delírios da espera II

o mais louco desse tempo de espera é ficar tanto tempo sozinha.
Ou comigo mesma – dá na mesma.
E quanto mais comigo estou, menos sei que pessoa (é? sou?)

essa.
esperar é um derretimento.
esperar é escoar.

delírios da espera

são tantos e tantos os sentimentos que antecedem o nascer…quase um desfile de alegorias.
(ou aventura)
observo, vivo, dou passagem;

enquanto isso, Francisco silencia.
e nos preparamos para a grande travessia
(ou travessura?)

tempo de espera

enquanto Vênus beija a Lua,
barca feliz com estrela-guia,
observo as marés que dançam.
espero,
aguardo,
anseio,
sonho,
devaneio:
Em qual onda você embarcará, meu filho?

 

lua e vênus

Diário de férias: aprendizagens na roça – pescaria

Aula1 – paciência e tecnologia
Pedro, 1 min após segurar a vara de pescar, concluiu:
– mãe, quero trocar de vara.
– por que, filho?
– essa não tá funcionando.
só sossegou quando foi fazer outra coisa.

Aula2 – liberdade
Gabriel, 1min após observar um peixe recém-pescado (e ainda vivo) colocado em uma tigela – para que ele ficasse olhando – concluiu:
– mãe, ele tá triste.
– por que você acha isso?
– porque ele tá tentando sair daí.
só sossegou quando jogamos o peixe de volta no lago.

desobediência (poética) civil

acordei meio zonza hoje. é tanta coisa acontecendo que se a gente tenta entender com a cabeça fica louco. o tom geral nas redes sociais hoje era de “e agora?” (na melhor das hipóteses) ou desapontamento com as “distorções”,  e era de se esperar esse hiato depois de tanta euforia. mas – pensei – essa é a hora de ter firmeza para não se perder a esperança. o negócio é seguir o fluxo da História, confiar que o processo desencadeado é sábio – mais que as nossas palavras – e que tudo caminha para a evolução.

ainda assim, na prática mesmo, hoje eu estava fora do ar. ou fora da terra.

fiquei na rede buscando e compartilhando informações, e perdi o pé das coisas cotidianas. quando dei por mim, estava bem atrasada para buscar os meninos na escola. saí correndo, ainda dei de cara com um acidente na Raposo Tavares, cheguei meia hora mais tarde e fui recebida por dois sorrisos lindos.

mamãe tá muito louca: tava na minha testa.

no caminho de volta, os meninos pediram “pra ver o castelo” – é uma construção que lembra um, e passo pela frente lá de vez em quando, porque eles acham o máximo ver de perto aquela representação que só se vê em livros. claro que não conto pra eles o que é de fato o tal castelo, só dou um “tchau”de dentro do carro e sigo meu rumo. ainda bem, os portões daquilo estão sempre fechados.

hoje não foi diferente. mas voltando de lá, o Pedro me sai com um comentário típico da sua ordem mental: sempre uma poesia espontânea.

 

o castelo do rei tá fechado

o rei disse não

o rei não entra no meu castelo

 

acho que não vou precisar explicar pra ele o que é desobediência civil, nem anarquia.

 

e ainda no caminho, pra completar, os dois foram cantando o refrão da música da Menina da Lanterna, uma história linda sobre a descoberta da luz que brota no mais escuro inverno:

 

“a luz se apagou

pra casa eu vou

com minha lanterna na mão”

 

tem como não ter fé no futuro?

 

rapto para oz

E de uma hora pra outra, me pego em terra devastada. Como se tivesse caminhado até lá sem saber, e de repente me percebo na paisagem aterradora.

Por fora, a vida segue igual. Só me dá vontade de correr, correr, correr. Fugir. Corro com os pés pregados no chão. Dói.

Demora pra perceber de verdade onde estou.

Só o Pedro, que vive entre os mundos, viu primeiro. E na sala de casa, ontem me disse: mãe, vamos voltar pra casa?

 

cons(pirar), gargalhar

hora de dormir, os dois na cama. mas logo escuto gritinhos e risadas vindas do quarto. morro de vontade de ver o que acontece, mas sei que se chegar perto, a brincadeira acaba. Aí entendo que a alegria se contempla sem possuir (e às vezes, com distanciamento).

Enquanto isso, a amizade entre irmãos se forja em gargalhadas.