o Caribe é aqui

 

Esse móvel tem história, uma longa história.
Mas estava tudo escondido sob uma pele desgastada, desbotada, desfiada.
 
Nunca era prioridade essa reforma. Acumulávamos contatos de tapeceiros, pendurados no futuro. Na fila dos boletos, ficava sempre no pé da lista.
 
Enquanto não chegava o dia, eu fazia de tudo pra disfarçar: colocava mantinha por cima (que teimava em deixar à mostra justo a parte rasgada do tecido), e dizia pra mim mesma que aquilo não era tão importante.
 
“É só um sofá, é só um sofá, é só um sofá…”
 
(Mas não colava. Aquele gigante detonado no meio da sala havia se tornando um ícone.)
 
Daí chegou a quarentena. O olhar pra dentro. A urgência da cura, do que pede cuidado.
 
Então ele ousou, o homem-inventor.
Olhou para o corpo rasgado e viu um novo futuro. Pelas suas mãos. Pegou as ferramentas disponíveis, vestiu-se de vontade, e começou.
Um pequeno ajudante, o menino-entusiasmo, somou-se à tripulação.
 
Viraram o casco de cabeça pra baixo, descamaram o tecido doente, e aquela barca revelou sua potencial estrutura. O que estava abaixo era firme. A madeira era forte. Ele iria sobreviver.
 
No lugar do braço, entrou a madeira nova, que estava parada na oficina há anos, apenas esperando sua vez de brilhar.
Aos poucos, a nova forma foi se desenhando: almofadas soltas, madeira aparente. Lixada, envernizada, posta à luz.
Não era uma reforma, era uma revolução.
 
A enorme barca trocou de pele. Ficou com a nossa cara.
O azul profundo do oceano entrou na nossa casa, lavando a memória dos tempos difíceis.
 
Não, não é só um sofá. Nunca foi, nunca será, só.
Esse é nosso navio, e com ele desbravaremos novos mares.
 
(agradecemos aos familiares que nos apoiaram nessa viagem e à Dona Catarina que costurou as almofadas… <3)

o primeiro passo pra fora do ninho

Todos os dias temos a “hora da história”. Um momento de recolhimento antes de dormir. Equalizar a escolha do conto não é fácil, são idades muito diferentes. Mas, com um pouco de ginástica, funciona.
 
Até que chegou o dia.
Quando me dei conta, estava falando sozinha.
Pedro lia um livro, Gabriel outro, e o Chico os imitava.
 
Fiquei puta. Dei chilique. “De que adianta contar uma história se ninguém quer escutar?”
 
Discursei sobre a preciosidade do meu tempo, escorrido inutilmente naqueles minutos inférteis. Bla bla bla.
 
Eles se sentiram culpados.
Eu me senti uma déspota.
(eu fui, de fato, uma)
Quando a rainha de copas abandonou meu corpo, entendi meu ataque de frustração: como ousam não depender mais desse rito, nosso ninho enredado pelas tantas histórias contadas?
 
Como ousam crescer em plena quarentena?
 
O que eu faço com esse espaço aberto, escancarado, na minha vida?
 
 
Ontem li um conto para o Chico, enquanto os dois liam seus próprios interesses.
Todos juntos, no mesmo lugar: nossa biblioteca-cafofo-de-embalar-sonhos.
 
“A gente gosta de ficar perto de você, mãe.”
 
Claro, filho. Claro…
Pode ficar…
Para sempre.

canção do poente

Te vejo

Muito

Além

Do crepúsculo dos dias,

Da demanda (abençoada) das crias,

Da insônia (árida) em noites frias,

Do caos e o extremo oposto, apatia.

 

Te vejo além

Na valsinha que dançamos um dia

No passo quente que suporta a alegria

Nas mãos que se contentam, apenas

Na escuta do teu peito, impulso

No toque que transcende,

 

Transmuta,

 

Transporta,

 

Pro tempo que nos lembre

Sussurre

As curas

Pro som que nos ampare

E leve,

Seguros

Pra casa que nos cabe.

 

Te sinto

(na pele, nos poros)

Além do sol poente

(de um mundo doente)

Além dos sete outonos, invernos, tumultos

Além do próprio medo.

(um mundo-segredo)

 

Te vejo

No espaço do ensejo,

Com tom de quem te ama

(E cuida, e espera)

E canta todo dia

(em quase silêncio)

canção de primavera.

MATRIX E A PÍLULA ROXA

 

Era uma tarde como outra qualquer, em que eu me movia entre consultorias literárias e refletia sobre o roubo das narrativas. Esperava o ônibus para ir ao próximo encontro literário, enquanto pastoreava pensamentos. O foco da minha revolta era o final da série Game of Thrones, um sequestro da história original – que também seguia rumos originais – que fora completamente distorcida pela indústria. Especialmente as personagens femininas.
 
Era essa minha briga da semana. Eu, escritora, revoltada com a manipulação da saga, das personagens, de toda a audiência. Eu bem sei o quanto custa escutar e pescar uma história verdadeira de dentro de si, daquelas que te obrigam a romper os próprios preconceitos. Ver todo um trabalho sério ser conduzido a um filme Disney da pior qualidade foi sofrido.
 
Com esse discurso debaixo do braço, aguardava o ônibus. Estava cansada, o dia havia começado cedo e já estava há doze horas na ativa. Por isso, quando o vulto aproximou-se de mim com clara intenção de contato, nem olhei. Só disse, cortante, para que me deixasse em paz:
 
– Não tenho dinheiro.
 
Mentira.
Qualquer outro dia seria verdade. Não carrego mais notas. Mas nesse dia eu tinha, e bastante, tudo com endereço certo, boleto específico, mas o fato é que eu tinha. E não estava disposta a dar.
 
Já estava esperando a réplica óbvia, mas não foi o que eu recebi.
 
– Você não está me escutando, moça. Eu não estou te pedindo nada. Por favor, não coloque palavras na minha boca.
 
Se é uma coisa que me deixa feliz é uma linha de diálogo que foge do óbvio. Seja quem fosse aquela pessoa, me conquistou pela dramaturgia. Pelo menos a cena seria outra.
 
Olhei, finalmente, para o vulto.
Era um homem velho. Velho e musculoso, portando uma bengala em uma das mãos e uma caixa de balas na outra. Falava meio enrolado, com dificuldades motoras (teria sofrido um derrame?), o que tornava tudo mais lento. Pedi desculpas pela grosseria, ainda disposta a acabar logo com aquilo e pegar meu ônibus. Mas algo me deteu.
 
Não sei ainda o que foi. Talvez o fato dele ter me olhado nos olhos, e ter qualquer coisa de vivo ali. Mais vivo do que qualquer outra pessoa navegando em black mirror. Ao cruzar meu olhar semi vivo e cansado, ele se encorajou a contar sua história. Lentamente. Com um ônibus atrás do outro passando, com meu horário encurtando, e com algo me fazendo ficar ali, com os pés no chão, ouvindo.
 
Mostrou suas marcas, de quando era morador de rua. Mostrou os músculos que ganhou quando superou a rua. Falou da filha, de onze anos e onze meses, que era o motivo pelo qual ele estava ali. Trabalhando. Nessa hora, voltou a me repreender:
 
– Você colocou palavras na minha boca. Você me diminuiu. Me desculpe, mas eu não podia deixar você fazer isso.
 
É claro que não. O quanto lhe custou construir essa dignidade do nada absoluto?
 
“Não coloque palavras na minha boca”.
 
Como fiz isso? Através do diálogo. Minha linha dedicada a ele foi a história óbvia: você é um impertinente que quer algo de mim, e eu não tenho nada para te dar. Caso ele entrasse nesse drama pobre e requentado que eu estava lhe propondo, a ele só caberia duas falas: Se desculpar ou insistir. Ao se recusar a viver essa história, ele me liberou desse martírio social.
 
“Não coloque palavras na minha boca. Não me diminua”.
 
(Não faça comigo o que você odiou que os roteiristas de GOT fizeram com sua seriezinha de estimação, moça.)
 
O mais louco é que ele falava tudo isso sem violência. Sem ressentimento. Era quase paternal. Inclusive me disse:
 
– Você foi malcriada comigo, mas depois me escutou e eu vi que você é uma pessoa boa.
E pediu desculpas.
 
Pelo que ele se desculpava? – me perguntei. Por ter me atravessado a ponto de ver minha maior fraqueza e me jogar na cara – me respondi.
 
Eu, roteirista, dramaturga, escritora. Sempre colocando palavras na boca dos outros. Sempre no controle da narrativa. E agora, o que faço com essa sombra? Meu ofício é também meu tormento. É possível abrir mão de estar todo o tempo escrevendo, com a pretensão de saber o que irá acontecer, linha por linha? Com a pressão de escrever todos os diálogos, moldar todas as personagens, dar nomes, falas, ações???
 
Na vida?
Nem no papel.
Caí no chão. Fui pega na minha maior mentira. E com uma frase:
“Não me diminua”
 
Mas havia a conexão. Havia uma estranha gratidão no ar. Ele me deu um drops. Eu quase recusei, esse é seu trabalho, tem certeza?, mas ele quis me dar mesmo assim. Isso me fez pensar que também devo ter dado algo a ele. Talvez minha vulnerabilidade. Porque, ao contar sua própria história, ainda que fosse tão mentirosa quanto minha falta de dinheiro, ele chorou. E eu também. Não por pena. Mas por compartilhar com ele esse cansaço de uma vida fadada a viver papéis tão pequenos. Nós, expressões da divindade, que podemos ser o que quisermos ser, condicionados à mediocridade. Essa conversa nos libertava disso. Ali, naquela pequena zona autônoma temporária, instauramos o tempo da poesia. Ainda que fingida, forjada. É necessário esforço para sucumbir à grande narrativa imposta.
Ali, cocriamos algo novo. Quase perguntei a ele o nome da sua filha, só para ver se era invenção. Mas algo em mim que não se importava com nada daquilo tomou a frente da minha fala. O nome que perguntei foi o dele.
 
– Miguel – ele disse.
– O meu é Claudia.
 
Finalizamos aquela cena com um abraço. Como uma celebração daquelas verdades encobertas por mentiras. A verdade que compartilhamos: estamos fartos das mesmas histórias. Só queremos contato, ouvir, sermos ouvidos. E que ninguém nos roube nosso nome, nossas falas, nossa dignidade, impondo sobre o grandioso que somos uma história pobre e fadada ao sofrimento.
 
Depois me despedi, carregando em meu corpo seu perfume barato. Seu nome reverberando, logo esse, no ano de São Miguel. E seu andar claudicante, como meu próprio nome.

Marielle presente em verde rosa e purpurina

Esse é só o começo.

Não se detém, de forma alguma, o que está no cerne de uma nação.
Em 2018, no auge do meu desalento, eu pensei: “Como as forças dessa terra permitiram isso? Tanto ódio, tanta injustiça?”

Difícil lidar com tanto, partindo da ignorância de quem vive a vida em tempo linear, segundo após segundo, ao rés do chão. Mas em suave perspectiva histórica, poucos meses depois, a despeito de gritos despeitados, a semente não apenas brotou. Rompeu o solo com tudo e desabrochou na maior ópera a céu aberto do planeta.

Eis nossa resistência: o grito forjado na festa. No passo do corpo livre, ao som de tambores, mexendo com tudo, deixando de lado todo moralismo que nunca foi nosso: veio importado em pele extrativista.

Pois bem, bem-vida seja a nossa cura. Pois se as sombras todas também saíram em desfile, é tempo de cuidar. E harmonia, como uma escola de samba bem sabe, não um exército marchando uníssono no medo e na violência covarde. É diversidade que dança junto, cada qual a seu passo, movida pelo sentido de alegria e beleza.

Valeu, Mangueira, por ter me lavado a alma!

 

Performers hold flags with an image of slain councilwoman Marielle Franco during the perform of the Mangueira samba school during Carnival celebrations at the Sambadrome in Rio de Janeiro, Brazil, Tuesday, March 5, 2019. (AP Photo/Silvia Izquierdo)

 

 

 

14

 

 

 

 

Deslizando lentamente
Nessa superfície macia,
afago
essa rota antes preta, carvão.

A fricção, desfiada no tempo,
gera fogo,
forja,
nos anos a fio.

14

Para cada ano firmado,
A transmutação das veredas finas,
afago
agora rios vertendo prata.
Testemunhando a linda dança
das cores
da inevitável espiral dos dias.
na indomável espiral que te coroa.

14
longas voltas
línguas
novas inventadas, renomeando lugares repassados em outros estranhamentos
reinventando o que é fixo, para que entre ar nas estruturas prontas
rememorando o que é móvel, curando, curando, curando…

14.
E cá estamos.
Desde que, de lá, firmamos
Num rito mágico
Primeiro entre montanhas, depois entre linhagens,
O sentido dessa travessia compartilhada

14 voltas espiraladas
vendo passar, na ponta dos dedos que afagam
as cores cambiantes
alternando, na ponta do carbono-grafite
do lápis
o denso das contas mensais
vincando o traçado
(imaginário)
(nas pontas dos dedos que amam)
no seu corpo,
ligando pontinhos espalhados, ora pretos, ora vermelhos,
organizando constelações.

Preto carbono forja tempo
Amor em balão alquímico
(matrimônio)
transmutando a forma das estruturas
dançando
a busca incessante
do carbono-diamante.

quase um ano.

– O Dr Alfredo não vem mais aqui?
 
A gente nunca sabe que frase vai abrir a comporta.
De frente para a barraca da feira, aquela pergunta parou o tempo. Depois descongelou e eu respondi.
 
– Ele faleceu. Já vai fazer um ano.
(nossa, já vai fazer um ano em março…)
 
Sempre uma situação difícil: quem pergunta nunca espera uma resposta dessas. Mas ele apontou para o filho, que o ajudava na barraca.
 
– Uma vez ele tratou do meu menino. Ele ficou bom mesmo.
 
Era isso que meu pai fazia. Deixava as pessoas boas mesmo.
Agradeci àquele homem por lhe trazer a memória, e por me fazer perceber que o nó na garganta que venho sentindo não é só sobre o desgoverno, não é só sobre a enxurrada de lama que cobriu o país em 2018 que se fez matéria viva em 2019 (em mais um desastre), não é só sobre ameaças de morte atiradas sobre militâncias que lutam pelos direitos óbvios, ou pela extorsão de terras indígenas, ou por…
 
Não é só.
(Como se fosse pouco.)
 
É ausência. É ainda luto. E foi tanta coisa pra enlutar no último ano que não tive muito espaço para sentir que esse era um grande vazio.
 
Mas um vazio preenchido.
Porque a presença dele, no meio daquelas barracas, se fez forte. Quase ouvi sua risada, e um comentário seu com o sotaque mineiro que eu também carregava, mas agora nem tanto.
 
Feita a feira, pai, sentei numa mesinha de plástico para esperar a mãe comer o pastel inteiro, aquele de sempre que encerra as compras, aquele mesmo que vocês dividiam. Essa manhã estava fresca, um oásis nesses dias quentes, e enquanto lembrava de você sem resistir à comoção, a ventania era forte, arrepiava tudo. Desviei a cadeira para evitar o golpe nas costas, coisa que você sempre recomendava. Senti o vento de frente, batendo no peito.
 
Eu acho que te dei um abraço.

solutio

amigues, sinto que estou morrendo.
nada sério. vou ali dissolver e já volto.
porque nada nada nada que até então me sustentava existe mais.
aproveito esse momento entresonhos, em que minhas culpas ou meus pensamentos obsessivos deram uma trégua, para dizer: é quase um alívio.
 
abri mão do controle da narrativa.
(vejam só, para uma escritora isso é bem mais que morrer)
 
aceito, com tremor entre os dentes, que só me cabe cuidar. das pessoas próximas, de mim mesma, de quem conseguir.
e ser cuidada também. porque somos troca.
 
talvez o único que eu tente levar comigo nessa travessia (e terei que abrir mão na passagem final) seja um desejo de que tudo isso tenha um sentido, e que a humanidade caminhe para um outro patamar
(espero, não às custa de tanto do nosso sangue.)
(ofereço aquele que sai de mim todo mês pela causa, mas ainda é pouco)
 
só sei que cansei de sofrer.
mesmo com tanta dificuldade de confiar, sinto que não há outra saída: apenas morro.
desaguo, entrego, desfio minhas certezas.
e também minhas p a l a v r

um voo para as estrelas

Já conto alguns meses desde que ele atravessou a ponte.

Desde então, com toda correria malabarística do dessassossego contemporâneo, tenho vivido esse luto às prestações.

Uma coisa é clara: esses seres queridos passam a viver dentro da gente, em algum espaço profundo. Sua voz se faz clara. Sua presença, constante.

No dia de sua partida, eis aqui a história:

 

Minha fala ainda está engasgada.
Minha escrita não dá conta.
Só consigo agradecer. Inclusive o último presente que você me deu: me enviar um recado que precisava conversar.
Fui pra varanda, aquele lugar entre intermediário: nem aqui nem lá.
Fumei o cachimbo que foi da vovó, depois seu, e que você me deu.

Conversamos longamente. Eu confiei que você estaria me escutando. No começo não sabia nem por onde começar, mas depois da primeira palavra, o resto escorreu como uma cachoeira:

“Não sei o que te falar, pai. Nunca passei por isso. Mas se for como nos partos, posso dizer: tem aquela hora que a gente se entrega pro nada, se joga e confia. Ali você não cai no vazio. É o colo da mãe que te recebe. Deve ser parecido na hora que a gente faz a passagem”.

Lembrei dos nossos grandes momentos. Do som do seu sapato batendo na pedra enquanto andávamos de mãos dadas, minha primeira memória de caminhar ao seu lado. Do dia em que você disse que queria conhecer as estrelas numa nave espacial, e eu chorei tanto, tanto, com medo que você fosse embora. Hoje digo àquela menina: “o dia em que isso acontecer, pequena, será tão bonito! Não haverá medo, só amor e conexão. Sim, ficará a saudade, uma grande saudade, mas misturada com a certeza de que não estamos sós nos infinitos mundos.”

Nessa conversa, narrei a história-síntese da nossa vida. Te falei que ficaríamos bem, e recordei a você todo o amor que você deixou plantado, seja como um médico maravilhoso, como um pai tão protetor que às vezes eu protestava, ou como um homem capaz de grandes atos de entrega pela minha mãe (o que vocês atravessaram é um imenso exemplo pra mim).

Te agradeci por ter vivido com intensidade e inteireza tudo, por ter sido tão humano, tão verdadeiro em todas as suas escolhas. Muitas delas só entendi agora, nesse último mês no hospital, que pareceu um século. Nesse campo, seu local de trabalho por tantos e tantos anos, onde você salvou tantas vidas, uma grande cura aconteceu: o tempo se dilatou para que nossa família inteira e amigos próximos tivéssemos um aprendizado profundo.

Bateu um vento na varanda, senti que você me escutava. Te vi embarcando radiante, acenei com um gesto de entrega. Depois fui jantar com o Djair e os meninos, ainda entre os mundos. Finalizada a refeição, o telefone tocou. Eu já sabia. A notícia apenas confirmou meu presente: saber que você partiu sincronicamente ao som da nossa conversa. Esse foi meu grande sacramento.

Você, pai, que foi o grande contador de histórias, para quem eu fingia que só comeria ao escutar uma delas (e com toda paciência do mundo, me contava). Histórias e medicina se misturavam na sua essência, e eu herdei esse segredo. Você me iniciou nessa vida, e encerrou sua existência terrena me dando um diploma, e mais um aprendizado. Depois disso tudo, impossível não acreditar em um destino maior, em uma vida que segue além do espaço e tempo, e nessas conexões profundas que nunca irão se deter quando o espírito deixa o corpo e segue seu destino luminoso.

Estaremos aqui, continuando seu legado de amor e integridade.
Obrigada, pai.
Um lindo voo para as estrelas, para a luz que seu espírito merece.
Te amo, hoje e sempre.