Às vezes a gente quebra

Foi isso o que a árvore sibipiruna em frente de casa me disse quando um grande galho dela partiu, acometido pela força dos ventos.

Depois, soube que no Sítio dos Bambus, onde fica a escola dos meus filhos, tombou um enorme eucalipto. Era como uma entidade, imenso, reinando no meio das salas de aula. “Eu não sou como os bambus, resiliente às tempestades”, ele me disse. “Eu também quebro.” E, magnífico que é, escolheu um feriado para o espetáculo da sua queda, sem atingir ninguém.

Às vezes o corpo quebra, seja um galho ou pela raiz. Quebrar gera um “antes e depois”, com um abismo no meio. Para dourar essa fenda, a cultura japonesa criou o Kintsugi, colocando ouro nas cicatrizes. Mas elas estarão lá, visíveis. E o vaso se transformou.

Às vezes, gente quebra. Há ouro que remende gente?

Neste ano também tombei, após tempos de tanto envergar. Eu, de natureza flexível, percebi que mesmo os bambus tem limite. E que minha ruptura se deu rasgando a brecha do meu maior medo: o de não conseguir segurar o mundo na copa. Ops, nas costas.

Às vezes a gente quebra e, ao quebrar, faz barulho, porque o escuro do abismo assusta.

Depois, faz silêncio.

Um longo silêncio.

Nele, estou.

Nessa pausa, coletei os pedaços da minha irmã sibipiruna que também se fraturou. Como forma de reverenciá-la, lapidei alguns de seus galhos para ver como eram por dentro, além da casca dura. Descobri novos desenhos, suaves, insinuantes.

E ela me contou um segredo: “às vezes, a gente quebra só pra poder se multiplicar em novas formas.

Para dançar pela vida de um outro jeito, com menos peso.”

E temendo menos os ventos do que a própria rigidez.

***

(Fica aqui minha gratidão por todas as mãos amorosas que me apararam na queda. Vocês sabem quem são)