de onde vivem as histórias

se tenho que contar, calo.

engaguejo. mato pausas. esqueço fatos.

contando pra mim, escrevo, escuto.

e então percebo que ainda é a voz do meu pai, trazendo vida a uma nova aventura.

era todo dia assim, no almoço: eu devorava histórias com arroz e feijão.

às vezes eu lançava ao meu pai temas indecifráveis.

e ele, malandro das palavras, tangenciava o pedido. mas trazia sempre a colheita do dia.

brotinho de peça

(…) Porque dizem que um pouco antes de nascer o sol, tem uma escuridão tão escura que aquelas estrelas que só dormem depois da lua ficam muito maior, mas só por um segundo. Aí é a hora de fazer aquele monte de pedidos que a gente quer ver acontecendo na vida. Mas é tão rapidinho que é difícil ver, e quando dá pra ver é tão rapidinho que nem dá pra falar direito. Então tem que ficar com o olho sem piscar e o pedido na ponta da língua pra gritar bem alto, logo antes do céu começar a azular o tapete do sol. Você já conseguiu ver a estrela no escuro do escuro antes de nascer o sol? (…)

sei lá.

ser várias,

sinhô,

ser vista,

sinhá

visita de mundo afora…

ser trinta

e seis

ser sem

saber mais

ser tantas

que a cuca crispa!

ser crise

de ser

criança

ainda é

ser dente de leite adeus

ser sim

quando o não

sai fácil,

sinhô,

é coisa de gente sã

(ou não?)

ser selva, selvagem,

silva,

saber-se

soma,

sorriso,

sol.

acordei sacim

se eu saci fosse

não sei o que seria

sassaricante sina

sapato sobraria

se eu um saci fosse

eu sim aprenderia

das folhas da floresta

salvar sabedoria

se eu saci fosse

feliz sapecaria

sambando sem censura

seguindo com alegria