Há 7×7 anos, às 15h15, uma pequena alma inquieta nascia.
Não sei mais o que falar dela. A bicha tem um quê de mutante. Quando eu penso que já a entendi, ela me escapa.
Passou tempos no mundo dos livros, depois se mandou pro mundo, escancarando portas. Vivia com o pé pra fora, depois rodopiou que nem curupira. Voltou-os pra dentro.
Pra toca, a casa da floresta.
Pra tenda, a casa de palavras.
Ela me contou ter qualquer coisa de artista logo cedo, quando ainda era primavera. Tem parte com as musas, mas também com as tempestades.
Juntou-se com gente humanista, idealista, decidiu mudar o mundo até que seu mundo mudou. Daí se tornou mãe sem medir consequências, e hoje ainda se assusta quando cruza, todo dia, com moços mais altos que ela, cheios de voz grave e sonhos.
Sonhos.
Ela sonha esquisito quando dorme, mas devaneia histórias quando quase acorda.
“E se eu não fosse eu, então que eu esse eu seria?” Ela indaga e escuta.
Quem a habita? Milhares.
Gosta de caminhar de mãos dadas. Gosta de acordar e fazer tudo sempre igual, de molhar as plantas do jardim nunca igual. As flores dão a ela a medida do que também é mutante. Assim como sua pele, agora mais fina, assim como os fios do seu amado, cada vez mais cobertos de lua.
Com ele, ela também sonha. Amor de palhaço, brincante na bagunça. Ela, sempre claudicante, por não suportar linha reta. Ele, errante, por não suportar o que não é.
A mulher cambiante celebra seus muitos outonos. Agradece o ano que agora deixa às costas, agradece por ter morrido e ter perdido a esperança. Só para depois aprender que essa palavra não morre, nem depende que a humanidade a sustente para nos esperar, verde de desejo, ao final dos invernos.
A mulher de agora 49 colhe esta alegria como o melhor presente: poder ser humana, dual, contrastante, sabendo-se acompanhada pela Divina Luz que tudo aninha e pelas divinas almas que a abraçam.
Nem que seja para chorar ou rir junto, no instante seguinte à inesperada queda.

