a liberdade de ser livre

“Recentemente, um vídeo sobre a cobertura de uma festa universitária expôs o depoimento de um dos convidados que incitava explicitamente a cultura do estupro que, infelizmente, aparece enraizada em nossa sociedade. Muitas pessoas da própria faculdade enxergaram o depoimento como “apenas uma piada”. Além disso tudo, em discussão argumentativa no Facebook, as meninas que questionaram a postura condenável do vídeo e das pessoas que o aceitavam foram chamadas de “mal comidas” entre outros. Como resposta ao acontecido, um aluno da faculdade documentou “Um vídeo não é um vídeo, uma brincadeira não é só brincadeira… Pelo menos, nem sempre. Muitas vezes, é você contribuindo para piorar a cultura do país”. E é todo o contexto que motiva esse post. Chega de nos conformarmos com o que é considerado “okay”! Chega de alimentarmos esse discurso de violência maquiado de piada!”

 

Isso aconteceu na faculdade onde tenho o prazer de lecionar. O fato inspirou um debate virtual, que agora vai se materializar num auditório, mobilizado pelos próprios alunos e alunas e apoiado pela diretoria acadêmica. Coisa deliciosa de se ver, viver, degustar. Gosto dessa palavra, prazer. Não, não estou sendo irônica. Prazer é vida, e não é à toa que todas as funções que colaboram para a vida geram prazer.

Mas as palavras, por sua natureza, às vezes podem conter significados opostos, dependendo de quem fala. O prazer é assim, e também a graça. A experiência é individual, nossa visão de mundo é subjetiva, então sempre me pergunto: como é possível coexistir em harmonia no meio de tanta diversidade? Não apenas de formas, mas principalmente entre visões de realidades tão diferentes?

A dificuldade de uma harmonia natural gerou a necessidade da Lei. Um consenso pré-estabelecido entre o que pode e o que não pode. Muitas vezes, essa lei foi defendida na espada, no fio da guilhotina, e hoje há uma maquiagem civilizatória que não torna as coisas assim tão diferentes. Há quem defenda pena de morte. Mas onde não há consciência mútua tem que haver a regra, então por enquanto sim, as leis são necessárias (não a pena de morte!), e a ética é essencial. Mas eu me pergunto: quando é que isso vai passar de uma formalidade externa – muitas vezes até moralista – para um sentimento coletivo de bem comum, uma necessidade que cada um experimenta como parte da própria sobrevivência?

Nos últimos tempos, tenho convivido bastante com gerações mais novas que a minha. Já adianto que não gosto muito dessas divisões por idade, meu encontro é entre essências, mas também é impossível uma certa comparação. Há exatamente 20 anos, era eu quem estava nesse mesmo espaço onde hoje sou professora, então recém-chegada do interior, feliz da vida pelo novo momento que estava vivendo: passar na faculdade, vir para São Paulo, fazer novos amigos, viver meu sonho de arte e liberdade.

A ESPM era bem menor. Muitos grupos e entidades estudantis hoje já consagradas estavam embrionárias. Assim foi, também, com a TV interna, na época chamada TV Pixel. Inspirados pelo novo estúdio de video recém-inaugurado, um grupo de alunos começou essa empreitada. Éramos apaixonados por video e sem nenhuma experiência, mas muita vontade. Só tínhamos uma câmera Super VHS e uma ilha linear que sempre travava, mas foi o suficiente para começar uma série de programas que variavam entre um humor clownesco (o épico Shoroeder’s Time), revistas culturais e matérias sobre viagens e picos interessantes. E lógico, cobertura de festas, jogos e eventos internos. Não sei o que sobrou desses programas, mas o que ficou dentro da gente foi precioso: muitos de nós foram estudar cinema, outros foram direto para o mercado e se tornaram grandes profissionais internacionalmente reconhecidos, outros retornaram à casa como professores, e cada um de nós fazendo ainda crescer essa semente plantada nos anos 90.

No meu caso, acabei indo estudar cinema, fiz curta-metragens, depois me tornei documentarista e pulei para os palcos do teatro como dramaturga, descobri o mundo através da arte e do ativismo humanista e hoje ainda tenho a honra de compartilhar tudo isso no papel de professora. Quem me conhece bem sabe que essa palavra não cabe bem pra mim – prefiro ser uma provocadora.

Mas o assunto aqui é outro. Devido aos fatos recentes, lembrei de uma história antiga: Naquela época da TV Pixel, nós nos preparamos para fazer a cobertura da famosa Festa do Lúcio que, na ocasião, foi dentro de um circo. Além de fazer a cobertura, ajudei na organização da festa, o que fez com que eu passasse o dia inteiro com apenas algumas bolachas de água e sal no estômago. A festa foi linda, divertida, e nós da TV fizemos nossa matéria: o video da festa registrou de tudo, o cara que desceu pelas cordas lá de cima da lona, a banda performática, gente dançando e se divertindo. No bundas, No peitos. E ninguém sentiu falta.

Depois, merecidamente, me joguei no bar. Mas ao final de duas caipirinhas, caí.

PT mesmo = Nada no estômago+sono atrasado+cansaço acumulado (+ provavelmente vodka ruim). Conhecem essa fórmula?

 

Perdi total a consciência.

 

Era meu primeiro ano em São Paulo. Família longe. Todos os amigos eram recentes.

 

Quer saber onde eu acordei?

 

Em que situação?

 

Num pronto-socorro de um hospital. E com um amigo do meu lado. Amigo, sexo masculino.

Depois ele me levou pra casa. E eu guardei dessa noite memórias lindas e alguma ressaca. E levei pra vida uma grande amizade. Ele talvez tenha ficado meio de saco cheio, mas também levou a memória de ter cuidado de alguém. Hoje ele mora em Brasília, a gente se fala pouco, mas sempre com o carinho dessa época.

Sim, é uma história com final feliz. Depois disso, já bebi muito, caí outras vezes, ajudei a curar amigos caídos, vivi plenamente uma época de muitas descobertas. Não precisava me preocupar com o que iriam pensar de mim. Nem com a altura da minha roupa. Juro, sei que parece mentira, mas a coisa não era assim. Naquele dia da festa, eu lembro, minha barriga estava de fora, e isso não foi um problema, nem sinal verde pra violência. E fui livre, porque ao meu redor havia cuidado.

Entranha essa natureza ambígua das palavras… liberdade é a uma das mais pronunciadas, e uma das mais invertidas. Assim como o amor. E não são esses os nossos maiores anseios?

“Liberdade é passar a mão na bunda do guarda”, era uma expressão conhecida. Agora é passar a mão na bunda da moça. É fotografar e filmar alguém passando a mão na bunda da moça e botar na rede. Isso, na menos pior das hipóteses. E por aí se reivindica a liberdade de achar graça no que se quer, e impor essa graça particular ao coletivo.

Não, não estou aqui pra cagar regra, nem quero ficar moralizando. Mas também não aceito ser vítima da cagação de regra travestida de liberdade de expressão, do autoritarismo do quarto poder: a mídia. E mídia não é só televisão, ou a internet. Tem uma mídia bem antiga e eficientíssima, a fofoca. O papo ao pé do ouvido com olho desviado para o lado, em geral pra vida alheia. A fofoca eletrônica virou compartilhamento, e cada um é responsável pelo que gera com o que faz reverberar por aí. Como nos mostrou mestre Shakespeare, os piores venenos entram pelos ouvidos. E matam, mesmo a longo prazo: entorpecem gerações inteiras, e também nossa sensibilidade e consciência.

Em uma conversa hoje com uma pessoa da TV, ela me disse com total sinceridade que a intenção de colocar o tal depoimento no video era a oposta do que foi interpretado. Era mostrar o quanto era “tosco” o que o menino dizia. Também falou do tratamento intolerante que estão recebendo. Num terreno minado, bombas explodem sem dicriminação. Infelizmente, toda polêmica tem o risco de resvalar para a violência, para a disputa de egos, para a intolerância, e isso de ambos os lados, independente de se ter ou não razão. Então ficam as perguntas: Se ninguém quer declaradamente ser violento, por que a violência é, às vezes, tão irresistível? Porque o “tosco” é sempre o outro e nunca a gente mesmo? Aposto que ninguém passou na fila da falta de noção antes de nascer, é algo que acontece por ignorância. Perceber a ignorância é um bem, e ficar nela é uma opção. E quantas e quantas vezes falamos atrocidades e depois nos arrependemos, e é bom poder se arrepender. É bom perceber quando somos eco de opiniões que nós mesmos, aparentemente, discordamos. E podemos, sim, corrigir. Mas quanto maior o alcance da mensagem, maior a extensão do equívoco, e maior o trabalho que dá, depois, pra reverter.

Todo mundo sabe dos riscos de ser um cirurgião, ter a vida humana entre as mãos. Mas poucos falam da responsabilidade de ser um comunicador. Do poder das imagens dentro do nosso psiquismo. De como uma imagem pode colaborar para a vida ou para sua destruição. E gerar cultura.

A famosa imagem, por exemplo, do homem das cavernas puxando a mulher pelos cabelos, quase um atestado de nossas “origens”. Riane Eisler, conhecida pesquisadora e historiadora, mostra no seu livro “O Prazer Sagrado” que existiam sociedades neolíticas baseadas na cooperação mútua, e que essa “piada histórica” não só é uma mentira, mas colabora para justificativas recentes de brutalidade. Ela define bem a oposição em que vivemos: relações de dominação ou relações de parceria. Não fala de homens ou mulheres, feminino ou masculino. Vai na essência, da base do que se aspira em cada relação, seja individual ou coletiva. Fala das feridas antigas geradas pelo desequilíbrio histórico em que a era do cálice, do graal, deu lugar à espada. À cultura de dominação.

A cultura do estupro é ferida antiga na humanidade. E esse sangue histórico, vindo das guerras européias, também se misturou ao vermelho do nosso pau-brasil. As “grandes navegações” foram também grandes invasões, não apenas de terras, mas de corpos nus de índias, e também de crenças e sutilezas. A origem do nosso povo é fundada nessa fenda. E talvez por isso haja um embasamento tão aparentemente “natural” para tais aberrações.

Mas não cabe a mim julgar. Pra falar a verdade, acho ótimo quando as coisas vem à tona, porque é assim que a gente cura feridas – e eu acredito que elas podem ser curadas. Porque quem – seja homem ou mulher – prefere a liberdade de usar sua “graça” para humilhar o outro não percebe, na sua ilusão de ser livre, o quanto está enredado a essa visão de mundo em que você tem que ficar esperto se não quiser ser fodido por quem está do lado. Isso não acontece só sob efeito do álcool, acontece no trabalho, nas relações, e a vida se torna uma perpétua prisão, uma fuga desse estado em que o outro nada mais é do que uma ave de rapina. Acho triste. Prefiro acreditar em outra coisa, e já me dei a liberdade de não crer numa realidade única.

No meu mundo, liberdade é cuidado, e homens e mulheres podem viver sua natureza em harmonia, sabendo-se protegidos uns pelos outros. Felizmente, esse mundo é também de muitas mulheres e homens que acreditam no amor como forma máxima de expressão da vida. Nesse mundo honra-se nossa origem, o poder do masculino e do feminino, a força do céu e da terra, da sabedoria do útero e do conhecimento da alturas.  E nele há também espaço pra sombra de todos nós, mas ela não vem para justificar barbaridades, mas para nos dar a medida da nossa evolução.

Não, não somos perfeitos, ainda bem. Senão a vida seria tediosa, sem nada mais que fazer que falar da roupa alheia…

Termino agradecendo profundamente esse momento histórico, com todas essas grandes discussões. Isso sim é estar viva. E viva a graça, viva o corpo, viva o prazer mútuo, viva a alegria, viva essa polêmica! Espero que ela não colabore para gerar novas cabeças pra guilhotina, independente de que lado seja. Chega de lados partidos. Chega de fragmentação. Chega de culpa. Vamos gerar consciência.

 

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