(di)verso além das palavras

Papai, o Pedro tá estragado.

Eu só tomei conhecimento dessa fala algum tempo depois. Se tivesse ouvido na hora, não sei o que faria, acho que seria quebrada em mil pedaços. Ainda bem, ela foi endereçada ao pai, um consertador nato de coisas.

Você tinha quase cinco anos. Até aquela data, a gente esperou. Coincidíamos, seu pai e eu, sobre a mesma terra firme: não queríamos forçar sua natureza. Sempre soube que não havia algo a se corrigir, e sim a se ampliar. Nunca senti algo errado, era só diferente. Ele ainda não fala? – alguns deixavam escapar, como se fala fosse coisa uniforme. As respostas variavam de acordo com meu estado de espírito: sim, mas a primeira língua dele é a música – era a resposta que mais me ressoava a verdade.

Porém, depois desse pedido de socorro, a gente entendeu que era o momento de pedir ajuda também. Na delicadeza, sem interferências brutas, mas além do limite da nossa ignorância. E graças aos céus, passamos por muitas mãos abençoadas, cada uma contribuindo com seu melhor conhecimento para que entendêssemos o quebra-cabeças dessa mente de outra ordem. Porque, Pedro, você veio de um tempo além das amarras.

Talvez por isso, seu anjo nunca deixou que construíssemos sobre sua liberdade a prisão de um ser especial. Seu pai, logo cedo, ignorando o próprio medo ou terror, lançou-te no turbilhão da vida, percebendo, no espanto, que não só você sobreviveu, mas era feito dessa natureza. Jamais poderia ser protegido, apartado da intensidade que rege a existência, porque você, meu filho, veio em sintonia com o caos das tempestades. Por fora, delicadeza gentil, elegância ímpar. Mas também carrega consigo a fúria das grandes orquestras. Ninguém melhor que você surfa na lógica fragmentada, pesca por telepatia, fala por entrelinhas sutis. Só te custou compreender a redução imposta pela linguagem formatada, essa necessidade de prender conceitos em palavras. Você sempre preferiu deixá-las soltas ao vento, levadas de cá pra lá pela melodia das letras. Mas num dado momento, entendeu que precisaria decifrar essa estranha forma de comunicação: lógica, organizada, enfileirada em frases.

E como tudo a que você se dedica, essa foi uma linda conquista. Tornou-se não um domador da fala, mas um bailarino da linguagem: dança com ela, deixando silêncios, brechas, variações.

Só às vezes, por puro rapto do belo, me furto de reestruturar suas frases forjadas no caos. Deixo, em segredo, a correção para algum ponto futuro.

Não é por nada não, meu filho, mas não é da minha natureza espantar poesia.

prova de cavaleiro: o coração gentil

Saiu da escola com coração abalado. Forçando uma brincadeira, havia machucado uma das meninas da classe, pegando no seu braço com força além da conta. Ficou roxo, ela reclamou, mostrando que doía.

Ele, aprendendo a duras penas o limite do corpo alheio, na volta pra casa, ficou amuado.

– Tá tudo bem?

– Não.

– O que aconteceu?

– Tô com vergonha.

– Conta que passa.

(Tentou falar, mas a fala não saía)

– Tô com vergonha.

– Conta se quiser, então.

(Silêncio no carro. Agonia era tanta que dava até pra apalpar no ar. Passaram-se duas músicas e uma eternidade)

– Agora eu quero falar.

(A história saiu doída)

E eu, orgulhosa da vergonha dele. Da culpa não, culpa não presta pra nada. Mas vergonha na cara sim. Sentir o sentir do outro, especialmente quando a gente machuca esse outro, precisa de muita coragem.

Eu disse isso a ele.

Mas ele não se perdoava.

Precisava de mais tempo além da dureza das penas.

Precisava do belo que cura a dor das pontas.

Já em casa, silenciou,

serenou.

Então a fada, nele, falou: resolveu dar desenhos de presente. Pediu aquarela, colocou-se diante das páginas em branco com a franca disposição de fazer algo bonito, não apenas para a amiga, mas para todas as meninas da sala. E fez quatro desenhos lindos e coloridos, amarrou com fita rosa, colheu quatro pedras no jardim e colocou tudo na mochila, ansioso pelo dia seguinte.

Então ele curou seu coração,

e a mãe feminista derreteu.

na gira dos cavalinhos

Para cada filho, um coração. Mas cada peito que o contém pede um corpo, então sou pelo menos três com cara de mãe. Também sou grata por ter esse privilégio, o de poder ser presente nessa primeira infância (uma opção consciente), mas louca por conseguir coordenar os tantos outros eus que pedem passagem.
 
A casa, exigente, me grita pelo menos mais nove personas exclusivas, o que desobedeço com prazer. Mas com gosto eu cedo ao posto de jardineira, porque amo cultivar fadas, e elas me pedem locais mágicos e floridos. Nas artes culinárias faço o que tem pra hoje (apesar da herança genética favorável, esqueci de passar nessa fila de talentos) e a alegria de encher a casa de pisca-piscas depende de uma arrumação prévia, coisa que nem sempre tô a fim (e quando faço, recebo do Djair a gentil alcunha de Arnolda Schwarzenêga, tamanho o ímpeto dedicado à tarefa). O resto delego sem culpa.
 
A filha (que ainda e também sou) guardo para momentos de mimo.
 
A amiga transita a toda hora, facinha de lidar essaí.
 
A enamorada tem seu espaço guardado a dentadas. Seus domínios são protegidos por espinhos, e por eles garanto o aroma de rosas embebidas em orvalho, doce alimento dos dias. Sou tão feita de sua matéria que (ainda bem) seria quase impossível que ela se transfigurasse numa lista de supermercado. Mas é preciso estar à espreita: esse é um risco constante.
 
Há várias outras transitórias, eventuais, efêmeras.
 
Da classe daquelas secretas, há uma em especial: a que anda me cavando espaço a unhadas, arrancando a pele da sola e dos calcanhares até que eu lhê dê ouvidos e pernas. Ela não segue padrões, a santa louca desvairada. É aquela desacostumada ao giro da rotina. Aquela que quer sair a galope em linha reta.
 
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Como lidar?
 
Como lidar?
 
Como lidar?
 
 
Um dia, por pura graça, me veio resposta divina: Cavalgue pra cima – escutei – direto pro céu sem limites!
 
E lá foi ela, artista-amazona, sem olhar pra trás, nas asas do vento, montada na necessidade.
 
Pra Lá foi ela, feliz, sem saber que é seu giro espiralado ao redor do grande mastro o que faz mover o carrossel dos dias terrenos.

 

 

carrossel