para quem só poderia ser

Quando eu aprendi a sonhar, não sabia pra que mar esse rio correria. Tinha vontade de ser, e era só.

Sonhava com amor eterno. Sonhava com causas nobres. Sonhava com mil bocas me beijando, uma para cada um que meu olhar percorria em desejo adolescente, inconstante, mas intenso e fiel no momento em que manifesta. Eu sonhava com um amor gentil, esculpia um homem quase irrealizável com um coração maior, um pouco maior que o normal.

Um dia , você me apareceu, ou eu que apareci, sei lá. Fui eu que saltei sobre você, como fazia na época, cansada de ser presa de espera na torre dourada. Há muito tinha perdido os sonhos de princesa. Sonhava só com alguém com o coração além da conta, exaurida que  estava de tantas batalhas perdidas. Ou ganhas. Toda batalha, em si, já era uma perda, pelo menos nesse campo amarelo. Que nele brotassem flores, sem respingos de tinta vermelha.

Desse sonho chegou você, também vagando entre devaneios parecidos. Chegou e plantou bandeira no meu sonho, rasgou a terra com uma frase já quase banal: eu te amo. E seria mais uma das tantas proclamadas, jazidas no deserto das palavras vazias, se não fosse dita com tom de sentença, com a coragem de quem encerra a frase num ponto. Não era declaração disfarçando carência,esperando retorno. O ponto final concluía, delimitava, seu sentido, seu significado absoluto e completo de servir apenas ao seu significado: amar, e só.

Rasga, meu amor, agora, a pele, como quem já me feriu a terra. Penetra novamente nesse mundo das palavras mudas, dos toques umedecidos pelo sal da gente, pelo gosto de gente fora de si. Chegue novamente com a delicadeza de quem sopra chama nova, colhida do fogo em plena ventania. Protege, com as mãos, essa alma nova, com promessa de fogo eterno, mas sempre delicado, e sempre sujeito às cinzas. Revela sua alma desvairada, febril, liberta o seu ser dessa febre vivendo a paixão do seu desejo. Aceita a vida com toda sua força e fluxo, jogue-se de costas na corrente. Beija a vida que te abençoa, reconhece esse pulso no outro, na boca ao lado, sempre ao lado, esperando velada entre os véus da rotina. Desnuda, revela, desvela, torna essa força novamente sua, toma cada lábio separado e junto, bebe dessa vontade que também é minha.

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