segunda gira com Clarice

RELATO COM O MENDIGO

Mulher I
Vou contar pra vocês um segredo, vocês são as únicas pessoas que saberão dessa história. Eu não saio contando coisas assim por aí, entende?

Era um dia comum, e meu lar era longe de casa. Na verdade, eu estava sem o endereço de mim mesma. Bússola na mão apontava pro norte, mas eu não sabia o que o norte dizia. A agulha rodava em torno do eixo, e eu, sem eixo, girava de pergunta em pergunta.
Trabalho? Ofício? Religião? Qual é o lugar no mundo reservado a quem não crê naturalmente mas quer, para não morrer em vida, acreditar sem ingenuidade?
Nunca me veio resposta…

Ah, sim…o segredo que eu ia contar….

Todos os dias, no caminho do meu quase lar, eu via um mendigo… um mendigo que tocava gaita… Nesse dia, eu estava muito amargurada, mais perturbada que qualquer outra coisa, e no meio do trajeto, vi novamente aquele homem – o mendigo que tocava gaita – como fazia sempre, gente, todos os dias! E riu para mim. Então eu ri para ele. Não sei o que me aconteceu, fui tomada por uma legião de sentimentos inoportunos que não saberia bem descrever, que não sei bem o que era no momento, comecei a me movimentar junto dele, dançamos sem parar… ele tocava a gaita e dançava, eu dançava com ele… Dancei descompassada, eu e o mendigo, como se algo me tomasse pelo meio, como se um vulcão de respostas estivessem próximas a mim, dancei ao vento, apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia inteiro como o corpo de quem ri, aquela sensação de morte a gargalhadas. Eu e ele, dançado, aquilo durou cerca de uns quinze, vinte minutos, tão depressa como o tempo da dança, comecei a andar, ainda meio tonta, mais depressa, agora sem pudor, tentando recolher, do meio fio, os andaimes da minha vida, parecia que eu tinha encontrado um súbito destino. Aí eu ria, e chorava.

De que rimos nós? Do nosso encontro que era de alegria. Não perguntei o nome dele, porque esqueci que mendigo tem nome, porque esqueci o nome de todas as coisas. Saí dali tomada por um desespero, mudei meu rumo, fui ter com uma amiga, a única que eu achava que podia me entender. Quando cheguei na casa dela, não contei o que tinha me acontecido.

Vocês entendem por que? Ela não entenderia! Ninguém entenderia! Seria folclórico! Exótico! Eu não queria que o asfalto ficasse cinza de novo, porque naquele dia ele era de diamantes…E eu, que não acredito em milagres e achava que tinha vivenciado um, tinha medo de ver meu ceticismo espelhado no outro no exato momento em que eu contasse essa história…

(Coloca as mãos na boca, assustada com a idéia da perda do sagrado. Faz como se tirasse algo de dentro dela, e fecha as mãos em concha, como se protegesse algo raro. Respira, aliviada)
Ainda está aqui…

Será que quando a gente conta um segredo ele se perde no tempo? Porque segredo contado deixa de ser segredo, mas que sentido tem guardar uma imagem que se não revelada pode virar areia na memória? Vou contar, então, posso? Posso confiar que vocês não vão me julgar pelo que fiz, ou pelo que senti?…

Naquela dança, eu tive um desejo…Um prazer sem tamanho, que só cabia nos limites da minha pele porque eu sentia o suor escorrendo, e eu quis beijar aquele homem, e eu quis experimentar um pouco mais daquele contato na pele da boca. Porque eu queria experimentar um pouco do que se pode ser quando não se tem função definida, nome definido, RG, utilidade. Eu sentia o desejo dele todo, de comer num beijo uma fração daquela possibilidade de simplesmente estar sendo sem nenhum sentido que não fosse apenas ser-se.

(pausa)

Eu só queria dar um beijo na liberdade para saber o gosto doce e inteiro do que se perde em míseros pedaços todos os dias…

Mulher 2
Qual seria o nome dele? José? João? Jonas? John!

Mulher 3
John, eu nunca esquecerei você. Porque nós fomos eternos naquele instante. Meu irmão. Você me deixou plena e útil.

Mulher 2
John, onde é que você dorme? Eu ainda não sou livre: preciso de uma casa e de uma cama para dormir. Eu não sei dormir na casa dos outros.

Mulher 3
John, num momento de muito desespero eu pedi a Deus que me arranjasse uma ajuda. E a ajuda veio: um homem me telefonou. Aí eu chorei ao telefone. Ele disse: não chore porque chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco. Eu lhe pedi para me telefonar de novo às seis da tarde. Ele disse que não podia. Mas às seis em ponto me telefonou.

Mulher 1
John, o que a gente faz quando o que a gente mais quer acontece? Quando a gente pede pelo milagre, e ele chega? A gente fura os olhos? Recebe a luz que cega? Foi o que aconteceu com você, por isso mendigo, por isso na rua?
(ela abre as mãos, como se deixasse escapar o que continha ali)

Mulher 2
John, por que eu me surpreendi com nosso contato? Por que a gente se surpreende em conviver só por não saber o nome? Por que contando parece loucura se foi tão simples, tão simples, sorrir e dançar com você, John? Por que contando para eles agora parece pouco, parece bobagem, se na hora era só o que se podia fazer da vida?

Mulher 3
John, eu li que a angústia é a vertigem da liberdade. No entanto eu estou tendo essa vertigem, mas sem angústia, como é que se explica?

Mulher 1
(para a platéia)
Era segredo. Não contei antes porque tinha vergonha…vergonha porque depois disso, continuei vendo mendigos sem nome, e se não fosse agora ter contado a vocês, tudo me pareceria absurdo. A vida é absurda quando ela acontece de verdade.

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