Livrando a reta

Sou uma mulher de 48 anos.

Digo isso não só pra declarar idade, mas porque quero falar do que venho observando nas minhas companheiras de geração.

Que estamos cansadas, nem vou comentar. É quase como soltar um “ai que calor” na onda de sol escaldante. Que estamos confusas, sobrecarregadas, descabeladas (eu, pelo menos), também não. É chover no molhado, ainda que seja importantíssimo continuar falando sobre isso depois de séculos de silenciamento.

Mas hoje quero falar do foda-se.

Não daquele rebelde, dos vinte e poucos, que bota a língua pra fora e contesta as estruturas externas. É outro, um foda-se pra dentro. Pra todo lixo mental introjetado (só que glamourizado), gerador dos devaneios que nos prendem a uma realidade insustentável. O Reino das Águas Plácidas.

Quer alguns exemplos? Carreira em linha reta, felicidade inabalável, certeza absoluta de tudo, explicação pros mistérios, produtividade compulsória, lacração compulsiva, julgamento obsessivo, iluminação ilusória, relacionamento perfeito, corpo oprimido (por chantagens do tipo “barriga negativa” ou “peito que não segura lápis”).

Tchau pra tudo isso.

Estou na ponte entre o ser ou enlouquecer. E não estou falando daquela “loucura boa e disruptiva”, mas de estados mentais lastimáveis provocados por uma cisão interna já insustentável, que vem rasgando a gente por dentro.

Cresci em uma época em que poderíamos (portanto, deveríamos querer) “conquistar” tudo e mais um pouco. Não que isso tenha sido totalmente ruim, porque foi um grande motor. Apesar de todos os (coloque aqui todos os “ismos” que nos acorrentam), avançamos na direção de ideais grandiosos, e muitos frutos vieram daí.

O problema é que… esses frutos bastam para validar a vida?

Eles nos alimentam?

Só por um instante. Porque a colheita nunca é o suficiente. Nunca.

Atualmente, o prazo de validade de cada conquista é o tempo de uma postagem. As regras, sempre mutantes, nos pedem mais, e mais, um jogo cada vez mais volátil rodando em um universo cada vez mais instável, tão diferente daquele em que eu vivia na ocasião em que meus sonhos se formaram, lá pelos superfantásticos anos 80, voando no Balão Mágico.

Sonho cria raiz, sabia? Ele não muda tão rápido, na velocidade dos tempos. O que fazer com aqueles mais antigos, que não cabem mais ser sonhados, porque pertenciam a uma história tosca que nos contaram para fazer a máquina girar? Ainda mais em um momento de vida em que somos também cuidadoras de filhos, pais idosos, ou de tantas pessoas queridas que necessitam do nosso apoio?

Então… como conciliar o glamoroso desfile no tapete vermelho que prometemos às nossas Dyvas com o dia a dia demandante da vida em carne, osso e suor, quando simplesmente chegar ao pôr-do-sol sentindo-se minimamente bem é equivalente ao décimo terceiro trabalho de Hércules?

Eis a pergunta que venho lendo no olhar de muitas amigas, especialmente aquela que me dá bom-dia todos os dias, do lado de lá do espelho, espelho meu.

“Ah, então quer se libertar de mim?” – indaga, desafiante, o Mestre do Reflexo.

Ao ver minha cara de “foda-se”, ele completa:“Então está mesmo pronta para deixar aqui teus devaneios e ouvir, sem ressalvas, o canto da tua alma?”

Deliciando-se com meu silêncio ofegante, ele me aponta a linha acarpetada, reta e escarlate, que brilha sob os refletores.

Sim, ele acha que ganhará o jogo.

Sim?

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