saindo

não, não vou mais poetizar o presídio,
lustrar o pedestal reluzente das vítimas,
ou justificar minha mediocridade pelo pacto comum dos mártires.
a partir de agora, vou pisar na lama
sujar o pé de tentativas. ser opaca.
aceitar a solidão de ser única
afrouxar o corpo, passar entre as grades
colher os frutos das árvores (na grande floresta de dúvidas)
sem garantia. sem glamour. só liberdade.

travessando

há dias que passam
outros acontecem
tem dias que a gente atravessa
outros atravessam a gente
nesses dois últimos, se vive.

coisas que filhos nos dão pra pensar e que servem pra tudo na vida

sim, eu posso.

posso ser violenta, se esse for meu jeitinho.

posso ser violenta, se for conveniente.

posso ser violenta, porque às vezes é justificável.

posso ser violenta, porque às vezes é mais rápido.

posso ser violenta, porque preciso de você agora!

posso ser violenta cedendo à sua pressão (e te odiando em segredo por ter me violentado)

posso ser violenta, porque às vezes o outro merece (ou preciso impedi-lo de ser mais violento que eu)

mas tenho que saber que isso não muda nada. na melhor das hipóteses, adia o confronto para um novo momento, onde ainda seremos dois times: o “você-que-me-violenta” e o “eu-preciso-me-defender-de-você”

Não-violência ativa exige energia livre. Exige ficar, e não ceder ao impulso de abandonar o outro à sua compulsão. Exige não ceder à delicia de deitar o braço (mesmo um braço simbólico), à catarse de se deixar levar pelo turbilhão de uma força que, ilusoriamente, chamo de minha, mas é coisa que também me toma, e também me bate.

Não-violência depende de muito amor. muito amor mesmo. incondicional, para que eu te acolha numa atitude totalmente fora de minhas expectativas. e muita escuta.

Abraçar você no seu “pior”, na sua treva de sobrevivência, naquela hora em que você me agarra e quase me afoga como tábua de salvação, é tarefa árdua, quase titânica.

Mas às vezes, eu consigo. E só assim, consigo também nos salvar. Então é tarefa humana.

Depois de ver tudo isso, posso até ceder ao beijo da violência e me enganar, mas dura pouco.

já sei que é preguiça espiritual.