Mulher:

Eu tenho frio.
Um corpo arrepio.
É um corpo sem pontas, arredondado,
pedindo por presença como um vaso,
cheio de vazio, de futuro.
 
Quem sou eu?
 
Silêncio.
 
Um canto que vibra depois da última nota. Espreitando, esperando, o dia em que puder ser.
Ou talvez ser agora, no auge da dureza do mundo.
Porque eu broto do contrário.
 
Quantas vezes vou ter que nascer e renascer, ainda nascendo mulher, ainda tentando
entender de corpo inteiro como é se jogar assim, sem o mínimo de resposta, no escuro?
 
Sem vela?
 
Na hora mais escura da noite, aquele segundo em que todas as estrelas piscam?
Quem sou eu? A pausa no respirar nas estrelas?
 
Confesso.
 
Confesso sentir o amor como uma flor escancarada no peito. Confesso medo quase insuportável de queimar nesse calor.
Nessa ida até onde nem sei, confesso.
 
Eu confesso, mas não me orgulho.
 
Confesso não ter seguido meu pulso.
 
Confesso ter desdenhado a dor de tantas outras, confesso ter tentado fugir,
confesso ter nascido no fluxo, confesso ter memória pequena, confesso ter deixado de ouvir o canto,
confesso ter me resignado às migalhas do pouco desse tempo, confesso ter cortado os pulsos e deixado esvair meu ser inutilmente, confesso ter destilado veneno por pura inveja de quem nada teme, confesso ter submetido o meu pranto ao martírio de causas levianas, confesso ter julgado as tantas outras formas de vida,
 
confesso ter me perdido da vida. Confesso ter me deixado na sombra.
 
Confesso ter congelado um sorriso cordial e covarde, confesso a dor da memória de um tempo que eu tenho o medo do acesso, confesso a dor desmedida de quem não esconde ferida exposta,
confesso ter incendiado a minha casa antiga e velha e mofada,
confesso ter me atirado na longa jornada sem pão e sem rumo,

 
confesso soberba danada de quem não confia na ajuda dos homens,
confesso soluço jogado a esmo sem ter uma voz que acalante,

confesso a procura de um tempo onde o ser volta à tona parindo sorrisos,
confesso o peso das coisas que hei de largar mas ainda carrego,

confesso a esperança de ter vislumbrado a saída num longo caminho,
confesso a fé que se escora nos olhos vendados e mãos estendidas,
confesso difícil a entrega pra quem foi julgada, traída e perdida,

confesso uma chance presente de rever história com olhos crianças,
confesso desejo de ser plenamente o que sonho com ar de lembrança,
confesso desejo de dar nova chance a essa vida que é nova e que chama.
 
Confesso que não quero mais confessar.
 
Pelos lados, quero só respirar.
 
Conspirar.
 
Ligar traços,
 
desenhar constelações.
 
 
(trecho da peça teatral Jukebox, publicada no livro Campo de Transe, Editora Presságio.
Arte da Milá Bottura Dias da Silva)

Marielle presente em verde rosa e purpurina

Esse é só o começo.

Não se detém, de forma alguma, o que está no cerne de uma nação.
Em 2018, no auge do meu desalento, eu pensei: “Como as forças dessa terra permitiram isso? Tanto ódio, tanta injustiça?”

Difícil lidar com tanto, partindo da ignorância de quem vive a vida em tempo linear, segundo após segundo, ao rés do chão. Mas em suave perspectiva histórica, poucos meses depois, a despeito de gritos despeitados, a semente não apenas brotou. Rompeu o solo com tudo e desabrochou na maior ópera a céu aberto do planeta.

Eis nossa resistência: o grito forjado na festa. No passo do corpo livre, ao som de tambores, mexendo com tudo, deixando de lado todo moralismo que nunca foi nosso: veio importado em pele extrativista.

Pois bem, bem-vida seja a nossa cura. Pois se as sombras todas também saíram em desfile, é tempo de cuidar. E harmonia, como uma escola de samba bem sabe, não um exército marchando uníssono no medo e na violência covarde. É diversidade que dança junto, cada qual a seu passo, movida pelo sentido de alegria e beleza.

Valeu, Mangueira, por ter me lavado a alma!

 

Performers hold flags with an image of slain councilwoman Marielle Franco during the perform of the Mangueira samba school during Carnival celebrations at the Sambadrome in Rio de Janeiro, Brazil, Tuesday, March 5, 2019. (AP Photo/Silvia Izquierdo)

 

 

 

Meu inverno é fluxo. Minha paz é vermelha.

 
30 dias já. Nada dela chegar.
Isso é terrível. Essa suspensão, sob um céu cinza, trovejante.
Tempestade que ameaça, mas nada de água.
 
Às portas da tenda, aguardo a autorização para o repouso. Tenho me dado esse suspiro: pelo menos, um certo recolhimento. Aquele, para a refazenda.
(ai, abacate do Gil, fruta-fêmea que se escuta e respeita).
 
Mas nada.
Não é gravidez, fiz até o teste. Nada excepcional.
Apenas espera.
 
O fluxo, antes, era reduzido. De 28 pra 25. Três dias apenas na conta da diferença, até passei em consulta pra ver se tudo bem ficar assim, “desregulada” e tal – contudo, em segredo, gostava dessa estação adiantada. O resguardo virou luxo em tempos de tanto barulho. Essa era minha pequena subversão: adiantar-me à lua. Experimentava o fluxo ora na cheia, ora minguante, nova ou crescente, esse pequeno delay me fazia caminhante pelas fases, vivendo o descanso em cada uma delas.
 
Agora, tudo parou.
Aguardo, estática, a chegada da quarta estação. Anseio por ela, que para mim não é fria.
É silêncio.
 
Mas nada.
 
Quem me avisa?
“Não farei mais por você, ó mente inquieta, a tarefa de apaziguar tremores.”
Avisa a mim ou o que penso ser, identificada com o pensamento que já voa além do calendário gregoriano?
 
Corpo, taurino que é por essência, empacou.
A cabeça do touro, forma-útero, então me falou por dentro, por baixo, do centro:
 
“Se eu sou você, então venha aqui me escutar. Venha e seja, desidentifique-se com a palavra corpo, como algo que se vê sem estar. Corpo é só ser, coisa una. Seja corpo, e deixe a mente ser o outro – até estranho – a que você se refere como coisa fora de si.”
 
Muito confuso – pensou o ser-mente, coisa que penso ser.
 
“Seja, ou não sentirás mais o giro do fuso” – Sentenciou.
 
Sede de vermelho. Sede de fluxo, do descanso do ciclo. Quero noite, quero escuro, quero a caverna que me refaz e acalenta. Quero o colo da mãe, aquele que me embala nesses três/quatro dias de júbilo. Quero sangue.
 
Em mim, o inverno ainda aguarda.
Céus em tempestade.
Nunca senti que seria tão desesperadora a imortalidade.

há que se cuidar

Há que se cuidar do broto

pra que a vida nos dê flor

e

fruto.

Três brotinhos: esse foi o templo que a vida me concedeu nos últimos tempos.

Parei. Tive que parar tanta coisa. Tive que começar tanta coisa… A cada um que chegava, rever minha própria chegança. Porque há que se tomar tempo pro tempo de cria. Há também que se ter alma lúcida. Há que muita coisa. Mas também há o que está além do “há que”.

Para além do “avental todo sujo de ovo”, comerciais de mamãe-bebê, cartilhas de mãe moderna, todo e qualquer modelo do que ser mãe significa e se ressignifica ao longo de todos os tempos, essa parte da música do Milton trouxe, de repente, de forma linda e sintética, a noção do que é esse ofício: um imenso laboratório alquímico. Ou, se preferir, a figueira debaixo da qual sentou Buda. Campo para transformação, ou até transmutação.

Começa com o corpo. Mas além do parto, o que ainda nos espera? A longa estrada da criança: criar além da chegança. Burilar palmo a palmo da pequena alma que eu era, nesse reflexo renovado que, dia a dia, me abraça e mira com todo amor que um dia sonhei sentir.

Cuidar do broto, a cada dia. Entender que espírito é esse que me brindou com sua presença. Ouvir nossa história juntos. Conduzir carinhosamente essa plantinha até a elevação máxima dos seus potenciais, ser também solo, terra. E quando sentir as raízes profundas no corpo do meu ser, confiar que o sol fará sua parte.  Celebrar cada flor que desabrocha, exalando um perfume ímpar: saber-se testemunha do propósito, então do filho, alcançado, vertendo em novos frutos pro mundo.

A co-criação com a vida: é isso, mãe?

todo mundo merece um creditozinho, né não?

crefisa-credito-facil-2

Não passe vontade. Compre agora. Pense depois. Pegue já o que é seu. Positive-se. Dedo em riste. Não espere. Aproveite! Últimas unidades.

vencedores não esperam. vencedores pegam a oportunidade.

vencedores não se frustram. pegam agora e pensam depois. o futuro não existe.

mercadorias abundam

bundas também.

mulheres tem bundas

(homens também. mas nenhum quer ser bundão)

ninguém merece esperar. pode pagar depois.

as mercadorias não merecem esperar. querem ser consumidas.

especialmente, se vestirem curtas embalagens

fáceis de rasgar.

 

algumas saem de graça

não precisa nem pôr na conta.

 

algumas já vem cortadas em fatias

(só o filezinho, sem osso)

e ainda embalando amortecedores de consciência.

 

cervejamulher

 

Vem, meu bem!

tá esperando o que?

corre, que vai acabar!

 

pinup

 

(reflexões e analogias trazidas pelo companheiro de vida Djair Guilherme, em nossas conversas estimulantes sobre o corpo, a atualidade e o SER.

Aqui tem a versão dele dessa mesma história)

frases do cão (de se ouvir e acreditar) sobre vida com filhos

normalmente, parecem grandes elogios, ou pequenas piadas.

mas são a porta pro fundo do poço.

sobre pais:

“que sorte que ele te ajuda em casa”

“quer dizer que você tem dois meninos na sua casa?” (um é o pai)

“que bom que ele é um pai carinhoso!” (oi? não era pra ser?)

“nossa, ele trabalha e também ajuda a cuidar dos filhos” (variação das anteriores, mas sintetizando o espanto)

(história termina com um moleque-mimado-mimimi  – mas ainda pai – posando de herói e secretamente arrependido de ter se metido nessa “roubada” . Ainda achando que merece uma medalha cada vez que pega o filho no colo)

 

sobre mães:

“como ela é forte!” (como uma mula de carga)

“impressionante como ela dá conta!”

“e ela faz tudo sozinha!”

“tem coisas que só a mãe pode fazer” (isso só vale pra aleitamento. o que nos primeiros 6 meses, significa pelo menos 5 horas do dia dedicadas a isso, no mínimo.)

(história termina com uma mãe-chuck-norris com síndrome de mulher-maravilha completamente esgotada, cheia de medalhas por ter dado conta de tudo melhor que qualquer um.)

 

no futuro:

O pai nunca deixa de ser filho, e passa a ser filho de seus filhos, mala eterno.

A mãe, depois de anos de raiva acumulada, manda a conta de tudo o que deu conta pros filhos, virando vítima eterna do fardo maternal.

 

(gente, a Medéia já passou por isso, virou mito, peça grega, até sambinha do Chico. tá na hora de aprender e largar essa carroça, né não?)

38 em vênus

olhos irradiam raios
apontando nas bordas
presentes da maturidade

 

vEnUs

 

 

a tempo: carxs canalhas da indústria-da-estética-padronizadora: meu rosto não é poleiro pra ter pé de galinha.

não me importam as marcas. o que me interessa é se elas vão registrar mais sorrisos (sinceros) que tristezas (escondidas).

as feministas vão destruir o mundo

e rápido.

 

Porque elas não sossegarão enquanto tudo não terminar.

 

Elas são Kali. mostram a língua, tem dentes afiados. são o terror, e não vão parar enquanto não fizerem em pedaços todo o tecido fiado pelo pecado original. enquanto Eva for vadia, enquanto Conhecimento for leite de cobra,

elas não descansarão.

 

Invadirão casas com sua intensidade de vida, com seus cheiros de vida, sua sexualidade livre,

morderão quilos e  quilos de maçã, sem medo,

influenciarão seus filhos e filhas, suas moléculas, seu DNA.

Irão banir de nossas células o sofrimento da culpa, do pecado, do controle,

 

 

do medo da vida,

 

 

não se importarão com o formato dos contornos, dos pelos, mas vão arrepiar seus pelos em êxtase a cada contato de pele.

Irão destruir os templos da sexualidade imposta

e reconstruir os degraus que levam ao templo sagrado do corpo.

 

Terão sangue entre as pernas, pois sabem que esses rios nos contam o fluxo de nossas histórias.

Terão marcas no corpo, honrando a dança do tempo.

Terão flores brotando de sua terra, mas não serão cultivadas em estufa.

Terão os cheiros das intempéries.

Terão plugadas as antenas ancoradas no útero, caverna imemorial de toda sabedoria.

 

Elas vão destruir o mundo

(realidade imposta como prisão)

e reconstruir o amor.

Kali_By_Piyal_Kundu

arte de Piyal Kundu

de quem é a mulher? (ou ainda sobre o debate)

Quando me convidaram pra falar alguma coisa no debate que ia rolar na ESPM sobre feminismo, a violência contra a mulher e o abuso da mídia (mais informações no post anterior), achei que ia estar em casa. Fiquei revirando minhas memórias de mais de 15 anos em ativismo humanista pra buscar uma forma simples e sintética de falar de um caminhão de coisas que o tema “feminismo” sugere. Eu, particularmente, sempre penso na não-violência num campo mais abrangente, mas sei que às vezes as “lutas” tem que tomar formas mais recortadas para melhor representar problemas específicos de violência: sejam eles de desigualdade social, sem-terra, sem-teto, violência contra homossexuais, contra mulher, violências raciais e tantas variedades no cardápio de horror que vivemos nessa era de luz e sombra.

Alguns dias antes da conversa, comecei a perceber uma criação de borboletas no meu estômago. Não entendi a razão desse sentimento. Será que eu estava nervosa? Era estranho. A coisa foi piorando até chegar no dia do debate, quando eu já acordei com trombetas na cabeça. Além disso, havia dois fatores intensificadores de sensibilidade: o estado de gravidez (que normalmente me faz ficar entre-mundos) e as reverberações de uma vivência que experimentei durante o último final de semana baseada em ensinamentos do profundo feminino. Ou seja, eu era tudo menos um cabeção. Era um nervo exposto e um coração em taquicardia.

Ao entrar no auditório, a intensidade desse sentimento cresceu. Era, pra mim, um lugar conhecido, com muitos rostos conhecidos, mas a sensação era estrangeira.  O local estava cheio, na grande maioria, por alunos. De “fora” , apenas uma convidada, a blogueira Nádia Lapa, que escreve sobre feminismo e liberação feminina, e eu, que também era meio de dentro: Por estar bastante próxima do coletivo que iniciou a discussão, fui convidada a abrir o bate-papo, não apenas por ser professora da casa e ex-aluna, mas por ter feito parte, há 20 anos, do grupo que fundou a TV Pixel, um dos temas da discussão. Fiquei honrada com o convite, mas não sabia a intensidade da questão até aquele momento em que entrei no auditório com as tais borboletas batendo asas em frequência máxima.

“Vou fazer o que dá”, pensei, já me degladiando com meu ego-militante-fascista que me exigia nada menos que a perfeição (sobre esse senhor falarei mais tarde). Quando a coisa começou, minha voz parecia uma gelatina. E uma pergunta começou a palpitar na minha cabeça: Por que estava tão difícil falar? Por que essa sensação de estar falando baleiês? Mas fui tocando em frente. Já adianto que sou uma pessoa bem venusiana e tenho terror de conflito. Terror. Não acho que isso seja virtude, é praticamente um preconceito. Então quando me percebi numa arena armada, vi o tamanho da encrenca: estava muito longe da minha zona de conforto.

A conversa seguiu com outras apresentações, e quando eu parei de falar, fiz o árduo exercício do silêncio e da observação. Minha vontade era falar por horas, mas muita gente precisava também se colocar, e eu precisava entender – ou sentir – o que estava acontecendo. Havia algo se materializando no subterrâneo do auditório.  ” Por que está tão difícil falar?” acabou virando, na minha mente, “por que está tão difícil?” E quando a forma da conversa passou da apresentação pro debate, quando as pessoas começaram a tomar a palavra, percebi que a dificuldade de falar não era só minha, mas de todo mundo que colocava (ou não) as mãos no microfone. Era uma densidade impressionante o que eu sentia, um estado de confusão latente, anos e anos de opressão eclodindo em tentativas de conter em simples palavras sentimentos contraditórios e antigos. Por que está tão difícil, por que está tão difícil?.. E de repente, sapatos começaram a voar pela platéia, e logo depois eram bolsas. E então eu percebi, num rapto, que não estávamos falando só de um video, só de festas universitárias, de passadas de mão, era um negócio mais antigo. Era uma ferida profunda, muito doída, séculos e séculos de opressão, tudo encolhido numa palavrinha de sete letras: estupro. Pronto, aí eu vi: abrimos esse portal. Agora vamos ter que aguentar isso aqui… Agora vou ter que sentir as feridas de minha história pessoal, de todas as mulheres oprimidas da minha ancestralidade, da origem do meu próprio país. Não era só eu, era toda uma linhagem, que em última instância abarcava a humanidade inteira.

De volta do rapto, percebi que voavam línguas. E a discussão foi para o conceitual, para as terminologias, para os “ismos” e o problema dos “ismos”. Uma fuga, seria? Vamos pro racional conceituar porque é o termo é confuso ou porque é insuportável ficar no corpo e  lidar com essa dor coletiva? Uma dor que tem nas mulheres suas maiores representantes, mas que também atinge todos os homens, é claro. A dor existencial é a mais igualitária de todas. E havia um grau de contrariedade e violência, de resistência, uma outra coisa que eu tentava entender ali. Por que tanta dificuldade em aceitar o direito humano a suas próprias escolhas? Nos meus anos de ativismo, só tinha visto esse estado de tensão e patrulha em movimentos que tratavam de uma polêmica em especial: o direito à propriedade privada.

Então, tóin. Um gongo.

Entendi.

Da mesma forma que é tão difícil abrir mão do direito irrevogável (e ilusório) à propriedade da terra, de um pedaço de um planeta boiando num mar de estrelas e infinitos universos assegurado por um pedaço de papel registrado em cartório, assim era com o corpo. No momento em cada um reivindica o direito de ” dar pra quem quiser”, oficializa-se o fato de que “isso não é do outro por direito”. (Aliás, se alguém desse mesmo sairia da transa sem corpo. O que às vezes acaba acontecendo simbolicamente. Na verdade, se a coisa rola gostoso, a gente compartilha). Então vi que esse “direito tácito ao corpo humano alheio”, em especial o da mulher, (talvez por ser tão parecido ao corpo do planeta) é o que faz parecer que esses corpos estão à disposição para uso e abuso de quem assim queira. Ao ter esse “direito” negado, há, é claro, resistência. Então percebi que estávamos discutindo o direito à propriedade. Ou a confusão sobre o que é propriedade.

Novo rapto. Então vi o que é nascer. Chegar a esse mundo tão só, e ter como consolo um seio jorrando leite. E ter a plenitude da  vida pulsando no planeta. Sim, a vida é plena e generosa, e caminhamos para uma autonomia. Primeiro aprendemos a extrair o ar por conta própria, e não por um cordão. Depois, aos poucos, substituímos a nutrição no corpo da mãe pela nutrição cedida pelo corpo da Terra. E a Terra é farta, especialmente no país onde vivemos, cheio de água, de árvores, de terra. Não precisaríamos tomar nada, só colher o que nos é dado de bom grado, agradecer, e também CUIDAR, e DEVOLVER.  Muitas sociedades entenderam isso, e por isso havia tantos ritos de gratidão, reverência e fertilidade. Ao agradecer, tomamos consciência de nossa dádiva, e nos tornamos felizes por estar sendo cuidados. E assim, embalados por essa graça, também cuidamos. É essa a troca. E nosso querido Brasil era pleno dessa dádiva, e não é à toa que se tornou o Eldorado para quem, já refugiado de guerras, escassez e violência, aqui aportou há alguns séculos.

Mas quem chegou, não veio criança. Já havia perdido sua conexão, sua CONFIANÇA na plenitude e no amor. Chegaram pedaços de homens, e por isso fizeram em pedaços a natureza que aqui vivia. A dor do abandono, do auto-abandono, que nos leva a querer tomar do outro esse amor não recebido. Porque cortamos o canal, porque a abundância vem da mesma fonte onde também damos ao mundo alguma coisa. Mas na nossa ferida, nos sentimos vazios, e vamos talhando do mundo o que nos falta, manipulando, oprimindo, e reclamando o direito quando ele nos é ” negado”. E todos nós, homens e mulheres, somos assim. E compensamos esse vazio tentando pegar do outro o que, em nosso delírio, pensamos não ter. E também fazemos isso com nós mesmos, viramos um servo desses infinitos desejos sem saciedade, das ordens daquele senhor que nos manda fazer isso ou aquilo, ser isso ou aquilo, de provar que somos importantes, de provar que somos melhores, que existimos, e viramos adictos de algo que pelamordedeus acabe de vez com essa dor de estar vivo,

e sozinho.

Porque perdemos a conexão e a confiança na bondade e na abundância.

Então, possuímos. Fazemos do planeta, do outro e de nosso próprio corpo uma prótese bidimensional dos desejos desse tirano – ou tirana – que essa dor cultivou. Ficamos cegos à tridimensionalidade, à subjetividade do outro. Somos os bárbaros saqueadores, somos as terríveis manipuladoras (quem já viu a animação Kiriku e a Feiticeira?), somos almas rasgadas por espinhos cobrando do mundo e de outros um remédio contra essa ferida. Se não recebemos, vamos pegar por roubo. Ou, no mínimo, passar a mão na bunda.

…”E passaram a mão na bunda da minha amiga”,

e aí retornei do transe durante um relato pessoal ocorrido em uma festa da ESPM. E já não voavam tantos sapatos, e algumas pessoas colocaram algumas histórias pessoais na roda. E alguns pedidos de desculpa aconteceram. E eu percebi que todo aquele barraco tinha sido também necessário, o circo precisou pegar fogo pra limpar um mínimo de feridas. Porque tem coisa que a gente limpa com a água, e tem coisa que só o fogo transmuta. E por mais difícil que tenha sido, cada um teve um papel importante, seja na lucidez ou na confusão, para mover a carga de energia que foi mexida naquele auditório.

Do começo àquele momento, haviam se passado 3 horas. Oficialmente, houve um fim, mas quando eu saí de lá uma grande quantidade de pessoas ainda conversava, e seguiu conversando nos bares. Pessoalmente, eu segui o debate nas horas seguintes, com a cabeça física no travesseiro e a mente vivendo outras grandes discussões em sonhos. Acordei numa ressaca incrível. Fui meditar, fazer tai chi, qualquer coisa que me trouxesse de volta ao meu corpo, e então chorei, chorei, chorei. Não de tristeza, nem sei dizer que sentimento movia aquelas águas. Só sabia era o tempo de recolher e aprender. De ouvir de mim o que ficou daquilo tudo.

E percebi, agradecida, que depois de tanto tempo de ativismo, o que eu vivi foi uma experiência nova.

Difícil, mas nova. E viva.

 

a liberdade de ser livre

“Recentemente, um vídeo sobre a cobertura de uma festa universitária expôs o depoimento de um dos convidados que incitava explicitamente a cultura do estupro que, infelizmente, aparece enraizada em nossa sociedade. Muitas pessoas da própria faculdade enxergaram o depoimento como “apenas uma piada”. Além disso tudo, em discussão argumentativa no Facebook, as meninas que questionaram a postura condenável do vídeo e das pessoas que o aceitavam foram chamadas de “mal comidas” entre outros. Como resposta ao acontecido, um aluno da faculdade documentou “Um vídeo não é um vídeo, uma brincadeira não é só brincadeira… Pelo menos, nem sempre. Muitas vezes, é você contribuindo para piorar a cultura do país”. E é todo o contexto que motiva esse post. Chega de nos conformarmos com o que é considerado “okay”! Chega de alimentarmos esse discurso de violência maquiado de piada!”

 

Isso aconteceu na faculdade onde tenho o prazer de lecionar. O fato inspirou um debate virtual, que agora vai se materializar num auditório, mobilizado pelos próprios alunos e alunas e apoiado pela diretoria acadêmica. Coisa deliciosa de se ver, viver, degustar. Gosto dessa palavra, prazer. Não, não estou sendo irônica. Prazer é vida, e não é à toa que todas as funções que colaboram para a vida geram prazer.

Mas as palavras, por sua natureza, às vezes podem conter significados opostos, dependendo de quem fala. O prazer é assim, e também a graça. A experiência é individual, nossa visão de mundo é subjetiva, então sempre me pergunto: como é possível coexistir em harmonia no meio de tanta diversidade? Não apenas de formas, mas principalmente entre visões de realidades tão diferentes?

A dificuldade de uma harmonia natural gerou a necessidade da Lei. Um consenso pré-estabelecido entre o que pode e o que não pode. Muitas vezes, essa lei foi defendida na espada, no fio da guilhotina, e hoje há uma maquiagem civilizatória que não torna as coisas assim tão diferentes. Há quem defenda pena de morte. Mas onde não há consciência mútua tem que haver a regra, então por enquanto sim, as leis são necessárias (não a pena de morte!), e a ética é essencial. Mas eu me pergunto: quando é que isso vai passar de uma formalidade externa – muitas vezes até moralista – para um sentimento coletivo de bem comum, uma necessidade que cada um experimenta como parte da própria sobrevivência?

Nos últimos tempos, tenho convivido bastante com gerações mais novas que a minha. Já adianto que não gosto muito dessas divisões por idade, meu encontro é entre essências, mas também é impossível uma certa comparação. Há exatamente 20 anos, era eu quem estava nesse mesmo espaço onde hoje sou professora, então recém-chegada do interior, feliz da vida pelo novo momento que estava vivendo: passar na faculdade, vir para São Paulo, fazer novos amigos, viver meu sonho de arte e liberdade.

A ESPM era bem menor. Muitos grupos e entidades estudantis hoje já consagradas estavam embrionárias. Assim foi, também, com a TV interna, na época chamada TV Pixel. Inspirados pelo novo estúdio de video recém-inaugurado, um grupo de alunos começou essa empreitada. Éramos apaixonados por video e sem nenhuma experiência, mas muita vontade. Só tínhamos uma câmera Super VHS e uma ilha linear que sempre travava, mas foi o suficiente para começar uma série de programas que variavam entre um humor clownesco (o épico Shoroeder’s Time), revistas culturais e matérias sobre viagens e picos interessantes. E lógico, cobertura de festas, jogos e eventos internos. Não sei o que sobrou desses programas, mas o que ficou dentro da gente foi precioso: muitos de nós foram estudar cinema, outros foram direto para o mercado e se tornaram grandes profissionais internacionalmente reconhecidos, outros retornaram à casa como professores, e cada um de nós fazendo ainda crescer essa semente plantada nos anos 90.

No meu caso, acabei indo estudar cinema, fiz curta-metragens, depois me tornei documentarista e pulei para os palcos do teatro como dramaturga, descobri o mundo através da arte e do ativismo humanista e hoje ainda tenho a honra de compartilhar tudo isso no papel de professora. Quem me conhece bem sabe que essa palavra não cabe bem pra mim – prefiro ser uma provocadora.

Mas o assunto aqui é outro. Devido aos fatos recentes, lembrei de uma história antiga: Naquela época da TV Pixel, nós nos preparamos para fazer a cobertura da famosa Festa do Lúcio que, na ocasião, foi dentro de um circo. Além de fazer a cobertura, ajudei na organização da festa, o que fez com que eu passasse o dia inteiro com apenas algumas bolachas de água e sal no estômago. A festa foi linda, divertida, e nós da TV fizemos nossa matéria: o video da festa registrou de tudo, o cara que desceu pelas cordas lá de cima da lona, a banda performática, gente dançando e se divertindo. No bundas, No peitos. E ninguém sentiu falta.

Depois, merecidamente, me joguei no bar. Mas ao final de duas caipirinhas, caí.

PT mesmo = Nada no estômago+sono atrasado+cansaço acumulado (+ provavelmente vodka ruim). Conhecem essa fórmula?

 

Perdi total a consciência.

 

Era meu primeiro ano em São Paulo. Família longe. Todos os amigos eram recentes.

 

Quer saber onde eu acordei?

 

Em que situação?

 

Num pronto-socorro de um hospital. E com um amigo do meu lado. Amigo, sexo masculino.

Depois ele me levou pra casa. E eu guardei dessa noite memórias lindas e alguma ressaca. E levei pra vida uma grande amizade. Ele talvez tenha ficado meio de saco cheio, mas também levou a memória de ter cuidado de alguém. Hoje ele mora em Brasília, a gente se fala pouco, mas sempre com o carinho dessa época.

Sim, é uma história com final feliz. Depois disso, já bebi muito, caí outras vezes, ajudei a curar amigos caídos, vivi plenamente uma época de muitas descobertas. Não precisava me preocupar com o que iriam pensar de mim. Nem com a altura da minha roupa. Juro, sei que parece mentira, mas a coisa não era assim. Naquele dia da festa, eu lembro, minha barriga estava de fora, e isso não foi um problema, nem sinal verde pra violência. E fui livre, porque ao meu redor havia cuidado.

Entranha essa natureza ambígua das palavras… liberdade é a uma das mais pronunciadas, e uma das mais invertidas. Assim como o amor. E não são esses os nossos maiores anseios?

“Liberdade é passar a mão na bunda do guarda”, era uma expressão conhecida. Agora é passar a mão na bunda da moça. É fotografar e filmar alguém passando a mão na bunda da moça e botar na rede. Isso, na menos pior das hipóteses. E por aí se reivindica a liberdade de achar graça no que se quer, e impor essa graça particular ao coletivo.

Não, não estou aqui pra cagar regra, nem quero ficar moralizando. Mas também não aceito ser vítima da cagação de regra travestida de liberdade de expressão, do autoritarismo do quarto poder: a mídia. E mídia não é só televisão, ou a internet. Tem uma mídia bem antiga e eficientíssima, a fofoca. O papo ao pé do ouvido com olho desviado para o lado, em geral pra vida alheia. A fofoca eletrônica virou compartilhamento, e cada um é responsável pelo que gera com o que faz reverberar por aí. Como nos mostrou mestre Shakespeare, os piores venenos entram pelos ouvidos. E matam, mesmo a longo prazo: entorpecem gerações inteiras, e também nossa sensibilidade e consciência.

Em uma conversa hoje com uma pessoa da TV, ela me disse com total sinceridade que a intenção de colocar o tal depoimento no video era a oposta do que foi interpretado. Era mostrar o quanto era “tosco” o que o menino dizia. Também falou do tratamento intolerante que estão recebendo. Num terreno minado, bombas explodem sem dicriminação. Infelizmente, toda polêmica tem o risco de resvalar para a violência, para a disputa de egos, para a intolerância, e isso de ambos os lados, independente de se ter ou não razão. Então ficam as perguntas: Se ninguém quer declaradamente ser violento, por que a violência é, às vezes, tão irresistível? Porque o “tosco” é sempre o outro e nunca a gente mesmo? Aposto que ninguém passou na fila da falta de noção antes de nascer, é algo que acontece por ignorância. Perceber a ignorância é um bem, e ficar nela é uma opção. E quantas e quantas vezes falamos atrocidades e depois nos arrependemos, e é bom poder se arrepender. É bom perceber quando somos eco de opiniões que nós mesmos, aparentemente, discordamos. E podemos, sim, corrigir. Mas quanto maior o alcance da mensagem, maior a extensão do equívoco, e maior o trabalho que dá, depois, pra reverter.

Todo mundo sabe dos riscos de ser um cirurgião, ter a vida humana entre as mãos. Mas poucos falam da responsabilidade de ser um comunicador. Do poder das imagens dentro do nosso psiquismo. De como uma imagem pode colaborar para a vida ou para sua destruição. E gerar cultura.

A famosa imagem, por exemplo, do homem das cavernas puxando a mulher pelos cabelos, quase um atestado de nossas “origens”. Riane Eisler, conhecida pesquisadora e historiadora, mostra no seu livro “O Prazer Sagrado” que existiam sociedades neolíticas baseadas na cooperação mútua, e que essa “piada histórica” não só é uma mentira, mas colabora para justificativas recentes de brutalidade. Ela define bem a oposição em que vivemos: relações de dominação ou relações de parceria. Não fala de homens ou mulheres, feminino ou masculino. Vai na essência, da base do que se aspira em cada relação, seja individual ou coletiva. Fala das feridas antigas geradas pelo desequilíbrio histórico em que a era do cálice, do graal, deu lugar à espada. À cultura de dominação.

A cultura do estupro é ferida antiga na humanidade. E esse sangue histórico, vindo das guerras européias, também se misturou ao vermelho do nosso pau-brasil. As “grandes navegações” foram também grandes invasões, não apenas de terras, mas de corpos nus de índias, e também de crenças e sutilezas. A origem do nosso povo é fundada nessa fenda. E talvez por isso haja um embasamento tão aparentemente “natural” para tais aberrações.

Mas não cabe a mim julgar. Pra falar a verdade, acho ótimo quando as coisas vem à tona, porque é assim que a gente cura feridas – e eu acredito que elas podem ser curadas. Porque quem – seja homem ou mulher – prefere a liberdade de usar sua “graça” para humilhar o outro não percebe, na sua ilusão de ser livre, o quanto está enredado a essa visão de mundo em que você tem que ficar esperto se não quiser ser fodido por quem está do lado. Isso não acontece só sob efeito do álcool, acontece no trabalho, nas relações, e a vida se torna uma perpétua prisão, uma fuga desse estado em que o outro nada mais é do que uma ave de rapina. Acho triste. Prefiro acreditar em outra coisa, e já me dei a liberdade de não crer numa realidade única.

No meu mundo, liberdade é cuidado, e homens e mulheres podem viver sua natureza em harmonia, sabendo-se protegidos uns pelos outros. Felizmente, esse mundo é também de muitas mulheres e homens que acreditam no amor como forma máxima de expressão da vida. Nesse mundo honra-se nossa origem, o poder do masculino e do feminino, a força do céu e da terra, da sabedoria do útero e do conhecimento da alturas.  E nele há também espaço pra sombra de todos nós, mas ela não vem para justificar barbaridades, mas para nos dar a medida da nossa evolução.

Não, não somos perfeitos, ainda bem. Senão a vida seria tediosa, sem nada mais que fazer que falar da roupa alheia…

Termino agradecendo profundamente esse momento histórico, com todas essas grandes discussões. Isso sim é estar viva. E viva a graça, viva o corpo, viva o prazer mútuo, viva a alegria, viva essa polêmica! Espero que ela não colabore para gerar novas cabeças pra guilhotina, independente de que lado seja. Chega de lados partidos. Chega de fragmentação. Chega de culpa. Vamos gerar consciência.