devaneios minguantes

Saiba, menina

Um dia seu frescor será inverno

Entenda, moça,

Que uma estação é apenas evento

Invente, deusa

O tempo de raras belezas

Em que a magia das pétalas recolhidas

Abra seu espírito para o templo de dentro

Para que a segunda primavera seja, de fato,

um jorro

depois da corajosa morte

saber da semente

 

Se a semente soubesse
que seria terra sua sina
que seria, depois, socada no escuro,
que seria, nunca mais, soprada nos ares,
brotaria?
fugiria?


se a semente só se soubesse semente
e não também raiz
e não também caule
e não também todo o resto, até as folhas,
até as flores,
(e suas partes feito asas, borboletas)
até o fruto.
(voltando a ser grão com desejo de terra).

Se semente se soubesse só
nunca seria.
ainda bem que elas só são.

canção do poente

Te vejo

Muito

Além

Do crepúsculo dos dias,

Da demanda (abençoada) das crias,

Da insônia (árida) em noites frias,

Do caos e o extremo oposto, apatia.

 

Te vejo além

Na valsinha que dançamos um dia

No passo quente que suporta a alegria

Nas mãos que se contentam, apenas

Na escuta do teu peito, impulso

No toque que transcende,

 

Transmuta,

 

Transporta,

 

Pro tempo que nos lembre

Sussurre

As curas

Pro som que nos ampare

E leve,

Seguros

Pra casa que nos cabe.

 

Te sinto

(na pele, nos poros)

Além do sol poente

(de um mundo doente)

Além dos sete outonos, invernos, tumultos

Além do próprio medo.

(um mundo-segredo)

 

Te vejo

No espaço do ensejo,

Com tom de quem te ama

(E cuida, e espera)

E canta todo dia

(em quase silêncio)

canção de primavera.

o dilema da flor

Como ser flor

Em tempos obscuros

Sem ofender, com a cor,

A nuvem cinza que se pensa apenas pesada?

Que pensa carregar penas,

Mas leva as águas,

Destemperadas

Que, uma vez desabadas,

Soltas na terra, como gozo de claro destino,

Vertem dores, desatino

num singelo e pequenino

(broto)

indicio de novas floradas

Mulher:

Eu tenho frio.
Um corpo arrepio.
É um corpo sem pontas, arredondado,
pedindo por presença como um vaso,
cheio de vazio, de futuro.
 
Quem sou eu?
 
Silêncio.
 
Um canto que vibra depois da última nota. Espreitando, esperando, o dia em que puder ser.
Ou talvez ser agora, no auge da dureza do mundo.
Porque eu broto do contrário.
 
Quantas vezes vou ter que nascer e renascer, ainda nascendo mulher, ainda tentando
entender de corpo inteiro como é se jogar assim, sem o mínimo de resposta, no escuro?
 
Sem vela?
 
Na hora mais escura da noite, aquele segundo em que todas as estrelas piscam?
Quem sou eu? A pausa no respirar nas estrelas?
 
Confesso.
 
Confesso sentir o amor como uma flor escancarada no peito. Confesso medo quase insuportável de queimar nesse calor.
Nessa ida até onde nem sei, confesso.
 
Eu confesso, mas não me orgulho.
 
Confesso não ter seguido meu pulso.
 
Confesso ter desdenhado a dor de tantas outras, confesso ter tentado fugir,
confesso ter nascido no fluxo, confesso ter memória pequena, confesso ter deixado de ouvir o canto,
confesso ter me resignado às migalhas do pouco desse tempo, confesso ter cortado os pulsos e deixado esvair meu ser inutilmente, confesso ter destilado veneno por pura inveja de quem nada teme, confesso ter submetido o meu pranto ao martírio de causas levianas, confesso ter julgado as tantas outras formas de vida,
 
confesso ter me perdido da vida. Confesso ter me deixado na sombra.
 
Confesso ter congelado um sorriso cordial e covarde, confesso a dor da memória de um tempo que eu tenho o medo do acesso, confesso a dor desmedida de quem não esconde ferida exposta,
confesso ter incendiado a minha casa antiga e velha e mofada,
confesso ter me atirado na longa jornada sem pão e sem rumo,

 
confesso soberba danada de quem não confia na ajuda dos homens,
confesso soluço jogado a esmo sem ter uma voz que acalante,

confesso a procura de um tempo onde o ser volta à tona parindo sorrisos,
confesso o peso das coisas que hei de largar mas ainda carrego,

confesso a esperança de ter vislumbrado a saída num longo caminho,
confesso a fé que se escora nos olhos vendados e mãos estendidas,
confesso difícil a entrega pra quem foi julgada, traída e perdida,

confesso uma chance presente de rever história com olhos crianças,
confesso desejo de ser plenamente o que sonho com ar de lembrança,
confesso desejo de dar nova chance a essa vida que é nova e que chama.
 
Confesso que não quero mais confessar.
 
Pelos lados, quero só respirar.
 
Conspirar.
 
Ligar traços,
 
desenhar constelações.
 
 
(trecho da peça teatral Jukebox, publicada no livro Campo de Transe, Editora Presságio.
Arte da Milá Bottura Dias da Silva)

14

 

 

 

 

Deslizando lentamente
Nessa superfície macia,
afago
essa rota antes preta, carvão.

A fricção, desfiada no tempo,
gera fogo,
forja,
nos anos a fio.

14

Para cada ano firmado,
A transmutação das veredas finas,
afago
agora rios vertendo prata.
Testemunhando a linda dança
das cores
da inevitável espiral dos dias.
na indomável espiral que te coroa.

14
longas voltas
línguas
novas inventadas, renomeando lugares repassados em outros estranhamentos
reinventando o que é fixo, para que entre ar nas estruturas prontas
rememorando o que é móvel, curando, curando, curando…

14.
E cá estamos.
Desde que, de lá, firmamos
Num rito mágico
Primeiro entre montanhas, depois entre linhagens,
O sentido dessa travessia compartilhada

14 voltas espiraladas
vendo passar, na ponta dos dedos que afagam
as cores cambiantes
alternando, na ponta do carbono-grafite
do lápis
o denso das contas mensais
vincando o traçado
(imaginário)
(nas pontas dos dedos que amam)
no seu corpo,
ligando pontinhos espalhados, ora pretos, ora vermelhos,
organizando constelações.

Preto carbono forja tempo
Amor em balão alquímico
(matrimônio)
transmutando a forma das estruturas
dançando
a busca incessante
do carbono-diamante.

Bem que me avisaram do inverno

Mas ainda era outono
E eu vivia cercada de ventos amarelos
Munida da certeza de resistir a tudo.
 
Bem que eu soube que não seria dócil
Mas meu peito era forte
Deflorei fronteiras cercas muros correntes
Enquanto a retina se embranquecia
 
Não será tão fácil, bradavam inúteis vozes
Cega, ainda ouvia, mas ignorava,
Retendo no sangue meus cacos em luta
Passo a passo entregue ao escuro desvario
 
(Obscuro sonho:
Um coro entoando uma canção dissonante.)
.
.
.
 
Não, não é brinquedo
Conta-se do inverno
Que ele toma a fé de quem nele caminha
Mês a mês deixando
Pela travessia
Tecos de mil planos já esfarrapados
 
Não é nada claro
Disse, enfim, o guia,
Para o desespero de quem pede mapa
Deixe aqui na porta
Toda a esperança
Senha da guiança sem nenhum contrato
 
Sabe-se do inverno
que é uma temporada
longa noite inerte em tempo interrompido
horas congeladas
anunciam as perdas
minhas oferendas a um altar vazio
 
frente ao santuário
dura feito pedra
padecendo as penas de quem não se dobra
deixo, enfim, a paga
abro os dedos rotos
desço ao solo seco
largo a casca morta.
 
Nada vem em troca
(Não é esse o acordo)
.
.
.
 
Não resta palavra
fim de todo verso.
 
.
.
.
 
Des exista
.
.
.
até que não lhe sobre mais nenhum gesto
.
.
.
a casca que a serpente libera em nada conversa com a nova que se cria
.
.
.
Como pode o inexistente queimar tanto?
 
(libera)
mas os compromissos todos
(entrega)
mas as responsabilidades
(deixa)
mas a seda ínfima que sustenta a teia
(desfia)
 
Nada nada nada
Ao simples roçar de um controle solta
nada nada nada
desagua, evapora, desintegra, desatomiza.
 
Elétrons sem núcleo, sem próton, sem órbita.
Desmateria, liberta a luz.
E da potência errante, só dela, a vida reinicia o sonho-semente
até o próximo
.
dissolver