uma sombra violeta

Eu não sou atriz. É assim que eu me defendia de ser (atriz, e outras demais coisas: eu não sou).

Aí, no curso de pós em direção teatral (do Célia Helena), a gente ia ter que atuar. Era um exercício pra aula do Marco Antônio Rodrigues. Eu até poderia dirigir ao invés de atuar, mas uma coisa maior que minha ranhetice (que disfarçava minha vergonha, que disfarçava meu medo, que disfarçava….) me jogou na corrente. Boralá atuar.

Danilo Moreno seria o diretor. Figura linda, vinda de outros cantos (Recife, Rio, outras paragens). Karina, psicanalista, e Jacqueline, única atriz entre as atrizes, completariam comigo o elenco. Entre as escolhas possíveis de texto, ficamos com Plínio Marcos, o Querô. Quem conhece sabe que não é bolinho: da classe média ao cais de Santos. Chão, chão, chão. Lama, lama, lama. Nós três, poéticas, lendo Clarice, imagine… Mas foi uma escolha.

Das personagens possíveis, me coube a Violeta, cafetina, dona do puteiro, proprietária e exploradora da mão de obra (corpo) alheio. Ou, nas palavras de Leda, a outra personagem, prostituta-mártir de Plínio: machona, greluda. E eu, pesquisando o sagrado feminino, a sexualidade transcendente… fui dar com a sombra de tudo isso.

Numa semana, mergulhamos fundo. Numa semana, nos deixamos, entre encontros e polêmicas, nos conduzir pelas imagens delirantes do Danilo. E eu mergulhei na dor daquela criatura, daquela figura, mergulhei no ressentimento que poderia transformar uma mulher no reverso de si. Dei as mãos a Violeta, aceitei sua existência. Descobri parte de sua voz, parte de um riso funesto que me fez tremer. Vivi parte de uma dor, e digo parte porque só toquei com os pés esse oceano, mas senti essas águas geladas.

Na hora da cena, fui pra lá. Se pensasse, não faria. Me entreguei a ela, ao ponto de não me reconhecer. Depois soube que essa foi a impressão de vários colegas: demoraram para me perceber ali. Eu, não-atriz, a não-puta, me tornei a sim…simultaneidade de possibilidades. Sim ao avesso do que aspiro. Sim à sombra das mulheres, sim ao que lhes torna feridas, humilhadas, submissas e finalmente, também carrascas e castradoras.

Trouxe à tona, à luz. Aceitei. Curei, assim, essa parte de mim. Ainda tremo com ela, tremo de medo, mas sei o seu rosto, seu nome, sua voz, seu grito.

Obrigada, Plínio, por nos trazer esse mundo desprezado. Obrigada, Danilo, Jacque, Karina, companheiros de nau, pela confiança mútua. Obrigada, teatro, por abraçar do baixo ao sublime, por abraçar a todos nós, em sorrisos e dores.

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