arrevoada de inverno

ah, essa natureza do vento, carregando longe aquelas folhas entregues…

é por ele que a árvore aceita afundar raiz

por saber que parte sua conhecerá terras distantes

primeiro setênio!

 

doce alma em sempre música

nosso menino-passarinho

sabedor do reino dos silêncios

fantasia, em sua mente,

mil castelos dourados

só para dividir com quem ama

o sol do seu encantário

Nesses castelos, inclui a nós todos,

família, amigos, seres imaginados,

somos todos viventes em seu mundo

cabemos todos em seu enorme coração

(sempre acompanhado de abraço)

menino-vento,

menino canto,

agora um ciclo completa.

o mundo de fora, agora, é descoberta.

vai, e leva a ele seu sorriso

que a vida é boa, meu filho, 

e ainda melhor com você.

feliz 7 anos!

pedrojanelinha

 

canto do templo daquelas que riem

Há um templo.

Há um trono.

Nesse trono, sentadas em  pérola,

precioso grão-fonte de puro prazer,

somos.

 

Nesse ser, geradas em festa,

encobertas por véus da floresta dos sonhos,

emergimos.

 

Frente ao mar, num coro oscilante

pulsando nas palmas da pura alegria,

dançamos,

cantamos,

subimos…

 

E bebemos os fluidos de lua na noite estrelada dos ternos delírios,

acendemos fogueira de cura na terra sulcada de tensos abismos,

ofertamos, no topo da torre, o gosto da vida banhada de rios

e lambemos o gosto orvalhado da pele lustrada de gozos e risos.

 

orquidia

con fiança

olouco

 

ontem, de frente ao penhasco, lugar tão visitado há tempos,

finalmente saltei.

a parte que se foi na queda

levou consigo a orfandade. levou consigo o desespero. levou consigo a negação da vida, as desculpas do auto-boicote. a corda que me amarrava à mediocridade,

a corda que nos separava

soltei a última instância da descrença

abri mão do controle

abri mão de ser esteio

estou livre para voltar ao lugar onde primeiro nos encontramos. aquele lugar onde recém-vivíamos nossos desapegos, e sentíamos o frescor da primavera de outubro.

renasci para esse lugar em pleno outono.

renasci para esse lugar oito meses depois que nosso último fruto chegou.

renasci para esse amor livre de medo

coloquei novamente os pés na correnteza, e depois me joguei rio adentro

abri mão das margens seguras, da platéia de quem contempla, em inveja silenciosa, os saltos alheios.

te libertei desse peso,

me libertei dessa culpa

abri vazio para que só o amor agora preencha.

estou pronta pra tudo,

porque tenho o essencial: a volta à minha casa sagrada.

confiei novamente em mim

e pude, então,

perceber que sempre confiei em você.

obrigada por ter esperado. mesmo tendo ido na frente.

nossa música é assim. feitas de ritmos alternados.

te amo

e isso faz parte do rio.

eject

arrancado o mastro principal,

talvez seja impossível não ouvir as canções

do medo:

a voz enlutada do adeus.

Mas escuta também, no silêncio,

numa quase entrelinha do lamento,

delicados sons frescos orvalhados:

os primeiros acordes da liberdade.

pedido antes de soprar 39 velas

Que hoje, aos 39 anos, eu consiga agradecer e ver todos os recursos internos e externos disponíveis para (e)levar minha vida a um novo patamar de sentido.

Até aqui cheguei. Vivi em uma família boa e doativa, tomei coragem para alçar vôo sozinha nma cidade imensa, desenvolvi talentos, ampliei minha consciência para além de meu próprio mundo, plantei sementes, uni minha estrada com um homem querido, levantamos um lar, evocamos e temos criado filhos. Estou cercada de amigos, de afeto, de outros corações e lares para pousar meu avião, que está sempre disposto a novos vôos.

Agradeço a tudo o que vivi, doei e recebi. A todos que de mim cuidaram e cuidam, aos que convivo e troco, àqueles dos quais eu cuido e tem sido para mim a maior fonte de sentido, movimento e transformação. Às vezes, transgressão.

Meu pedido, hoje, é que de agora em diante eu inicie um novo movimento, mais sintonizado com os desejos do meu coração, de meu ser verdadeiro, em sintonia com as necessidades da minha família, dos meus entes queridos e da humanidade, mas especialmente alinhado com meu propósito verdadeiro.

Eu também declaro que abdico de qualquer trajetória de vida que tenha como base o sofrimento e o auto-martírio, pois isso não pertence à alma humana, é um desvio incetado  para o controle da potência que somos. Declaro, assim, que só percorrerei o caminho da beleza e da fartura, e aceitarei os obstáculos como aprendizados para minha evolução.

Peço a essa força que nos ampara e acompanha os recursos necessários para dar esse novo salto em minha vida, com coragem para os desapegos e desafios necessários, com amor para tecer o meu passo a passo em permanência e com alegria para me abrir a visão do futuro Que eu possa unificar todas as forças e vozes internas em um coro harmonizado de múltiplas frequências que cante a música que meu ser mais profundo inspira.

E que minha medicina cresça, floresça e reverbere, trazendo alegria e abundância à minha vida e à de todos com quem convivo. Que esse novo ano que se inicia me ajude a transmutar quaisquer barreiras a esse desejo, e que eu possa, daqui a um ano, celebrar meus 40 com a certeza de estar no rumo do meu espírito.

Que assim seja, hoje, e em todos os próximos anos da minha vida na Terra.

10 de maio de 2014

perto dos 39 degraus

a minha geração nasceu na ditadura,

a minha geração subiu pro céu num balão mágico e desceu numa nave espacial xata,

a minha geração tinha mapa de sala na escola. lugar fixo. só vencia um.

 

a minha geração batalhou muito. corre atrás. ainda batalha. aliás, a vida é uma luta

(pra chegar na frente)

 

eu fui criancinha nos anos 70, menstruei nos anos 80 e virei self made woman nos 90.

eu queria um canivete. eu queria ser aventureira. eu queria ser Goonie. eu queria ser popular. eu queria passar pro outro lado da televisão.

eu cresci com barbie-querendo-ser-cinderela-precisando-ser-she-ra-temendo-ser-mulherzinha.

meu irmão cresceu com falcon-querendo-ser-thundercat-precisando-ser-superhomem-temendo-ser-mulherzinha.

eu sabia fazer tricô, mas esqueci.

eu aprendi a fazer bolo, mas eles não crescem mais no forno.

(mas tudo bem, no mercado tem bolo)

eu dediquei tudo à batalha da vida.

 

minha geração tem muitos rótulos

minha geração pode comprar muitos rótulos também

minha geração pode escolher entre muitas coisas parecidas,

(mas meu celular é o ÚNICO com elástico pra segurar a capinha)

 

minha geração gerou filhos depois dos 30, ou perto dos 40.

(todos subversivos, contrariando a ordem celibatária da carreira emergente)

dormimos ao lado do celular

levamos trabalho pra casa

(e fingimos levar casa pro trabalho)

 

minha geração venceu.

 

e o troféu virou peso de porta,

lastro de balão

atraso de vôo.

um dia a gente vai se dar conta de tudo isso, de todo tempo devotado a causas inúteis

de todo pensamento canalizado

a coisas fúteis

ouro de tolo,

sonhos rasgados

então nós, tão especialistas, inteligentes e workaholics

vamos trabalhar, incansáveis,

pra uma encontrar uma saída.

..

.

até que a gente se esgote

e enfim consiga

olhar

por dez

minutos

 

uma

 

flor

 

e ser. só ser.

 

das aprendizagens permaculturais

uma coisa é a lapidação dos talentos, outra é o estreitamento do ser.
a especialização emburrecedora
a redução da ação a um emprego, a um título, a um estado temporário e dependente
de promoção
de reconhecimentos alheios
pior: de um sistema de violência (insustentável) que o sustente

a monocultura
do ser e do pensamento
só tem um fim:
o deserto.

(a partir da ponte entre monocultura da terra e do pensamento de Djair Guilherme)