7×7

Há 7×7 anos, às 15h15, uma pequena alma inquieta nascia.

Não sei mais o que falar dela. A bicha tem um quê de mutante. Quando eu penso que já a entendi, ela me escapa.

Passou tempos no mundo dos livros, depois se mandou pro mundo, escancarando portas. Vivia com o pé pra fora, depois rodopiou que nem curupira. Voltou-os pra dentro.

Pra toca, a casa da floresta.
Pra tenda, a casa de palavras.

Ela me contou ter qualquer coisa de artista logo cedo, quando ainda era primavera. Tem parte com as musas, mas também com as tempestades.

Juntou-se com gente humanista, idealista, decidiu mudar o mundo até que seu mundo mudou. Daí se tornou mãe sem medir consequências, e hoje ainda se assusta quando cruza, todo dia, com moços mais altos que ela, cheios de voz grave e sonhos.

Sonhos.
Ela sonha esquisito quando dorme, mas devaneia histórias quando quase acorda.
“E se eu não fosse eu, então que eu esse eu seria?” Ela indaga e escuta.
Quem a habita? Milhares.

Gosta de caminhar de mãos dadas. Gosta de acordar e fazer tudo sempre igual, de molhar as plantas do jardim nunca igual. As flores dão a ela a medida do que também é mutante. Assim como sua pele, agora mais fina, assim como os fios do seu amado, cada vez mais cobertos de lua.
Com ele, ela também sonha. Amor de palhaço, brincante na bagunça. Ela, sempre claudicante, por não suportar linha reta. Ele, errante, por não suportar o que não é.

A mulher cambiante celebra seus muitos outonos. Agradece o ano que agora deixa às costas, agradece por ter morrido e ter perdido a esperança. Só para depois aprender que essa palavra não morre, nem depende que a humanidade a sustente para nos esperar, verde de desejo, ao final dos invernos.

A mulher de agora 49 colhe esta alegria como o melhor presente: poder ser humana, dual, contrastante, sabendo-se acompanhada pela Divina Luz que tudo aninha e pelas divinas almas que a abraçam.

Nem que seja para chorar ou rir junto, no instante seguinte à inesperada queda.

Espaço. Vazio.

Espaço-silêncio.

Aquele ponto na frente do espelho é aquela que aguarda.
Sou eu.

Depois de um ônibus, dois metrôs, um trem e uma caminhada, celebro a travessia neste silêncio de espera. Travessia da cidade? Travessia Butantã-Santo André, rumo à @elcvsa onde tenho a alegria de ser “professora de roteiro”?

Não.

A travessia do tremor, confrontando todas as vozes que resolveram gritar dentro de mim, dizendo que o mundo é perigoso, caótico, irracional. Que tudo o que eu faço é irrelevante, que encarar a multidão nos transportes públicos é abrir as portas para a insanidade.

Depois de uma hora e meia ou mais, chego. Um pouco mais cedo, para poder respirar.
Após o ruído incessante do caminho, o contraste.

Aguardo.

Logo logo, a sala torna-se cheia. Cheia de gente e suas histórias, lindas histórias pedindo forma, pedindo escrita, pedindo casa.
No meio do encontro, a pergunta que não queria calar grita:

“Como saber se o que eu tenho para contar vale a pena escrever?” – Carol me traz a questão. É sempre curioso quando alguém nos devolve nossas próprias perguntas.

Tudo vale a pena, se vemos em profundidade. Porque, no profundo, nossas histórias se encontram.
Então entendo: não se ensina como escrever. O que tento fazer é firmar este imenso vazio, espaço-útero-pleno-de-possibilidades, para que as histórias que querem nascer emerjam, e que todas as pessoas ali sejam testemunhas de sua relevância. Isso a gente sente na pele, no peito, em comoções repentinas ou pequenos arrepios.

Depois a gente usa o repertório, o conhecimento, a carpintaria, a técnica (isso sim se aprende) para dar uma forma potente. Mas antes, escreve-se com o ouvido. Parindo.

O tempo compartilhado passa, deixando um rastro de inspirações.
Ao deixar o espaço, já tarde da noite, com o percurso de volta pra casa à frente, deixo também de escutar as vozes mórbidas que me acorrentavam. Eu sei que elas continuarão ali, à espreita. Mas, nesse momento, levo comigo as vidas com quem dividi as últimas horas.
Sinto a força das mãos dadas na travessia, o carinho de tantas pessoas queridas.
E sempre agradeço por ter vencido o medo. Pelo menos, por mais um dia.

Às vezes a gente quebra

Foi isso o que a árvore sibipiruna em frente de casa me disse quando um grande galho dela partiu, acometido pela força dos ventos.

Depois, soube que no Sítio dos Bambus, onde fica a escola dos meus filhos, tombou um enorme eucalipto. Era como uma entidade, imenso, reinando no meio das salas de aula. “Eu não sou como os bambus, resiliente às tempestades”, ele me disse. “Eu também quebro.” E, magnífico que é, escolheu um feriado para o espetáculo da sua queda, sem atingir ninguém.

Às vezes o corpo quebra, seja um galho ou pela raiz. Quebrar gera um “antes e depois”, com um abismo no meio. Para dourar essa fenda, a cultura japonesa criou o Kintsugi, colocando ouro nas cicatrizes. Mas elas estarão lá, visíveis. E o vaso se transformou.

Às vezes, gente quebra. Há ouro que remende gente?

Neste ano também tombei, após tempos de tanto envergar. Eu, de natureza flexível, percebi que mesmo os bambus tem limite. E que minha ruptura se deu rasgando a brecha do meu maior medo: o de não conseguir segurar o mundo na copa. Ops, nas costas.

Às vezes a gente quebra e, ao quebrar, faz barulho, porque o escuro do abismo assusta.

Depois, faz silêncio.

Um longo silêncio.

Nele, estou.

Nessa pausa, coletei os pedaços da minha irmã sibipiruna que também se fraturou. Como forma de reverenciá-la, lapidei alguns de seus galhos para ver como eram por dentro, além da casca dura. Descobri novos desenhos, suaves, insinuantes.

E ela me contou um segredo: “às vezes, a gente quebra só pra poder se multiplicar em novas formas.

Para dançar pela vida de um outro jeito, com menos peso.”

E temendo menos os ventos do que a própria rigidez.

***

(Fica aqui minha gratidão por todas as mãos amorosas que me apararam na queda. Vocês sabem quem são)

II

Noutro dia, vendo um vídeo-propaganda de “tratamentos para menoPAUSA”, paralisei. A frase que encerrava o anúncio era: “Você não precisa pausar sua vida”.

Não?

Aquela afirmação me gerou revolta porque, naquele momento, pausar era tudo o que eu queria. Pausar era o movimento que me faltava. E o tal “tratamento” prometia, gloriosamente, me livrar desse direito, que hoje é quase um privilégio. E ainda chamar de vantagem.

Não, pessoal. Parem as máquinas.

Eu quero pausa. Maispausa.

Muuuuuuuuuuuita p a u s a.

Ainda que não seja fácil.

Parando, tive que lidar com o terror de perder não só o lugar na janelinha que me levou anos para conquistar, mas o bonde inteiro. O medo de cair do trem. Perder a rota da sociedade. Ficar para trás, sozinha, enquanto os mais aptos seguiam no trilho.

Sim, é como eu experimento. E se, apesar sentir tudo disso, eu parei, não foi por rebeldia, ou por sustentar ideologias. Foi porque simplesmente não consegui continuar.

O sistema inteiro parou.

Doeu, mas foi isso que me colocou frente a frente com minhas reais necessidades. Não aquelas que aprendi a ter, fruto da cultura da época, mas as que foram sendo sussurradas a cada crise. Quase inaudíveis, em meio a tanta gritaria das múltiplas vozes em protesto, mas fortes o suficiente para chegar à minha consciência.

Nesses diálogos insólitos, entendi: a pausa era a única coisa que me conectava a algo diferente do sofrimento mental que eu sentia. Elas prolongavam o tempo da respiração sem medo que fosse um tempo roubado de coisas mais importantes. Fiquei tão necessitada do ato de pausar que, um dia, parei para contemplar o sinal que a representa. Os dois tracinhos para cima.

UaU.

Nas duas colunas verticais que a simbolizam, senti descansar o pensamento.

As duas barras paralelas me lembraram, e muito, aquele monolito do “2001, uma Odisseia no Espaço”, ou qualquer outro monumento que representasse a mesma coisa: a ligação do céu com a terra.

Conexão.

Pausar para silenciar, silenciar para ouvir, ouvir para conectar. Religar não só os planos altos com os baixos, mas também na horizontal, ligando gente com gente.

Pasmei: a pausa, na horizontal, significa igualdade.

Igualdade cria ponte. Cria identidade, conjunto, coletivo, conversa. Cria com.

Na igualdade, também pausamos. Descansamos o eterno competir pelo pódio, aliviamos a dor da separatividade e da exclusão, despertamos da ilusão de sermos mais, ou menos. Igualdade traz equanimidade. Alívio. E abre nosso campo para novas trocas.

(Novamente, as ligações.)

E a viagem foi além: juntando a pausa pro alto com a ponte pros lados, formou-se uma cruz. Uma cruz aberta, estranha, formada por retas paralelas. Uma cruz que se expande até o infinito, em todas as direções.

No meio, bem delimitado, vi o ponto de conexão. Nosso coração. Aquele que pulsa no hiato, princípio e fim de todas as coisas, coisa que só se nota quando a gente para.

A nota da vida, então, atinge um semitom mais alto. Na música, eis o sustenido. Do latim, sustinere. Apoio, suporte. Sustentação. Seu sinal? #.

# pode até virar ócio, brinquedo de jogo da velha, pra quem se permite pausar com inutilidades. Pausar pra cima, pra baixo, pros lados, pro fundo.

Profundamente.

E a gente, fazendo tantas hashtags por aí, nem percebe o que elas também podem ser…

#conexão

CAPITALITE ou um sonho para chamar de seu.

– Tá tudo bem com você?

– Não.

– Mas o que você tem?

Esta tem sido a pergunta dos últimos meses.

A resposta mais imediata é: estou atravessando uma crise. Enorme, mas nada original. Nem preciso descrever em detalhes suas características porque, infelizmente, ela é bastante conhecida por ser o mal de muita gente. Os seus nomes são muitos: crises de ansiedade, síndrome de burnout, entre outras variantes que buscam definir uma atmosfera bastante particular: aquela neblina dilacerante que tinge a vida de cinza, fazendo com que a existência se pareça a um pesadelo sem previsão de término, porque não se está dormindo. Pelo menos, não aparentemente.

Um horror.

Eu já havia experimentado crises desse tipo em doses pontuais, mas nas últimas semanas elas se agarraram em mim como um náufrago, por dias a fio. Achei que ia enlouquecer. Tentei me livrar aos prantos, correndo de medo deste escuro, esperneando, também em naufrágio. Depois sucumbi, largando tudo o que achei que jamais poderia largar, contando com apoio de toda a minha rede de afetos. Pessoas maravilhosas que cuidaram de mim (e ainda cuidam), desde as mais próximas, amigos e familiares, àquelas desconhecidas que se dedicam a acolher a dor alheia.

Nada, nada, nada mesmo se compara à gratidão que eu senti ao perceber tantas mãos generosamente estendidas quando eu estava desabando em pleno abismo. Essa gente querida me fez chorar de alívio não só pelo apoio oferecido (entre reiki, johrei, rezas, massagens, acupunturas, canjinhas e escutas) mas também por ter me mostrado que a bondade ainda existe. À flor da pele (ou em carne viva), experimentar este calor humano teve um efeito em mim como água no deserto. Uma medicina poderosa, porque parte desta crise vinha justamente do terror à barbárie, e do medo de que nossa humanidade estivesse chegando ao seu colapso final.

Como se a História pudesse ter fim.

*

 Contudo, mesmo com tantas mãos dadas, havia um ponto de solidão nessa travessia, uma parte que caberia somente a mim resolver. O problema é que, justo neste momento, quem estava na torre de comando não era a mulher maravilha, mas aquela pessoa mais frágil, trêmula, inadequada, “inoperante”.

Como poderia uma criança superar o vácuo do abismo?

A criança treme. Esconde-se, grita, pede colo, sai em disparada com o monstro ao encalço. Em um desses desesperos, tentando me livrar de todo o mal do mundo que se expressava como uma “nuvem de nada” dentro do peito, morrendo de medo de não voltar mais ao que era antes, à minha lucidez, à solidez de minhas células, ouvi do meu companheiro: “Não adianta você fugir. Tem que conversar com essa coisa”.

Essa coisa.

Aquilo fez um estranho sentido, mesmo em um estado onde nenhuma palavra soava clara. Sim, era isso mesmo. Enquanto eu estivesse buscando uma “cura”, um exorcismo, uma “limpeza”, como se tivesse sendo possuída por qualquer entidade maligna, a coisa piorava. E se fosse algo a ser escutado? E se aquilo estivesse se apresentando daquele jeito dramático porque estava sendo ignorado há tempos?

Quem sabe?

Algo dentro de mim ressoou, penetrou em alguma camada secreta chamando coragem, e então olhei pra “coisa” como quem olha pra um bicho. Nem iria correr, nem ser pega ou devorada. Esse era meu novo plano.

Seria possível travar alguma espécie de diálogo?

O bicho teria voz?

Tinha. E era uma fala doída.

Escutei seu lamento entre meus próprios dentes, com meu esqueleto desestruturado em total terremoto, entre um choro e outro. Um choro sentido, um choro de mil vozes. Vi também que o bicho tinha uma forma de onda, e que ela era bem parecida às contrações prévias ao nascimento. Eu, que pari sem anestesia, lembrava bem dessa dor. Uma dor que vinha fazendo o chão tremer devagar, mas logo subia em pico, e já me arrebatava. Mas, no parto, eu já sabia que aquela era uma dor de nascer, que era assim desde que mundo é mundo, não por ser um castigo imposto às filhas de Eva (como nos enfiaram goela abaixo), mas porque, por uma razão inexplicável, a vida também dói.

Contrações. Era assim que a onda se apresentava. Reconheci o padrão. As mesmas curvas, a mesma intensidade. A diferença era que, ao invés de se manifestarem ao pé da coluna, as contrações eram no peito.

Por quê? O que está me batendo à porta? O que é que nasce pelo cardíaco? Quanto tempo o parto dura?

(perguntas ainda sem respostas)

*

Só o tempo dedicado a refletir sobre essas questões me traria alguma paz, foi o que eu entendi. Longe de querer buscar respostas simplistas, mas também sem sucumbir à impotência, me dediquei àquela conversa como quem se entrega a um último recurso.

Mas…

Diálogo demanda escuta.

Escuta demanda pausa.

Pausa demanda tempo.

A vida artificial do calendário meritocrático respeita o nosso pulso?

É claro que não.

“Trabalhe enquanto eles morrem”, é o que a cartilha diz.

Como fazer, então, para conversar com aquele bicho-onda em meio às infinitas demandas esperando pela minha devoção?

Tive que abrir mão de várias delas, me expor, falar a verdade. “Não estou dando conta, gente”. Negociei prazos, pedi apoio, deitei por terra o orgulho. Pessoas queridas dividiram o fardo. Ao menos por uma semana (pensei), que se tornaram duas (na marra), depois mais. “Vou ter que trocar o pneu com o carro em movimento”, eu dizia. Movimento? Pra onde?

Busquei outros diálogos. Conversando com uma amiga que também já havia passado por isso, ela foi certeira:

– Amiga, a gente tá sofrendo é de capitalismo.

*

Aquilo também fez sentido, “sofrer de capitalismo”.

Ou, como preferi chamar, capitalite. Tinha que ser algo assim, nome de doença que dá geral, tipo amigdalite, conjuntivite, faringite, hepatite. Porque esse não é um problema só meu, é um surto coletivo, mas que se disfarça de fracasso individual, escondido na vergonha meritocrática de não se “autorealizar” num mundo onde termos a suprema liberdade cocriar tantas possibilidades.

Capitalite. Adentrei aí, para ver o que tinha nesse balaio. Encontrei tanta coisa, tanta coisa juntaemisturada, um emaranhado tão grande, meu Deus, que respirei fundo para não me perder.

*

A primeira coisa que vi: essa pandemia é democrática. Evidentemente, é fatal para as grandes maiorias chamadas de minorias, mas não deixa de fora nenhuma das outras castas. No pé da pirâmide, materializou-se como uma furiosa arena pela sobrevivência, alimentada por aliados como o racismo, machismo, desigualdade social, homofobia, xenofobia, capacitismo, e tantos outros desequilíbrios que atacam o nosso campo de necessidades básicas. Literalmente, conspiram contra a vida, exterminando o ser na sua existência mais elementar, material.

Contudo os sintomas da capitalite não se resumem “apenas” aos infinitos boletos do “pacote básico de subsistência” postos à mesa todo mês, pontualmente, tendo você condições de pagá-los ou não. Conforme vai subindo pela escalada social, onde supostamente a arena atinge menos pessoas, vemos que essa doença ataca também o humano no seu aspecto mais subjetivo, eliminando nossa capacidade de respirar no presente e de vislumbrar um futuro.

Esse segundo sintoma da capitalite não é tão evidente, mas é tão atuante quanto o que está explicito. No meio da minha crise, quando toda a realidade perdeu nitidez, entendi que, da mesma forma que passei boa parte da minha vida espremendo a barriga para caber no Mito da Beleza, também espremi meu precioso tempo, meu ânimo e minha força criativa para caber no Mito da… autorrealização?

Que palavra define?

Como nomear essa fantasia generalizada que faz com que acreditemos que, se nos destacarmos do corpo da humanidade, se nos desnaturalizarmos, seremos mais visíveis, logo felizes?

*

A individuação é inerente ao ser, e ela acontece independentemente de alguém nos “aprovar” como um ser existente. Mas, como nos desconectamos dessa percepção, agora acreditamos que, para sermos relevantes, precisamos delegar poder a uma entidade externa chamada “outros”. Nessa distorção, a busca por qualquer individualidade gera angústia.

Angústia dói.

Como remédio, então, além da arena da sobrevivência (que é uma dinâmica compulsória), também nos é proposto viver um jogo paradoxal: uma “gincana de felicidade”, que tem como meta a conquista da plenitude, mas cujo caminho traçado, pelas vias tortas que segue, a impossibilita. Sim, mesmo quando se alcança o objetivo traçado, o sucesso é transitório, configurando, assim, um moto-perpétuo na busca e, consequentemente, no jogo. Obviamente, nada disso é dito, caso contrário a gincana não daria certo. É necessário haver uma esperança de êxito, mas apenas para os mais puros ou esforçados. Os merecedores.

Ainda que se oculte a falácia, a prática dessa gincana tem gerado exaustão, e algo em nós acusa que “algo de errado não está certo aí.”. Então, por que ainda optamos por seguir as regras?

Arrisco dizer que é por desespero, porque elas nos prometem entregar um caminho certeiro para o fim do sofrimento. Ainda que, para nos encaixarmos no jogo, precisemos nos desumanizar e aprender a chamar de meta o que é apenas desejo. E desejo não é necessidade ou vontade, é pura ânsia, um buraco sem fim.

Os povos antigos já deram um nome para isso, Samsara, e há tempos nos ensinaram como superar a ilusão gerada por este ciclo fechado. O problema é que não temos mais tempo para ouvir a sabedoria ancestral, porque a arena da sobrevivência, aliada à gincana da felicidade, exigem toda nossa atenção. Ainda que essas dinâmicas apresentem tantas falhas, como já não temos energia para vislumbrar outra realidade possível, sucumbimos ao que está dado, com mais ou menos consciência. E acabamos preferindo ignorar o fato (cada vez mais impossível de ocultar) de que tais jogos jamais serão vencidos, porque propõem como única saída a conquista individual.

Eis a grande meta.  

Ou propósito, chame do que quiser. A causa pode até ser nobre, mas se o motor que te anima a jogar é a fuga de uma vida medíocre (que nunca foi) ou a busca pelo pódium de “pessoa especial”, a gincana irá te aprisionar mais do que a busca pela sobrevivência. Não porque ter uma causa ou se autorealizar seja algo ruim, mas porque os efeitos colaterais da capitalite no nosso cérebro transformam o ideal humano, aquele chamado “sonho”, no maior gerador de boletos que existe.

Então, além de todas as contas postas à mesa, aquelas básicas, encontrei, debaixo da toalha, outra imensa dívida: aquela contraída pelo simples fato de desejar ser, nessa existência, alguém relevante.

*

Solidão.

Ainda no meu casulo, entre um diálogo e outro com o “bicho-onda”, chorando em posição fetal, também testemunhei o desfile de dores causadas nas nossas relações, tanto as interpessoais quanto a que temos com a gente mesmo.

Puro abuso, abuso constante. Abuso estrutural, já existe essa expressão?

Percebi o quanto me oprimia em nome da minha realização: “Aguente só mais um pouquinho”, é o que eu disse a mim mesma por anos a fio. “Tá quase lá”.

Quase lá.

Abuso que gera esgotamento, e nos impede de colher da vida suas verdadeiras dádivas, todas gratuitas, todas disponíveis hoje, em abundância, como o ar a se respirar. Tão bonito falar isso, mas tão difícil de ver. Porque o que aprendemos a chamar de sonho ofusca essa simples realidade. E nos torna menos gente.

Ao nos desumanizar, desumanizamos quem está conosco. O outro torna-se apenas o recurso para atingir a próxima fase, ou alimento pra compensar a falta. Enfraquecemos as relações, condicionados que estamos a julgar precocemente as pessoas nos tribunais midiáticos por não termos mais paciência para uma percepção mais generosa. A multiplicidade de quereres impede a profundidade, nos mobiliza a trocar de lugar constantemente, nos induz a colecionar experiências não porque a vida nos convida verdadeiramente a elas, mas pelo simples “medo de não aproveitar ao máximo todas as ofertas”. Colecionamos vínculos na dispensa da nossa “rede”, para uso descartável, presente ou futuro. E tudo isso encontra brecha, justificativa, porque nos tornamos escravos dos nossos próprios desejos, que aprendemos a cultuar como deuses.

Perdidos na ânsia de sermos servos fiéis deste panteão, nos esquecemos de nossa integridade. Da nossa dignidade. Do nosso respeito.  

Respeito. Palavra quase desaparecida, entre tantas urgências. Substituída por outra, tão em moda: cansaço.

*

Também estou cansada.

Cansada de diagnósticos sem cura, cansada de previsões fatalistas, da acidez sem medida, e até das palavras, antes minhas amigas.

Percebi o quanto necessitava de silêncio.

Se agora desatei a falar é porque passei dias na muda, trocando de pele calada na noite. Doída. Tentando discernir o que é uma crise genuína, própria do processo humano, aquela dor ancestral que precede o nascer, e o que é uma crise circunstancial, invasora de mentes, doença de época, forjada por um sistema estúpido que nos é artificialmente imposto a todo momento. A todos nós, e por todos nós.

Sim, somos todos responsáveis. Este é um pacto coletivo.

O que fazer?

Ainda recolhida no ninho das pequenas escutas, só posso dizer: não tenho respostas, nem a pretensão de que as terei.

Apenas senti que precisava entregar, um a um, o que aprendi a chamar de sonhos. Com eles, ofereço também a vã esperança colada no fundo da minha caixa de Pandora, com a intenção de arrancar das minhas crenças o “agora vai”, buscando viver o “agora é”.

O que tem me mantido de pé é a bondade que eu sinto vir da nossa gente, essa força que ainda resiste a toda desumanização. Sim, ela existe. Muito além de palavras ou ideologias, foram os olhares sinceros, as mãos dadas no silêncio e os abraços carinhosos que me ajudaram a restaurar um pouco da minha fé no porvir.

Só acreditando que há um futuro possível eu consigo libertar o novo ser que pede para nascer.

Talvez sonhos mais verdadeiros brotem deste parto.

Talvez.

Sinceramente, não quero ter nem mais essa expectativa. Minha cura, atualmente, é não mais querer, para não mais dever. Ou, se o querer for inevitável, que ele se contente em dividir comigo meu vazio.

Quem sabe,

neste silêncio de desejo,

eu encontre novamente

Espaço

E tempo

De ser.

E, junto a toda gente,

Conspirar.

A Última Sessão de Música

Ah Bituca amado!

O que foi esse show, meu Deus, o que foi isso? Por um instante lembrei do que é ser humana, lembrei que a realidade pode ser doce, que em meio a tantos gases lacrimogêneos os sonhos não envelhecem, tecem, tecem, tecem…

Que show foi esse, minha gente, que me fez mergulhar na nascente, abrir memórias da infância, que me encheu de esperança, que me fez ter vontade de abraçar todo mundo, que me fez respirar de pulmão cheio e lembrar de tanto ar que ainda cabe, que me relembrou que somos feitos de sonhos eternos…

Ah Milton! Obrigada por dar vida às Min(h)as Gerais que guardam mistérios cheios de graça, por mostrar que nas esquinas podemos encontrar muito mais que desvario infértil, que o amor é muito, muito, muito mais potente que qualquer outra influência nefasta que tente se achegar…

Que show foi esse meus Deus? Minha Deusa, meus Deuses, todos os Anjos cantantes… essa gente toda junta celebrando o AMOR, o amor, o amor, a música, a poesia, a amizade, a força da canção quando sai do lado esquerdo do peito … ai minha terra!!! O poder dessas montanhas, desse sorriso sincero, do afeto que cura que cura tudo e rio rio rio rio rio….

Que coragem essa despedida! É preciso ter força e muita raça pra aguentar viver esse momento! Celebrar nosso tempo com sua dor e alegria, sobretudo com tanta tanta tanta poesia.

Obrigada Milton. É preciso ter sonho sempre, e você nunca me deixará esquecer disso. Talvez porque eu também escuto essa canção das montanhas, aquela mesma que faz a gente ter essa estranha, (talvez mineira) mania

de ter fé na vida.

(Imagens do show “A Última Sessão de Música” , realizado no dia 13/11/22, no Mineirão, em BH. Esse foi o último show da carreira de Milton Nascimento, mas sua música segue para sempre)

4.7

4.7. Hoje.

Entre sensações ambíguas, mergulhando nas rachaduras, pedi de presente um abraço do sol.

Estava frio, e ele me acolheu.

Mirando as cicatrizes no cimento, revelou-se o além do solo desgastado.
Havia pontos radiantes.
Constelações que brilhavam em pleno dia, encarnadas.

Talvez as estrelas que me sussurraram fossem ilusão de ótica, desvio de olhos cansados.

Talvez (não).

Não fosse o desgaste do tempo, escurecendo o cinza, não haveria o brilho revelado pelo contraste.

Não há concreto que resista quando o espelho da alma te convida a sonhar.

(escrito no dia do meu aniversário, mas postado só hoje)

4.7. Hoje.

Entre sensações ambíguas, mergulhando nas rachaduras, pedi de presente um abraço do sol.

Estava frio, e ele me acolheu.

Mirando as cicatrizes no cimento, revelou-se o além do solo desgastado.
Havia pontos radiantes.
Constelações que brilhavam em pleno dia, encarnadas.

Talvez as estrelas que me sussurraram fossem ilusão de ótica, desvio de olhos cansados.

Talvez (não).

Não fosse o desgaste do tempo, escurecendo o cinza, não haveria o brilho revelado pelo contraste.

Não há concreto que resista quando o espelho da alma te convida a sonhar.

só hoje.

Foco no abacaxi, que ele tá quase estragando, coloca a roupa da máquina, tira a batata do forno, concentra também no job que já tá atrasado e aproveita e foca no corpo que anda meio parado que que custa andar um pouco e também fazer yoga cadê horário ainda bem que a minha mãe recém operada tá bem e tenho uma irmã e um irmão e toda família ajudando foca agora no sorteio dos boletos pendura uns mas não esquece de tirar do prego sem sonhar com livro no prelo porque agora não da tempo nem pra sentar e nem pra acento pontuação é privilégio reticências nem se fala mas ponto final tem que colocar minha filha entrega logo esse job pra pegar os próximos graças a Deus que tem trabalho não posso reclamar de nada mas reclamo sim dessa familicia e sua corja de seguidores passando motosserra em tudo cagando por onde passam uberizando geral e deixando corpos empilhados e um país inteiro pra gente arrumar lembra do abacaxi senão vai desperdiçar bora virar esse jogo esse ano tem eleição chega desse martírio não fica parada que nem fruta na fruteira esperando alguém tomar uma providência senão você vira banana tipo exportação dada quase de graça com propina em paraíso.

Ou tipo essa aí, que perdeu o ponto.

.

(Vai lá. Descasca logo esse abacaxi.)

o Caribe é aqui

 

Esse móvel tem história, uma longa história.
Mas estava tudo escondido sob uma pele desgastada, desbotada, desfiada.
 
Nunca era prioridade essa reforma. Acumulávamos contatos de tapeceiros, pendurados no futuro. Na fila dos boletos, ficava sempre no pé da lista.
 
Enquanto não chegava o dia, eu fazia de tudo pra disfarçar: colocava mantinha por cima (que teimava em deixar à mostra justo a parte rasgada do tecido), e dizia pra mim mesma que aquilo não era tão importante.
 
“É só um sofá, é só um sofá, é só um sofá…”
 
(Mas não colava. Aquele gigante detonado no meio da sala havia se tornando um ícone.)
 
Daí chegou a quarentena. O olhar pra dentro. A urgência da cura, do que pede cuidado.
 
Então ele ousou, o homem-inventor.
Olhou para o corpo rasgado e viu um novo futuro. Pelas suas mãos. Pegou as ferramentas disponíveis, vestiu-se de vontade, e começou.
Um pequeno ajudante, o menino-entusiasmo, somou-se à tripulação.
 
Viraram o casco de cabeça pra baixo, descamaram o tecido doente, e aquela barca revelou sua potencial estrutura. O que estava abaixo era firme. A madeira era forte. Ele iria sobreviver.
 
No lugar do braço, entrou a madeira nova, que estava parada na oficina há anos, apenas esperando sua vez de brilhar.
Aos poucos, a nova forma foi se desenhando: almofadas soltas, madeira aparente. Lixada, envernizada, posta à luz.
Não era uma reforma, era uma revolução.
 
A enorme barca trocou de pele. Ficou com a nossa cara.
O azul profundo do oceano entrou na nossa casa, lavando a memória dos tempos difíceis.
 
Não, não é só um sofá. Nunca foi, nunca será, só.
Esse é nosso navio, e com ele desbravaremos novos mares.
 
(agradecemos aos familiares que nos apoiaram nessa viagem e à Dona Catarina que costurou as almofadas… <3)