
Dissol vendo.


de Claudia Pucci Abrahão

Qual é o palco?
Qual o lugar que me resta?
Se sou chamada pra festa mas nela não me cabe mais?
Qual é a voz?
Qual é o tom que se expressa?
Se sou um sol que infesta, ou chama que não satisfaz?
Qual a canção?
Qual é a nota liberta?
.
.
Se sou um som que espreita
.
Eita
Eita
.
Se sou um eco que clama
.
Ama
Ama
.
Se sou
Sou?
.
u.
.
.
(poema integrante do conto fantástico A Rainha das Pérolas)

Saiba, menina
Um dia seu frescor será inverno
Entenda, moça,
Que uma estação é apenas evento
Invente, deusa
O tempo de raras belezas
Em que a magia das pétalas recolhidas
Abra seu espírito para o templo de dentro
Para que a segunda primavera seja, de fato,
um jorro
depois da corajosa morte
Melancolia
Melão
Melancia
Melhor comertudocommel
Melado temperado + cháquentenessefriolascado
(Miora o dia?)
Quem sabe,
Mesclado com poesia.
(mesmo que em verso trucado, pra espantar agonia)
Se a semente soubesse
que seria terra sua sina
que seria, depois, socada no escuro,
que seria, nunca mais, soprada nos ares,
brotaria?
fugiria?
só
se a semente só se soubesse semente
e não também raiz
e não também caule
e não também todo o resto, até as folhas,
até as flores,
(e suas partes feito asas, borboletas)
até o fruto.
(voltando a ser grão com desejo de terra).
Se semente se soubesse só
nunca seria.
ainda bem que elas só são.
Te vejo
Muito
Além
Do crepúsculo dos dias,
Da demanda (abençoada) das crias,
Da insônia (árida) em noites frias,
Do caos e o extremo oposto, apatia.
Te vejo além
Na valsinha que dançamos um dia
No passo quente que suporta a alegria
Nas mãos que se contentam, apenas
Na escuta do teu peito, impulso
No toque que transcende,
Transmuta,
Transporta,
Pro tempo que nos lembre
Sussurre
As curas
Pro som que nos ampare
E leve,
Seguros
Pra casa que nos cabe.
Te sinto
(na pele, nos poros)
Além do sol poente
(de um mundo doente)
Além dos sete outonos, invernos, tumultos
Além do próprio medo.
(um mundo-segredo)
Te vejo
No espaço do ensejo,
Com tom de quem te ama
(E cuida, e espera)
E canta todo dia
(em quase silêncio)
canção de primavera.
Como ser flor
Em tempos obscuros
Sem ofender, com a cor,
A nuvem cinza que se pensa apenas pesada?
Que pensa carregar penas,
Mas leva as águas,
Destemperadas
Que, uma vez desabadas,
Soltas na terra, como gozo de claro destino,
Vertem dores, desatino
num singelo e pequenino
(broto)
indicio de novas floradas
Deslizando lentamente
Nessa superfície macia,
afago
essa rota antes preta, carvão.
A fricção, desfiada no tempo,
gera fogo,
forja,
nos anos a fio.
14
Para cada ano firmado,
A transmutação das veredas finas,
afago
agora rios vertendo prata.
Testemunhando a linda dança
das cores
da inevitável espiral dos dias.
na indomável espiral que te coroa.
14
longas voltas
línguas
novas inventadas, renomeando lugares repassados em outros estranhamentos
reinventando o que é fixo, para que entre ar nas estruturas prontas
rememorando o que é móvel, curando, curando, curando…
14.
E cá estamos.
Desde que, de lá, firmamos
Num rito mágico
Primeiro entre montanhas, depois entre linhagens,
O sentido dessa travessia compartilhada
14 voltas espiraladas
vendo passar, na ponta dos dedos que afagam
as cores cambiantes
alternando, na ponta do carbono-grafite
do lápis
o denso das contas mensais
vincando o traçado
(imaginário)
(nas pontas dos dedos que amam)
no seu corpo,
ligando pontinhos espalhados, ora pretos, ora vermelhos,
organizando constelações.
Preto carbono forja tempo
Amor em balão alquímico
(matrimônio)
transmutando a forma das estruturas
dançando
a busca incessante
do carbono-diamante.