você que aqui entra, abandone toda a esperança

hoje era inevitável: a dor ou o torpor.

do torpor meu saco já tava cheio. faz tempo que não posso mais com minha mente enevoada. meus dentes querem morder os cantos da boca se eles se abrem num sorriso falso ou resignado. há tempos que a indignação já bate à porta, mando passar amanhã e ela me acampa com a mão na maçaneta. hoje, rompeu a chutes. nem campainha tocou.

a dor é aquela que fingimos desconhecer. é um tipo de desatino que faz perder a compostura, vem montada numa cela de raiva, pelo menos comigo é assim. e as tantas e tantas coisas que de tão cotidianas já parecem os minutos de que são feitos as horas, de repente viram coisa intolerável. desde aquelas mais mínimas e idiotas, como o gato do vizinho que vem cagar no meu jardim – e eu sou obrigada a limpar – até todos os que cagam diariamente na minha cabeça, aí por opção própria, porque estão realmente cagando e andando pro alheio.

e então me pego com raiva de mim, por ficar reclamando da vida que (não é?) deveria ser boa. e faço da reclamação meu travesseiro. porque reclamar é permitido.

e por um acaso alguém reclama com a nuvem por ter coberto as estrelas? reclama com a chuva por ter desmoronado um barranco? reclama com o mar porque a maré subiu ou desceu? de que adianta? frente a uma força real, só tem uma resposta: agir.  mas as nuvens, as marés e as tempestades tem sua lógica. as coisas humanas não. e se a ação que me resta é protestar, isso não faz de mim um ser vivo. porque o ser vivo age, e colhe as consequências da ação. um ser que só protesta, espera. espera uma solução. espera justiça. espera um sinal que o mande agir em nome de alguma coisa. espera por deus.

hoje acordei sem paciência para essa esperança toda. aí entendi que quando os sábios falam que a esperança é a última que morre, é porque quando a gente não aguenta mais esperar, a gente finalmente age. sai do inferno. e  aí existe.

 

feita d’água

dominique fortin chrystalide

 

minha alma é de

rio

se acho pedra, desvio

mudo rumo,

corro ao lado

faço curvas,

rodopio.

então desaguo, desatino, desfaço

viro sal em olhos turvos

viro onda,

evaporo,

fico leve, nua, e chovo

volto ao fluxo, sigo e

rio.

 

(ilustração de Dominique Fortin Chrystalide)

mulher: quem é você?*

O que você vê é um corpo sem pontas, arredondado, pedindo por presença como um vaso, cheio de vazio, de futuro. Quem sou eu? Sou é silêncio. Um canto que vibra depois da última nota. Espreitando, entre as pedras, esperando na concretude para quando puder ser. E o tempo é agora, no auge da dureza do mundo. Porque eu broto do contrário.

Mas eu ainda estou nascendo mulher. Ainda tentando entender de corpo inteiro como é se jogar assim, sem o mínimo de resposta, no escuro. Sem vela. Porque também tem isso, sabe, a gente também pode ser a hora mais escura da noite, aquele segundo em que todas as estrelas piscam, então a gente também pode ser a pausa no respirar nas estrelas. Estou te dizendo, mas ainda não sei dessas coisas.

(…)

Vão te dizer
que a vida é guerra.
Que ela se enfrenta, se encara.
Com ela se luta.
Assim se tornam bravos, os homens.
Pois te digo: ela é boa.
A vida tem coisa de fêmea. Não se conquista ou domina.
Decifra-se.

 

* esse é um trecho da peça Jukebox, escrita para a atriz Alessandra Velho, recém-saída do forno, recém entrada em ensaio (dirigida por Lucienne Guedes), futuramente por aí, se os deuses assim quiserem.

Desde já um processo lindo, entre mulheres incríveis. Orgulho!