de noção. Estamos tentando atrelar nosso sustento (ou dinheiro, ou energia que entra) a trabalhos que colaboram para a vida. Todo o resto, queridos, por mais que se diga o contrário, é coisa inútil a se fazer. Eu acredito que a gente esteja caminhando para uma mudança radical, um salto de consciência mundial, em que todos os padrões de hoje não servirão mais. Hierarquias, por exemplo. Por isso pedimos para que vocês resolvam os conflitos entre vocês: para aprender a trabalhar com a horizontalidade, para deixar de acreditar em ídolos, para aprender a acreditar nessa música linda que toca no peito de cada um. Nosso manual de instruções tem ritmo, e ritmo de tambor.

A mamãe está fazendo uma força enorme para decifrar essas notas agora. Passou muito tempo procurando as partituras aí fora, e agora tá numa confusão impressionante. Só vocês, meus queridos, para me ancorar à terra. Ninguém consegue derreter e trocar fraldas ao mesmo tempo, ou desembestar e dar risada de uma nova palavra que surge.

Então, filhos amados, vocês são a nossa força diária pra conseguir fazer esse ajuste, desaprender o que não serve, destampar novamente os ouvidos às dimensões invisíveis. Ouvir o próprio sonho, entender o plano, entender o que é nascer, o que é viver, o para que disso tudo, e isso lidando com contas vermelhas, lidando com a tendência diária à descrença e ao desespero. Lutando contra aquela voz velha e decrépita: vocês estão loucos, tem filhos pra criar e ficam aí, viajando…

Graças a vocês, meninos, nossa viagem agora tem mapa, tem bússola. Mas as intempéries ainda existem, porque são parte da coisa. Tentamos acertar sempre, mas tem hora que não é fácil, e é importante não esconder isso.

(pausa. Gabriel me interrompe para desenhar a mamãe chorando lá em cima)

Porque a mamãe chora, às vezes, lá em cima, crente que tá escondida.

Mas o que a mamãe chora, meus queridos, é o luto das partes que estão indo embora para que ela seja livre. Às vezes a mamãe também chora para entender. Porque ela tem um cabeção que não ajuda muito, e a água ajuda a dissolver as ferrugens.

Às vezes ela chora porque está triste.

Mas muitas vezes, chora porque está aprendendo.

E então volta desse choro olhando para vocês com a mente limpa. Aí conseguimos pular de verdade na cama, brincar de verdade, sem faz-de-conta, ou melhor, sem faz-de-mentira.

Porque a mamãe ainda está aprendendo que fazer de conta não é mentir, mas fazer acontecer em outras realidades, até que se materialize nessa. A visível.

 

rogância

…então no quintal da minha arrogância

dou incumbências às divindades: façam acontecer isso ou aquilo!

(por favor)

só assim darei minha vida!

a mãe, bondosa, acolhe e ri.

o pai, então, me joga no contrário: para que eu conquiste com minhas mãos meu pedido,

ou caia no chão, abrace a terra,

(e só então entenda)

que sou eu quem devo abrir os ouvidos ao que fazer.

 

silenciar, ouvir e fluir

 

e com o livre-arbítrio de abraçar ou não o caminho.

 

rastros de sonhos acordados

sempre atenta a tudo,

vigilante,

às vezes caio no sono. caio do cavalo. caio no rio.

ainda viva, levanto a cabeça pra fora das águas. agarro num tronco em plena correnteza.

sou salva pelo pedaço de madeira.

valente, coloco-me de pé na margem. busco fuga da emboscada.

mão no coldre, sempre alerta. aviso aos companheiros que a situação é crítica.

durmo mais.

por detrás,

vem a bala. cedo ao tiro, praguejando: Então o velho Marshall me pegou!

então, morrendo (e só assim), percebo, lúcida:

sou eu, mulher,

mas era eu, caubói.

Malditos filmes americanos!

bem-vinda primavera!

… e se aos vinte e poucos anos acontece a maturidade da adolescência…

… (frio)…

… aos trinta e poucos começa a adolescência da maturidade…

… (seco)…

… e daí eu acho que não acaba nunca…

… (flores)…

poesia pra dias difíceis

com febre, com dúvidas, com raiva de tantas coisas lá fora, em casa sozinha com os meninos. querendo ver minha mãe, que está longe, e tendo que ser muito mãe.

café da manhã.

resolvi me entregar à ternura, para não alimentar o bicho.

tomando café com Pedro, ele apontou pro copo onde bebia suco – quase vazio –  e inventou: quero o copo grande, mãe.

o que?

quero grande. espicha, mãe.

entendi. queria mais suco, até que o conteúdo ficasse grande no interior do copo.

espicha mãe. isso!

(feliz por ter sido entendido)

depois expliquei que a frase seria: enche o copo. mas gostei do espicha.

depois brindou comigo, ele com suco, eu com café. em seguida, soltou:

você tá quase quebrando, mãe?

 

sim, filho. estou…

 

(eles nem sabem. nunca sabem: que, às vezes, salvam a gente.)

ainda não me contaram que já é primavera.

hoje, febril,

busco a fé de que falam os sábios.

mas só queimo na ansiedade dos dias, apesar da primavera que trouxe a chuva, limpando o deserto do lado de fora.

ainda não achei a medida da paixão pela vida sem desapego: quero, e quero muito, ou não quero e não faço,

um destempero.

e às vezes, sinto vontade de chutar quem está no caminho, seja pedra ou gente.

não, não me orgulho. respiro fundo, não faço. mas reconheço.

 

 

sim, já se passou um ano.

Quando você perguntou, não me surpreendi. Senti sua relutância em abordar o tema pelo telefone, como pegar em algo delicado com luvas de borracha. Senti sua hesitação, agradeci em silêncio o cuidado, e acabei me surpreendendo com a simplicidade de sentimento que veio: sim, já fez um ano. Há pouco tempo.

Não falei nada não sei por que. Talvez por receio de tingir de dramaticidade algo que já era, para mim, cotidiano. Não quis fazer disso uma data maior do que as outras, nem conferi exatamente o dia. Senti que estava perto. Assim como a primavera não começa exatamente no dia 22 desse mês (e as flores que estão surgindo por aí são provas), senti que essa precisão cirúrgica não era tão necessária.

Só sabia que ainda era inverno, e perto do tempo das flores.

Senti a data próxima, porque senti novamente os rios correndo em mim, pedindo choro sem razão aparente. Será que um ano é mesmo um circuito que traz de volta lembranças? Que nem o mar quando joga na areia, ao fim da tarde, o que nele sobra?

Hoje conferi: foi na madrugada do dia 29 de agosto.

E se não quis fazer dessa data nada tão diferente, não foi por fuga. É porque desde aquele dia tenho vivido essa morte todos os dias. Ela passou por mim, me deixou nua frente à possibilidade de minha própria finitude, me despiu de tantas certezas… me colocou de volta num caminho antes relegado às férias, ao final de semana, ao período que se reserva para viver – se for capaz – o que nos gera vida, o que nos nutre a alma.

A partir daquele dia, comecei um longo, longo reajuste. Quis despir de mim o que não servia. Percebi – com dor – que muitos desses excessos tem raiz em apegos profundos, em tesouros, na minha própria personalidade. Em medos. Percebi espantada que apesar de ter vivido uma experiência de despedida, repleta de sangue e de dor, ela tinha sido algo tão verdadeiro e vivo que me colocou em cheque. Colocou em evidência a palheta pastel dos meus medos cotidianos, e me fez perceber que, no fundo, junto com aquela dor havia um êxtase em estar plena e inteira em tudo o que a vida oferece.

Não que se possa viver diariamente naquela intensidade, mas deixar de viver por temer as cores vivas, por temer o vermelho vivo, era pior do que a morte.

Por isso, talvez, não senti falta desse luto com data marcada. Mas agradeço à vida por ter trazido a você, companheiro amado, uma experiência correlata para que você pudesse sentir um pouco daquela verdade, ainda que fosse na pele de outra pessoa – e bem-vinda seja ela que te mostrou o indizível desse momento. Benditas sejam suas mãos, para que possam conduzi-la, a cada massagem, a um lugar de alento, de desapego, de aceitação. E, talvez, longe de toda pressão de se fazer forte, de ser aquela mão que amparou o meu pranto, você possa ter liberdade de visitar esse lugar esquecido, e também, agora, dizer adeus.