II

Noutro dia, vendo um vídeo-propaganda de “tratamentos para menoPAUSA”, paralisei. A frase que encerrava o anúncio era: “Você não precisa pausar sua vida”.

Não?

Aquela afirmação me gerou revolta porque, naquele momento, pausar era tudo o que eu queria. Pausar era o movimento que me faltava. E o tal “tratamento” prometia, gloriosamente, me livrar desse direito, que hoje é quase um privilégio. E ainda chamar de vantagem.

Não, pessoal. Parem as máquinas.

Eu quero pausa. Maispausa.

Muuuuuuuuuuuita p a u s a.

Ainda que não seja fácil.

Parando, tive que lidar com o terror de perder não só o lugar na janelinha que me levou anos para conquistar, mas o bonde inteiro. O medo de cair do trem. Perder a rota da sociedade. Ficar para trás, sozinha, enquanto os mais aptos seguiam no trilho.

Sim, é como eu experimento. E se, apesar sentir tudo disso, eu parei, não foi por rebeldia, ou por sustentar ideologias. Foi porque simplesmente não consegui continuar.

O sistema inteiro parou.

Doeu, mas foi isso que me colocou frente a frente com minhas reais necessidades. Não aquelas que aprendi a ter, fruto da cultura da época, mas as que foram sendo sussurradas a cada crise. Quase inaudíveis, em meio a tanta gritaria das múltiplas vozes em protesto, mas fortes o suficiente para chegar à minha consciência.

Nesses diálogos insólitos, entendi: a pausa era a única coisa que me conectava a algo diferente do sofrimento mental que eu sentia. Elas prolongavam o tempo da respiração sem medo que fosse um tempo roubado de coisas mais importantes. Fiquei tão necessitada do ato de pausar que, um dia, parei para contemplar o sinal que a representa. Os dois tracinhos para cima.

UaU.

Nas duas colunas verticais que a simbolizam, senti descansar o pensamento.

As duas barras paralelas me lembraram, e muito, aquele monolito do “2001, uma Odisseia no Espaço”, ou qualquer outro monumento que representasse a mesma coisa: a ligação do céu com a terra.

Conexão.

Pausar para silenciar, silenciar para ouvir, ouvir para conectar. Religar não só os planos altos com os baixos, mas também na horizontal, ligando gente com gente.

Pasmei: a pausa, na horizontal, significa igualdade.

Igualdade cria ponte. Cria identidade, conjunto, coletivo, conversa. Cria com.

Na igualdade, também pausamos. Descansamos o eterno competir pelo pódio, aliviamos a dor da separatividade e da exclusão, despertamos da ilusão de sermos mais, ou menos. Igualdade traz equanimidade. Alívio. E abre nosso campo para novas trocas.

(Novamente, as ligações.)

E a viagem foi além: juntando a pausa pro alto com a ponte pros lados, formou-se uma cruz. Uma cruz aberta, estranha, formada por retas paralelas. Uma cruz que se expande até o infinito, em todas as direções.

No meio, bem delimitado, vi o ponto de conexão. Nosso coração. Aquele que pulsa no hiato, princípio e fim de todas as coisas, coisa que só se nota quando a gente para.

A nota da vida, então, atinge um semitom mais alto. Na música, eis o sustenido. Do latim, sustinere. Apoio, suporte. Sustentação. Seu sinal? #.

# pode até virar ócio, brinquedo de jogo da velha, pra quem se permite pausar com inutilidades. Pausar pra cima, pra baixo, pros lados, pro fundo.

Profundamente.

E a gente, fazendo tantas hashtags por aí, nem percebe o que elas também podem ser…

#conexão