ah, essa natureza do vento, carregando longe aquelas folhas entregues…
é por ele que a árvore aceita afundar raiz
por saber que parte sua conhecerá terras distantes

de Claudia Pucci Abrahão
ah, essa natureza do vento, carregando longe aquelas folhas entregues…
é por ele que a árvore aceita afundar raiz
por saber que parte sua conhecerá terras distantes
“O Brasil está perdido.
temos que fazer o Brasil ganhado”.
Pedro.
às vezes, o motivo da agonia é querer folhas verdes outonais.
doce alma em sempre música
nosso menino-passarinho
sabedor do reino dos silêncios
fantasia, em sua mente,
mil castelos dourados
só para dividir com quem ama
o sol do seu encantário
Nesses castelos, inclui a nós todos,
família, amigos, seres imaginados,
somos todos viventes em seu mundo
cabemos todos em seu enorme coração
(sempre acompanhado de abraço)
menino-vento,
menino canto,
agora um ciclo completa.
o mundo de fora, agora, é descoberta.
vai, e leva a ele seu sorriso
que a vida é boa, meu filho,
e ainda melhor com você.
feliz 7 anos!
Há um templo.
Há um trono.
Nesse trono, sentadas em pérola,
precioso grão-fonte de puro prazer,
somos.
Nesse ser, geradas em festa,
encobertas por véus da floresta dos sonhos,
emergimos.
Frente ao mar, num coro oscilante
pulsando nas palmas da pura alegria,
dançamos,
cantamos,
subimos…
E bebemos os fluidos de lua na noite estrelada dos ternos delírios,
acendemos fogueira de cura na terra sulcada de tensos abismos,
ofertamos, no topo da torre, o gosto da vida banhada de rios
e lambemos o gosto orvalhado da pele lustrada de gozos e risos.
ontem, de frente ao penhasco, lugar tão visitado há tempos,
finalmente saltei.
a parte que se foi na queda
levou consigo a orfandade. levou consigo o desespero. levou consigo a negação da vida, as desculpas do auto-boicote. a corda que me amarrava à mediocridade,
a corda que nos separava
soltei a última instância da descrença
abri mão do controle
abri mão de ser esteio
estou livre para voltar ao lugar onde primeiro nos encontramos. aquele lugar onde recém-vivíamos nossos desapegos, e sentíamos o frescor da primavera de outubro.
renasci para esse lugar em pleno outono.
renasci para esse lugar oito meses depois que nosso último fruto chegou.
renasci para esse amor livre de medo
coloquei novamente os pés na correnteza, e depois me joguei rio adentro
abri mão das margens seguras, da platéia de quem contempla, em inveja silenciosa, os saltos alheios.
te libertei desse peso,
me libertei dessa culpa
abri vazio para que só o amor agora preencha.
estou pronta pra tudo,
porque tenho o essencial: a volta à minha casa sagrada.
confiei novamente em mim
e pude, então,
perceber que sempre confiei em você.
obrigada por ter esperado. mesmo tendo ido na frente.
nossa música é assim. feitas de ritmos alternados.
te amo
e isso faz parte do rio.
arrancado o mastro principal,
talvez seja impossível não ouvir as canções
do medo:
a voz enlutada do adeus.
Mas escuta também, no silêncio,
numa quase entrelinha do lamento,
delicados sons frescos orvalhados:
os primeiros acordes da liberdade.
Que hoje, aos 39 anos, eu consiga agradecer e ver todos os recursos internos e externos disponíveis para (e)levar minha vida a um novo patamar de sentido.
Até aqui cheguei. Vivi em uma família boa e doativa, tomei coragem para alçar vôo sozinha nma cidade imensa, desenvolvi talentos, ampliei minha consciência para além de meu próprio mundo, plantei sementes, uni minha estrada com um homem querido, levantamos um lar, evocamos e temos criado filhos. Estou cercada de amigos, de afeto, de outros corações e lares para pousar meu avião, que está sempre disposto a novos vôos.
Agradeço a tudo o que vivi, doei e recebi. A todos que de mim cuidaram e cuidam, aos que convivo e troco, àqueles dos quais eu cuido e tem sido para mim a maior fonte de sentido, movimento e transformação. Às vezes, transgressão.
Meu pedido, hoje, é que de agora em diante eu inicie um novo movimento, mais sintonizado com os desejos do meu coração, de meu ser verdadeiro, em sintonia com as necessidades da minha família, dos meus entes queridos e da humanidade, mas especialmente alinhado com meu propósito verdadeiro.
Eu também declaro que abdico de qualquer trajetória de vida que tenha como base o sofrimento e o auto-martírio, pois isso não pertence à alma humana, é um desvio incetado para o controle da potência que somos. Declaro, assim, que só percorrerei o caminho da beleza e da fartura, e aceitarei os obstáculos como aprendizados para minha evolução.
Peço a essa força que nos ampara e acompanha os recursos necessários para dar esse novo salto em minha vida, com coragem para os desapegos e desafios necessários, com amor para tecer o meu passo a passo em permanência e com alegria para me abrir a visão do futuro Que eu possa unificar todas as forças e vozes internas em um coro harmonizado de múltiplas frequências que cante a música que meu ser mais profundo inspira.
E que minha medicina cresça, floresça e reverbere, trazendo alegria e abundância à minha vida e à de todos com quem convivo. Que esse novo ano que se inicia me ajude a transmutar quaisquer barreiras a esse desejo, e que eu possa, daqui a um ano, celebrar meus 40 com a certeza de estar no rumo do meu espírito.
Que assim seja, hoje, e em todos os próximos anos da minha vida na Terra.
10 de maio de 2014
a minha geração nasceu na ditadura,
a minha geração subiu pro céu num balão mágico e desceu numa nave espacial xata,
a minha geração tinha mapa de sala na escola. lugar fixo. só vencia um.
a minha geração batalhou muito. corre atrás. ainda batalha. aliás, a vida é uma luta
(pra chegar na frente)
eu fui criancinha nos anos 70, menstruei nos anos 80 e virei self made woman nos 90.
eu queria um canivete. eu queria ser aventureira. eu queria ser Goonie. eu queria ser popular. eu queria passar pro outro lado da televisão.
eu cresci com barbie-querendo-ser-cinderela-precisando-ser-she-ra-temendo-ser-mulherzinha.
meu irmão cresceu com falcon-querendo-ser-thundercat-precisando-ser-superhomem-temendo-ser-mulherzinha.
eu sabia fazer tricô, mas esqueci.
eu aprendi a fazer bolo, mas eles não crescem mais no forno.
(mas tudo bem, no mercado tem bolo)
eu dediquei tudo à batalha da vida.
minha geração tem muitos rótulos
minha geração pode comprar muitos rótulos também
minha geração pode escolher entre muitas coisas parecidas,
(mas meu celular é o ÚNICO com elástico pra segurar a capinha)
minha geração gerou filhos depois dos 30, ou perto dos 40.
(todos subversivos, contrariando a ordem celibatária da carreira emergente)
dormimos ao lado do celular
levamos trabalho pra casa
(e fingimos levar casa pro trabalho)
minha geração venceu.
e o troféu virou peso de porta,
lastro de balão
atraso de vôo.
…
um dia a gente vai se dar conta de tudo isso, de todo tempo devotado a causas inúteis
de todo pensamento canalizado
a coisas fúteis
ouro de tolo,
sonhos rasgados
…
então nós, tão especialistas, inteligentes e workaholics
vamos trabalhar, incansáveis,
pra uma encontrar uma saída.
…
..
.
até que a gente se esgote
…
e enfim consiga
olhar
por dez
minutos
uma
flor
e ser. só ser.
uma coisa é a lapidação dos talentos, outra é o estreitamento do ser.
a especialização emburrecedora
a redução da ação a um emprego, a um título, a um estado temporário e dependente
de promoção
de reconhecimentos alheios
pior: de um sistema de violência (insustentável) que o sustente
a monocultura
do ser e do pensamento
só tem um fim:
o deserto.
(a partir da ponte entre monocultura da terra e do pensamento de Djair Guilherme)