a favor

caminhava por fricção.

então necessitava de um solo duro, árido, para me contrapor.

até a não-violência já me parecia oposição.

minha liberdade de movimentos dependia de uma luta diária contra meu chão,

corporação. patriarcado. verticalismo.bandos opostos. tanta mentira.contradição.

 

até que vi ser impossível fixar raízes em algo contra o qual se luta.

para acelerar o movimento, raspava os pés, touro desenfreado em direção a vermelhos aleatórios.

enquanto isso, a cabeça calculava movimentos. e o corpo arqueava, vazio de tanta pressão nos extremos.

 

um dia, meus pés já secos de tanta briga,

começaram a coçar,

depois ferir,

depois sangrar.

recusaram-se a caminhar.

pediam trégua, água.

deixaram de ouvir os comandos do general geral do alto comando central

 

o centro da voz interna escorregou pra pineal

o centro do movimento externo subiu pro planalto central.

 

revirou meu estômago

mexeu nos meus medos

instalou-se no coração

 

e o fogo que ardia meus pés acendeu a fogueira da alma.

 

e me vi assim: tocha acesa.

 

sem pressa. só presença

 

e a mente ordenando comandos vazios

 

.

(só espera)

 

até que meus pés, finalmente livres,

 

descobriram um caminhar para cima. movidos pela fogueira da alma, com a terra fofa acarinhando o percurso.

tempos de áries

constelação

 

muita mudança no céu: estrelas mutantes convocam ações.

sistemas solares despencam. sistemas de falsos sóis.

 

o tom da nota é: verdade.

outono pede só essência. fica só o que alimenta.

tirar cascas sérias,

sair das casas velhas,

voltar pro centro, morrer, e só depois florescer.

 

só peço a essas constelações verdadeiras que mandem de lá o sentido.

e a justa ajuda para o reajuste

na medida do meu merecimento

mas no tamanho da minha necessidade.

uma estrela me contou que

cada fracasso é uma ponte a se atravessar.
o destino do outro lado depende do lugar interno que move o primeiro passo.
na humildade, subimos uma escala na escada espiralada.
na humilhação, é trampolim pro ressentimento. e ladeira abaixo.

música de Francisco

Chorava antes de dormir. Um choro aparentemente sem razão, gritado.

daqueles que poderia ter passado em branco: é sono.

Mas apertei bem forte. um som me percorreu, vindo do útero.

O som depois virou acalanto;

melodia simples, singela, bem diferente das complicadas voltas de minha cabeça.

então percebi que novamente celebrava seu nascimento

deixei sair aquela voz e, no transe dessa hora, meus braços viraram as paredes do nascer. o aperto do contato acalmou o choro. no limiar do porvir, o abraço, a contenção, o limite que nos acompanhará nessa existência terrena, mas que também nos mostra que não estamos sós.

ele soltou um longo suspiro, e soltou o corpinho num grande relaxamento. há algo que nos ampara. os contornos de nossa mãe. e esse aperto é bom.

e ele dormiu;

e uma música nasceu.

 

Chegou, chegou

o filho da harmonia

chegou, chegou

chegou trazendo luz

 

Chegou, chegou

e veio de uma estrela

chegou, chegou

chegou o meu amor

 

Chegou, chegou,

nasceu na primavera

chegou, chegou

pra vida alegrar