frases do cão (de se ouvir e acreditar) sobre vida com filhos

normalmente, parecem grandes elogios, ou pequenas piadas.

mas são a porta pro fundo do poço.

sobre pais:

“que sorte que ele te ajuda em casa”

“quer dizer que você tem dois meninos na sua casa?” (um é o pai)

“que bom que ele é um pai carinhoso!” (oi? não era pra ser?)

“nossa, ele trabalha e também ajuda a cuidar dos filhos” (variação das anteriores, mas sintetizando o espanto)

(história termina com um moleque-mimado-mimimi  – mas ainda pai – posando de herói e secretamente arrependido de ter se metido nessa “roubada” . Ainda achando que merece uma medalha cada vez que pega o filho no colo)

 

sobre mães:

“como ela é forte!” (como uma mula de carga)

“impressionante como ela dá conta!”

“e ela faz tudo sozinha!”

“tem coisas que só a mãe pode fazer” (isso só vale pra aleitamento. o que nos primeiros 6 meses, significa pelo menos 5 horas do dia dedicadas a isso, no mínimo.)

(história termina com uma mãe-chuck-norris com síndrome de mulher-maravilha completamente esgotada, cheia de medalhas por ter dado conta de tudo melhor que qualquer um.)

 

no futuro:

O pai nunca deixa de ser filho, e passa a ser filho de seus filhos, mala eterno.

A mãe, depois de anos de raiva acumulada, manda a conta de tudo o que deu conta pros filhos, virando vítima eterna do fardo maternal.

 

(gente, a Medéia já passou por isso, virou mito, peça grega, até sambinha do Chico. tá na hora de aprender e largar essa carroça, né não?)

38 em vênus

olhos irradiam raios
apontando nas bordas
presentes da maturidade

 

vEnUs

 

 

a tempo: carxs canalhas da indústria-da-estética-padronizadora: meu rosto não é poleiro pra ter pé de galinha.

não me importam as marcas. o que me interessa é se elas vão registrar mais sorrisos (sinceros) que tristezas (escondidas).

Miguel

Daqui a alguns dias,

vão se somar dois anos.

Dois anos desde sua partida para as estrelas.

 

Fiz desse dia um marco. Desde que você se foi, levou com você uma trava, um espinho. Abriu um caminho vermelho entre minhas pernas.

 

Doeu.

 

Tentei fingir que era comum, tentei me agarrar às estatísticas, tentei voltar à rotina.

Tentei me fazer de forte, mas do nada, de uma hora pra outra, desfalecia.

derretia.

Fiquei com vergonha do fracasso. Fiquei com medo de ser punida por algo que nem sabia. Segurei sozinha sua mão, porque não deixei ninguém mais segurar, mesmo sabendo que não poderia nunca te segurar aqui. Porque a escolha foi sua.

Você chegou no tempo das folhas amarelas, e partiu como partem logo as suaves flores de inverno.

 

Mas ao romper o cordão, você rompeu muito mais.

 

Desligou, em mim, uma corda que me prendia. Desenrolou um outro cordão do meu pescoço. Desencadeou um longo processo de liberdade, de reconexão, de reencontro com o próprio amor.

 

Você, alma imortal, me reaproximou do Caminho

me trouxe de volta as estrelas

a ponte.

 

Você, filho querido

me trouxe de frente a humildade

me mostrou o tamanho da minha arrogância

me mostrou reverência e fé

mostrou que as marés que trazem a vida e a morte são idênticas,

que nascer e morrer é uma coisa só,

e coisa que não se controla: só se navega.

 

Seu luto foi minha liberdade

não pela sua partida

mas porque a partir dela

fui ao meu encontro

ao meu próprio parir

 

E nesses dias tão intensos

há quase dois anos de sua viagem,

e a poucos dias da chegada de seu irmão caçula,

você nos trouxe a família.

 

Percebi, entre dores no corpo e nervos pinçados,

entre dentes cerrados,

que eu ainda carregava nas ancas o seu pequeno peso

que nunca pude embalar.

 

E carregava sozinha.

 

Percebi que apartava você do restante de nossa família

percebi que ainda confundia sua trajetória de luz com meu próprio fracasso

e percebi o quanto temia

 

enquanto meu corpo tremia.

 

Então, querida alma,

soltei de vez o cordão

libertei sua memória da torre

e deixei que todos celebrassem sua existência

entre dores e alegrias, a própria essência da vida.

 

Aí, e só aí

no meu último suspiro,

respirei

você foi, eu fiquei,

e só então nos unimos.

 

E juntos,

seu pai, sua mãe

seus pequenos irmãos já em terra

e seu pequeno caçula entre mundos

contamos sua história

para que nunca ninguém te esqueça.

 

Seu pai, por te sentir menino,

te batizou Miguel

e eu, por ainda te sentir flor

te chamo também Sakura

 

Aqui, você é anjo de quartzo rosa,

no centro da nossa unidade

nas estrelas,

alma imortal

e parte (nunca apartada) de nossa vida.

 

Lauren e o Diabo na Terra sem sol

Ela, a que vem sangrando

Encontra com ele,

marchando.

Lauren, que tem pés no mangue.

Mas sem raiz, e de caule fraco,

ancora tentáculos ao ar, tentando resgatar alimento.

Agarra, faminta, múltipla de braços, carente de todo o resto.

Ele, inflexível, casca dura, rosto impassível.

Ela pergunta-lhe o nome. Ele nada lhe dá.

Lauren suplica-lhe algo,

e ele percebe que ali há comando.

Então ele fica, liderando seu pequeno exército

de uma só,

e só o que dela resta.

Ela ancora-se ao léu, porque ele não se deixa agarrar.

Mas ele deixa um dedinho no céu,

como uma isca no ar,

 

como bússola macabra

condicionando o andar

 

Lauren joga no chão

migalhas

pra ela mesma catar.

Porque ele

nada lhe dá

e ela

tudo quer pegar.

 

Então…

 

Erram pelo deserto

inferno de ambos,

sem sol.

Arrastam-se pelas paisagens

sem horizonte,

sem mar.

Ela, que não tem futuro

só teme o passado,

é só.

Ele, que queima por dentro

destrói o presente

sem dó.

Eles se grudam, se arrastam,

tal sombras sem dono,

sem luz.

Fundem-se num corpo estranho,

um câncer medonho

de pus.

Pedem, mas de um jeito raro

que um raio os separe

ou parta.

Partem de si dia a dia

e juntos se afogam

na praia.

 

Cuspi Lauren do corpo

enquanto fervia

lamúrias.

Coçava feito uma praga

esfolou meu pé

na luta

Rasgou a minha garganta

queimou-me o rabo

em fúria.

Tentou agarrar-me aos prantos

contando histórias

de fuga

Arrasta consigo o capeta

que a segue mandando

pros quintos.

Erra, diaba de eras

até que consiga

seu ninho.

 

Adeus, Lauren

que um dia você troque o diabo por eros, osíris,

algum outro deus.

E até lá, adeus,

 que esse caminho é seu,

e essa não é minha história.

 

(depois percebi, Lauren

que não poderia te abandonar, tal como um pé que não se desfaz da sombra.

então, joguei sobre você meu sol

e pedi para que te iluminasse)

 

as feministas vão destruir o mundo

e rápido.

 

Porque elas não sossegarão enquanto tudo não terminar.

 

Elas são Kali. mostram a língua, tem dentes afiados. são o terror, e não vão parar enquanto não fizerem em pedaços todo o tecido fiado pelo pecado original. enquanto Eva for vadia, enquanto Conhecimento for leite de cobra,

elas não descansarão.

 

Invadirão casas com sua intensidade de vida, com seus cheiros de vida, sua sexualidade livre,

morderão quilos e  quilos de maçã, sem medo,

influenciarão seus filhos e filhas, suas moléculas, seu DNA.

Irão banir de nossas células o sofrimento da culpa, do pecado, do controle,

 

 

do medo da vida,

 

 

não se importarão com o formato dos contornos, dos pelos, mas vão arrepiar seus pelos em êxtase a cada contato de pele.

Irão destruir os templos da sexualidade imposta

e reconstruir os degraus que levam ao templo sagrado do corpo.

 

Terão sangue entre as pernas, pois sabem que esses rios nos contam o fluxo de nossas histórias.

Terão marcas no corpo, honrando a dança do tempo.

Terão flores brotando de sua terra, mas não serão cultivadas em estufa.

Terão os cheiros das intempéries.

Terão plugadas as antenas ancoradas no útero, caverna imemorial de toda sabedoria.

 

Elas vão destruir o mundo

(realidade imposta como prisão)

e reconstruir o amor.

Kali_By_Piyal_Kundu

arte de Piyal Kundu