descobrimentos

tenho descoberto coisas impensáveis sobre o que sou, e o que pensava ser.
percebi que o que eu achava ser paciência era uma profunda indisposição pra brigas. Preguiça mesmo.
agora, sei lá por que, se pelos acontecimentos, se pela gravidez, se pela lucidez, se pelo espírito santo, se por estar fazendo coisas enormes que exigem disposição pra luta, percebi uma enoooooorme impaciência. intolerância quase. muita raiva tb. nossa.
nenhum problema nisso. aliás, sinto-me livre de uma capa inútil. uma auto-imagem inútil e falsa. A falsa boa.
sei lá quem sou de verdade. mas nada a ver com o que eu era. ou pensava ser.

ele

o carcereiro
ele, na espreita
ele, sorrindo, olhando de lado. esperando o momento certo do bote.
ele, cheio de si e de críticas a mim
ele, vampiro
ele, traiçoeiro, sedutor
ele, jogando pra mim toda culpa do mundo.
ele, me julgando e condenando sempre minha falsa submissão
ele, me impedindo de ser plena e feliz
ele tirando o tapete
ele, cortando meus pés à entrada da morada
ele, jogando fumaça nas minhas certezas
ele, fingindo ser guia
ele, bússola que aponta pro sul.
ele, necessidade infantil de referência externa, ponto de referência de uma luta interminável e desigual.
ele, inimigo sempre evocado e projetado em humanos com rostos similares
ele, por que masculino?
ele, o perigo.

corrente

Imagine um rio
e, como uma foto, num instante dessa corrente congelada, um rosto.
na linha da eternidade, um eu existente.
uma expressão frágil, como parte de algo na iminência da mudança, de transfiguração em nova forma na água.
existência instável.

Imagine um rio
sem correntes congeladas, mas todos os rostos possíveis passando livres pela correnteza alternando-se, sem medo, no ir e vir da dissolução.

Visto um pouco mais de trás, o rio tem margens firmes,
forma precisa,
e destino certo: o oceano.

o mágico porvir

tanto espero
tanto sonho
tanto no futuro
que agora é difuso
eterno o porvir desejado
eterna a espera do sagrado
eterno casulo
útero-floresta
nascer? me tiraram
ainda preciso aprender a romper o véu:
coragem de viver

Pequeno estudo da personalidade tripartida

Ela manda
Ela obedece
Eu anarquia

Elas, algo das partes
Eu, parte de algo (maior)

Ela grita (ainda que pouco)
Ela chora (ainda que raso)
Eu medito (ainda que nada)

Ela,relógio
Ela adia
Eu sintonizo

Ela corta cabeças
Ela evita o confronto
Eu convivo (e converso)

Ela fala
Ela é muda
Eu escuto

Ela tropeça
Ela é cocha
Eu danço

Ela, tragédia
Ela, drama
Eu, comédia

Elas, ainda são
Eu, ainda tento
Ser

Ela, obsessão
Ela, sono
Eu, presença

Ela, trabalho
Ela, a cama
Eu, o mundo

Ela, a tirana
Ela, a traída
Eu, o amor

Ela executa
Ela reclama
Eu crio

Ela, a ama
Ela, a serva,
Eu, o torpor.

Ela esperneia

Ela é areia

Eu, além mar

Ela é fria
Ela, alergia
Eu, coração

Elas persistem
Eu tá no fundo
Tenta sair

Elas existem
Eu tá no mundo
Falta subir

Elas, no topo
Tapam o poço
Mas passa o ar

Elas nem sabem
o Eu já chega
Toma o lugar.

postagem cifrada: só para ele

Ver o ator que salta do homem-você me leva àquele tempo que te falei naquele dia. O tempo em que não somos só euzes-vocês-das-contas, mas o que?
Outra coisa.
Lendo a magia do momento preciso em que intenção passou a ser história, em que filho passou a ser corpo, em que sonho passou pra matéria, pergunto: é o que?
Não é coisa que evapora, que se esvanece ou que se esquece: se evoca.
Evoca-se como oração: não nos saquem a matéria dos sonhos! não nos deixem sós, rendidos, vazios, sozinhos em dois!
Evoca-se o papel na sagrada união de um tempo sem tempo. Lá, somos. De lá, já nos vimos. Talvez pra lá vamos.
E temos que ir sempre. Um tantinho a mais do que vamos, pra lembrar o que estamos fazendo juntos: muito além de uma casa.

um beijo mineiro. depois, todo o resto.
clau

ar

fora do contexto
co-ti-di-a-no
pergunto como posso não te ver tanto
te vendo tanto todo dia

chama luz

ela me persegue.
a sombra do inevitável
roubando a criança dos dias

ela me protege
a brisa da intenção
tornando transmutável o impossível