ainda sobre formigas

hoje, no café. um ponto preto que andava sobre a toalha da mesa. com a mesma naturalidade de quem tira o resto de pó do pão, parei o ponto. assim, espontaneamente.

matei no piloto automático. é muito fácil interromper uma vida.

segunda chance para falar da vida

mamãe, a formiguinha rasgou!

(ela, se contorcendo, até que parou. eles, intrigados, com um giz de cera na mão)

não pude mais fugir. a palavra saiu, depois de muito lutar: não querido. a formiguinha morreu.

chuva, torradas e hummmms

Fazendo uma revisão do que imagino querer na vida nos próximos anos, percebi que praticamente tudo está relacionado com a seguinte questão: quem sou eu?

Antes, respondia esse pergunta com alguns adjetivos e atributos. “Uma pessoa assim assada”. Depois, percebi que a gente se define pelo que faz. Então respondia pelas coisas que fazia, ou que ainda pensava em fazer.

Nos últimos meses, estou numa profunda transformação. Há muitas bases, antes muito sólidas, caindo. Tenho aprendido a me ouvir mais, e me surpreendendo com o que escuto: muitas vezes, é uma voz muito distante do que pensava ser a minha própria. No começo é muito estranho, porque gera uma dissonância. A parte de mim que arduamente foi construída se recusa a dar passagem a essa nova, tão amena, com objetivos ainda vagos. Ela parece não querer realizar muito. Ela assusta com sua entrega ao inominável. Ela pode me levar para caminhos tão distantes que então recuo: o que fazer com meu castelo?

Levei as duas, lado a lado, por um tempo. Uma conduzindo o desejo, me mantendo na ilusão da segurança. Se apoiando nas pequenas ilusões de felicidade. A outra – essa sim fonte de felicidade – eu alimentava nos momentos de rebeldia, de forma enviesada, quando aquela dormia, ou me permitia um descanso – afinal, era final de semana. Então já éramos três: a que mandava, a que cedia, e uma outra que, paciente, esperava.

Até que, num momento, a linha que traçávamos, lado a lado, converteu-se num triângulo. Eu estava no vértice, fazendo força para continuar caminhando, e as duas outras, querendo direções opostas, geravam um estranho efeito de estagnação. Então éramos um triângulo imóvel, mas num crescente interno de movimento. Eu, querendo avançar puxando as duas, e cada uma delas querendo ir para um lado. Toda a energia vital estagnada no centro: Bloqueando as pernas. Bloqueando o fogo.

Tornou-se insuportável. Para aliviar a tensão, a cabeça desconectou-se do corpo, e então delirava que caminhava, ainda que os pés estivessem parados, lá atrás. Não sei por quanto tempo permaneci nesse lugar. Só sei que, pela graça da vida, levei um choque no corpo que trouxe de volta a cabeça, e trouxe à tona toda a dor de uma vida fingida. E como era muita carga acumulada, e como era evidente o fracasso, um lado cedeu, desestruturando o tripé. E aquela outra, que estava à margem, ganhou força para dar um passo, movendo toda a estrutura: depois de longo tempo, novamente caminhei.

Então percebi que o que movia cada lado eram forças diferentes. Se uma extraía a força na fumaça das ilusões, a outra era a própria força, porque pertencia ao presente. Não dependia de um feito futuro para ter sentido: era, em si, o sentido. Então só bastaria ser.

Mas o que, então, eu deveria fazer? Como ia me definir, se não fosse pelos meus atos? Como planejar, se não há meta? Como executar, se não há plano? Como ser, se não faço, se não construo, se não executo? O que fazer com um corpo tão acostumado a ouvir ordens, um escravo obediente (ou quase sempre) do eterno faça-se?

Quem sou eu, então? Só sou? E basta?

Eis que aí estou. Sem mais querer obedecer a uma voz metálica, mas sem saber o que fazer com essa liberdade recém-conquistada. O que devo pedir? Que eu ME LEMBRE, então. Que rompa de vez os meus preconceitos, que sirva, sem fronteiras, a um propósito maior que espero descobrir. Que eu nunca mais seja uma serva, mas que esteja a serviço. Com a coragem para que passe por mim a certeza verdadeira do que sou.

E que venham os ajustes necessários a essa nova pele, a esse novo rosto. Rosto que ainda não reconheço, mas que já sinto mais familiar do que o que agora tenho. Voltar pra casa, pro ser.

dia das mães

tava aqui pensando no que é “mãe”. definições, sabe?

então o Gabriel pediu colo e colocou, num suspiro, o dedinho na boca. Encostou o pequeno corpinho um pouco pra trás, relaxou a cabeça… entregou. Na certeza absoluta de que teria amparo, de que teria amor.

né isso?

 

37.

data abstrata.

nasci 1975. 10.05.1975. Há quase 37.

não sei o que significa. Já sou tantas desde então, que não sei quantas fui em tantos anos, que nem parecem tantos, que nem se parecem anos.

nunca tudo esteve tão louco.

tanto que nem sei mais se sopro a vela ou se espero que outra, em mim, a sopre. Outra que espreita um pouco atrás. que espera. que talvez, em pouco tempo, aniversariará. nascerá. bebezinha.

Enquanto isso, comemoro-me, enquanto morro mais um pouco. até que Ela, eu-viva, viva plenamente, e então será eterna.

e então aniversários só serão datas pra comer brigadeiros.

Por que poesia (no palco)?

Tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança

Essa frase, presente no filme “Pina”, de Win Wenders (sobre Pina Bausch) me gerou inquietude. Sou uma pessoa de silêncios (apesar de falar muito) e talvez tenha escolhido escrever porque constantemente as palavras me fogem. Mas o corpo não cala, jamais emudece. E muitas vezes desejei que palavras saíssem de meus gestos com tal espontaneidade com que movia meus braços. Sem filtro do córtex frontal, mas com a precisão de conteúdo que um gesto encerra.

A poesia, porém, me trouxe um pouco desse lugar, pois é parte palavra, parte silêncio. E há certos conteúdos que, para serem tocados, necessitam do verbo permeável. Geralmente, são os conteúdos que se referem a realidades invisíveis, a atmosferas, determinados sentimentos. E o que a ciência prova com fatos e a filosofia com a lógica, a poesia traduz em sentimento.

Assim, ela é como a luz da lua: ao incidir sobre as palavras, gera sombras cambiantes. É mutante, não há lugar seguro, não há contornos definidos: entende-se mais pelo ouvido que pelo olhar, ainda que seja palavra. E a palavra não é o ponto de chegada, mas apenas o barco que conduz àquele lugar onde nenhuma palavra chega. A poesia é rodamoinho de vento que, girando, nos leva à morada do indizível: então, assim como o corpo, torna-se lugar de passagem.

Porém, apesar de efêmera, também pode ser feita de carne. Também pode servir à expressão de sentimentos terrenos, densos, matéria sólida sobre terra firme. Nesse lugar, ela se funde com o teatro. Torna-se palpável, podendo atravessar o corpo do ator, podendo fazer tremer suas estruturas para, novamente, chegar até nós nessa dupla natureza.

A poesia, se levada ao palco, é raio que toca o chão, trazendo um pouco dos céus à terra. Mas assim como a faísca, é rápida, efêmera. E muitas vezes só sentimos seus efeitos pela sua reverberação, o trovão.

 

(parte da apresentação da monografia, quase pronta, quase aqui.)