gabrielices

(Gabri chorando)

– Que foi, filho?

– Eu só tenho duas mãos!

– E daí? Todo mundo tem duas mãos.

– Mas eu quero fazer cinco coisas! E eu não tenho cinco mãos!

(…)

 

– Mãe, pega um suco?
(pego)
– Não vai falar obrigado?
– Obrigado… (1 segundo depois) Não vai falar de nada?

A princesa e o pescador

Lenora, uma princesa encantada, linda e formosa, já havia recebido a visita de inúmeros pretendentes. Os mais corajosos traziam-lhe objetos exóticos de lugares distantes, os mais líricos criavam versos de amor incomparáveis, aqueles mais impetuosos lhe ofereciam jóias jamais sonhadas, com pedras puríssimas trazidas de minas profundas. Porém tudo para ela era inútil. Os presentes que conseguiam entrar pelos portões do palácio transformavam-se em pedra bruta, da mais comum, na melhor das hipóteses. Palavras amáveis e lindas canções soavam como ofensas e guinchos, provocando um terror jamais visto, sobrepondo-se ao esplendor da princesa.

Era essa a maldição do palácio, lançada há muitos e muitos anos por um velho feiticeiro que se sentira desprezado por Lenora: Nunca mais ela poderia ser amada por nenhum outro ser vivente. Mas por se tratar de um homem perverso, concedeu a ela um único fio de esperança: uma remotíssima saída. A única forma da princesa quebrar o feitiço seria cruzar os portões do palácio de mãos dadas com outro ser humano.

Para isso, cada pretendente teria que se submeter a três grandes provas: Na primeira, passando por dois guardas, deveria ofertar seu maior tesouro. Ricos príncipes, de posse de um valioso bem – mas não o mais precioso – terminavam ali sua jornada atingidos implacavelmente por um raio, pois o feitiço assegurava que nenhuma mentira fosse encoberta. A segunda prova era curta, porém intensa: Cruzar a ponte levadiça, que provocava logo ao primeiro passo um tremor jamais sentido, despertando um medo intenso e uma instabilidade sem tamanho.

Por mais difíceis que fossem as duas primeiras provas, até ali muitos conseguiram chegar. Mas o feiticeiro, conhecedor da sombra dos homens, sabia que humano algum suportaria a metamorfose à qual estaria sujeito na terceira prova. Dessa forma, ele selou sua vingança: A princesa estaria fadada a algo mais cruel que a solidão infinita: estaria sujeita à eterna espera.

Lenora não sabia disso, e atava-se a essa possibilidade como a única razão de viver. Do alto de sua torre, avistava cada um dos seus pretendentes que ousava se aproximar do castelo, testemunhando, em muda torcida, alguns que chegavam perto dos portões. Nessa hora, sempre, um corvo sobrevoava sua cabeça e grasnava com voz metálica, parecida à do feiticeiro: Jamais! Ao ver a profecia confirmada, a princesa lamentava, e foi tornando-se, pouco a pouco, a Dama dos Tristes Ais. 

Muito tempo se passou, porém o encantamento, para a princesa, tinha o efeito contrário: Tornava-a cada dia mais bela e desejada. Ano a ano, aumentava a fila de príncipes, cavaleiros, ricos comerciantes, todos instigados pela maldição do castelo. Um nobre e corajoso príncipe, certa vez, chegara bem perto, conseguira passar pelas duas primeiras provas e, mais que nenhum outro, esteve próximo de cruzar a terceira. Ele levava consigo dois tesouros ofertados: em uma das mãos, uma espada do mais puro metal, cravejada de diamantes. Na outra, a rosa mais perfeita e delicada que seu reino havia produzido. Os portões estavam sempre abertos, nenhuma outra resistência era oferecida. Mas ao segurar a rosa um pouco além do limiar, já no interior do castelo, vira com terror a flor murchar num segundo, enquanto verrugas virulentas brotavam por sua pele ao lado de grandes pêlos grossos, suas unhas cresciam e ficavam amareladas, e isso já foi o suficiente para que ele cortasse sua mão com a preciosa espada e corresse horrorizado para nunca mais voltar. Nunca mais.

Mesmo com essas histórias correndo léguas, ainda não lhe faltavam ofertas. O brilho emanado por Lenora era como um grande farol, orientando viajantes de terras cada vez mais longínquas. Enquanto esperava, tornou-se quase como uma estrela cintilante, transformando seu desejo numa dança infinita em que girava, girava, girava do alto de sua torre de eterna esperança.

Um certo dia, um jovem pescador apresentou-se. No passado, sua origem humilde tornaria seu acesso ao castelo absolutamente proibido, mas depois de tantos séculos em que a maldição operava, os critérios primordialmente estabelecidos foram sendo esquecidos, estendendo o acesso às populações mais simples. Trazia em suas mãos sua oferenda: uma pequena vara de bambu com um pedacinho de chumbo ligado ao anzol, seu instrumento de trabalho. Enganchado a ele, um pequeno peixe dourado, porém de um brilho vívido, que lhe custara anos de audaciosa estratégia, paciência e habilidade para que fosse fisgado. Era, certamente, seu maior tesouro. Desse modo, passou pela primeira prova, apesar de ter sido recebido pela guarda com gargalhadas por sua ingênua pretensão. Mas ele não se abalou. Nascido em uma aldeia próxima ao castelo, havia sido cativado pelo brilho pulsante da Dama dos Tristezais desde a tenra infância, e toda sua vida foi dedicada a se preparar para aquele momento.

Ao chegar na ponte, resistiu aos tremores que tomavam seu corpo como ondas, começando pelos pés e depois atingindo a própria estrutura óssea, como se seus músculos virassem água e seu corpo perdesse todos os contornos. O medo que sentiu foi incomparável, mas ele já havia atravessado algumas tormentas marítimas, e confiante que mais uma vez a sorte estaria ao seu lado, navegando nas ondas que seu corpo emanava, conseguiu chegar até os portões.

Mas frente a frente ao umbral, ele oscilou.

Lá do alto, o corvo profetizou: Jamais.

Então ele lembrou-se do verso que, desde menino,

ouvia junto aos ruídos do cais.

No limiar de entrada, outra voz encantada indagou:

Quem és tu, ó peregrino, que bate nesse portal?

Sou marinheiro, retirante, da tribo dos homens do sal

Para ofertar à princesa, trago-lhe esse vil metal

E preso ao chumbo, atado ao gancho, esse dourado animal.

Que em sacrifício se deu, tirando da terra o mal.

Feito ele, agora eu

me entrego ao destino fatal.

Fechando os olhos, sem mais oscilar, num salto o pescador adentrou no castelo. Sua pele foi dilacerada enquanto ele se tornava uma enorme e terrível criatura, e todo seu nobre sentimento tornou-se forte desejo de aniquilar brutalmente qualquer forma de beleza. O peixe dourado que ele carregava fez-se em cinzas imediatamente. Seu caminhar tornou-se pesado e errático, ainda agravado pela cegueira. Porém, ao dar três passos para dentro do castelo, das cinzas onde jazia o peixe nasceu um enorme boto de ouro. Ao abrir seu bico, deixou sair o mar de lágrimas que a Dama dos Tristezais verteu por toda a eternidade que atravessara em pranto. Com o mesmo bico atirou a criatura em seu dorso e foi nadando pelas escadas, tal como uma cachoeira invertida, até o aposento onde vivia a princesa.

Ao sentir a força das águas que atingiram o topo da torre, Lenora, cuja dança já havia se transformado num transe, abriu os olhos pela primeira vez em séculos. Em segundos, o ser grotesco no qual o pescador havia se transformado avançou sobre ela, mas o brilho que emanava do boto fundiu-se com a luz que ela também irradiava, obrigando o horrível ser a abrir os seus grandes olhos amarelos. Nesse momento, ela mirou na retina do monstro que a devorava e viu, lá no fundo, o olhar do pescador.

Então, no mais denso e escuro, se encontraram,

e palma a palma, pelas mãos se beijaram.

Palma a palma, o portal atravessaram.

Alma a alma, para sempre se amaram.

E “nunca mais”…

Nunca mais escutaram.

poeminha de auto-retrato

Nunca teórica;
(me falta Apolo)
Apoteótica.
Até poética
(na face clara)
Também apática
(em dia escuro)

 

(criado em brincadeira com a turma do CLIPE 2016 – centro de formação do escritor da Casa das Rosas)

dilemas libertos

– Pedro, você prefere o frio ou o calor?
– Quando tá frio, eu gosto de ficar num lugar quentinho, quando tá calor, num lugar fresquinho.
– Eu tô perguntando se você prefere o tempo frio ou o tempo quente.
– No frio gosto de lugar quentinho, no calor de lugar fresquinho, ué.
(Entendi. Demorou, mas entendi.)

<3

“Acho que o Pedro disse alguma coisa pra Júlia no intervalo que ela não gostou. Ela foi para a sala de aula chorando, disse que não queria fazer aula de educação física, que a cabeça doía muito. Eles não quiseram contar nada, mas é melhor perguntar”. (relato da professora).

O que poderia ter acontecido?

No carro, depuramos o fato, o Dja e eu. Ele chorou.

Que foi, Pedro? Você falou mesmo alguma coisa pra ela?

“A dor de cabeça entrou nela, mãe”.

E foi isso mesmo, depois eu soube. Ela teve uma dor súbita, e ele estava tentando ampará-la, abraçando-a.

Não foi nenhuma palavra doída.

Foi a cabeça.

Ufa.

E ele ainda complementou: “Eu não poderia nunca deixar a Júlia triste”.

Morri de ternura.

 

Carta aos meninos num quase-inverno de 2016

balanço meninos

Meus queridos,

O país ferve. O mundo ferve. As vitórias democráticas conquistadas quando sua mãe tinha a idade de vocês foram novamente ameaçadas. Os livros de História estão se revirando do avesso, com páginas sendo reescritas por múltiplos pontos de vista, com folhas futuras arranhando previsões apaixonadas. É um tempo bem estranho, bem louco, talvez até lúdico, e se comento essas coisas é para explicar a vocês porque às vezes eu, outras seu pai, anda pelos cantos coçando a cabeça.

Porque a gente é teimoso pra caramba.

A gente tem todos os aparatos possíveis para se enquadrar no “sistema”: inteligência, formação em instituição superior reconhecida, informação, ímpeto, talento. Mas a gente preferiu usar tudo isso pra fazer outras coisas, daquelas que colaboram para a vida. Resolvemos não usar um tapa-olho e comprar aquele pacote “vou me submeter ao mal necessário porque tenho filho pra criar”, porque nem vocês nem o planeta merecem essa conta para pagar no futuro. Então é no aqui e agora que nós dois estamos lidando com ela, às custas de muitas conversas buscando saídas e outras contas penduradas.

Muitas vezes, a vontade de gritar é muita. A gente até grita, e deve ser assustador. Tem dias que nem eu me aguento, tem dias que a fé fraqueja, vá pra sala brincar, que não tô podendo com tanta coisa! Nesses momentos me contento em pelo menos não me esquecer de dar o almoço, água, mas colo não dá, porque sou eu quem preciso. Ou seu pai. Vá conversar com seu pai, digo, nos tempos em que ele também se assusta e a bronca entra na frente por se estar vivendo em modo de briga. Porque é preciso reinventar, meninos, o que é ser adulto, o que é ser família, mãe, pai, gente.

Mas não pensem que a coisa é só dura: também tem momentos sublimes. Ouvir, diariamente, o doce canto da vida coerente. Libertar-se de tantas crenças… Retirar do DNA o “ter que ser”, a síndrome do sucesso a qualquer custo, a culpa, a tentação de retroceder… Porque os olhos só brilham se os pés caminharem na direção do espírito. Olhos brilhantes são faróis, iluminando essa trilha obscura e nova.

Isso, queridos, é ser gente grande: já ter cruzado limites. Todos sem volta.

Nessa travessia, é gostoso se deparar com fogueiras no caminho. Ali encontramos gente que também busca. Então cantamos, trocamos medicinas, trocamos marcas no mapa, porque vamos para uma direção parecida, mas o caminho percorrido é dança individual. Seu pai e eu vamos dançando juntos essa canção do espírito. Não há caminhos pavimentados, mas a delícia da aventura é garantida. Uma jornada que se vive na pele, que se arrepia na espinha, que se localiza no coração tantas vezes acelerado, um percurso de verdade, sentido na planta do pé, não projetado em telas planas. É essa a herança que queremos deixar a vocês: a coragem de seguir sua própria verdade, o desejo profundo do ser, sem se submeter às chantagens do que é desumano e decadente, ainda que disfarçado de luxo. Ou pior, de necessidade.

Se esse fosse um livro de histórias, estaríamos agora naquela parte perigosa. Naquele momento da noite em que a última vela se apaga, e só nos resta a confiança na ajuda vinda das estrelas. É uma pausa no movimento, pede calma, escuta, cautela. O desafio é resistir à tentação de sair correndo, atirando pra qualquer lado, atirando em faces inimigas, atirando a vida numa corrente de ressentimentos. Porque o tempo é de sombras, mas é também de mudanças. Irreverência ao bruto, ainda que solene. Subverter é se permitir sentir, profundamente, a alegria pulsando, insubmissível a qualquer lamento, a qualquer culpa marcada a ferro e brasas, confiando que essa estrada coletiva caminha para um ser verdadeiro.

Confiando que o rio da nossa História transbordará em uma cascata de luz divina, enchendo de frescor e arco-íris por onde passa.

Estamos juntos nessa aventura, queridos. E a cada noite, quando olho para vocês em suas camas depois de cantar nossas músicas, depois de acesa a vela pro anjo, depois de ouvir a singela reza que brota dos seus sorrisos… Depois de sentir reverberar em mim a alegria que sinto fluir dos seus corações…

Sei que estamos rumo a essa cachoeira alucinante, repleta de sons, cores, potência,

paz, consciência,

e fúria de amor.

(di)verso além das palavras

Papai, o Pedro tá estragado.

Eu só tomei conhecimento dessa fala algum tempo depois. Se tivesse ouvido na hora, não sei o que faria, acho que seria quebrada em mil pedaços. Ainda bem, ela foi endereçada ao pai, um consertador nato de coisas.

Você tinha quase cinco anos. Até aquela data, a gente esperou. Coincidíamos, seu pai e eu, sobre a mesma terra firme: não queríamos forçar sua natureza. Sempre soube que não havia algo a se corrigir, e sim a se ampliar. Nunca senti algo errado, era só diferente. Ele ainda não fala? – alguns deixavam escapar, como se fala fosse coisa uniforme. As respostas variavam de acordo com meu estado de espírito: sim, mas a primeira língua dele é a música – era a resposta que mais me ressoava a verdade.

Porém, depois desse pedido de socorro, a gente entendeu que era o momento de pedir ajuda também. Na delicadeza, sem interferências brutas, mas além do limite da nossa ignorância. E graças aos céus, passamos por muitas mãos abençoadas, cada uma contribuindo com seu melhor conhecimento para que entendêssemos o quebra-cabeças dessa mente de outra ordem. Porque, Pedro, você veio de um tempo além das amarras.

Talvez por isso, seu anjo nunca deixou que construíssemos sobre sua liberdade a prisão de um ser especial. Seu pai, logo cedo, ignorando o próprio medo ou terror, lançou-te no turbilhão da vida, percebendo, no espanto, que não só você sobreviveu, mas era feito dessa natureza. Jamais poderia ser protegido, apartado da intensidade que rege a existência, porque você, meu filho, veio em sintonia com o caos das tempestades. Por fora, delicadeza gentil, elegância ímpar. Mas também carrega consigo a fúria das grandes orquestras. Ninguém melhor que você surfa na lógica fragmentada, pesca por telepatia, fala por entrelinhas sutis. Só te custou compreender a redução imposta pela linguagem formatada, essa necessidade de prender conceitos em palavras. Você sempre preferiu deixá-las soltas ao vento, levadas de cá pra lá pela melodia das letras. Mas num dado momento, entendeu que precisaria decifrar essa estranha forma de comunicação: lógica, organizada, enfileirada em frases.

E como tudo a que você se dedica, essa foi uma linda conquista. Tornou-se não um domador da fala, mas um bailarino da linguagem: dança com ela, deixando silêncios, brechas, variações.

Só às vezes, por puro rapto do belo, me furto de reestruturar suas frases forjadas no caos. Deixo, em segredo, a correção para algum ponto futuro.

Não é por nada não, meu filho, mas não é da minha natureza espantar poesia.

prova de cavaleiro: o coração gentil

Saiu da escola com coração abalado. Forçando uma brincadeira, havia machucado uma das meninas da classe, pegando no seu braço com força além da conta. Ficou roxo, ela reclamou, mostrando que doía.

Ele, aprendendo a duras penas o limite do corpo alheio, na volta pra casa, ficou amuado.

– Tá tudo bem?

– Não.

– O que aconteceu?

– Tô com vergonha.

– Conta que passa.

(Tentou falar, mas a fala não saía)

– Tô com vergonha.

– Conta se quiser, então.

(Silêncio no carro. Agonia era tanta que dava até pra apalpar no ar. Passaram-se duas músicas e uma eternidade)

– Agora eu quero falar.

(A história saiu doída)

E eu, orgulhosa da vergonha dele. Da culpa não, culpa não presta pra nada. Mas vergonha na cara sim. Sentir o sentir do outro, especialmente quando a gente machuca esse outro, precisa de muita coragem.

Eu disse isso a ele.

Mas ele não se perdoava.

Precisava de mais tempo além da dureza das penas.

Precisava do belo que cura a dor das pontas.

Já em casa, silenciou,

serenou.

Então a fada, nele, falou: resolveu dar desenhos de presente. Pediu aquarela, colocou-se diante das páginas em branco com a franca disposição de fazer algo bonito, não apenas para a amiga, mas para todas as meninas da sala. E fez quatro desenhos lindos e coloridos, amarrou com fita rosa, colheu quatro pedras no jardim e colocou tudo na mochila, ansioso pelo dia seguinte.

Então ele curou seu coração,

e a mãe feminista derreteu.

na gira dos cavalinhos

Para cada filho, um coração. Mas cada peito que o contém pede um corpo, então sou pelo menos três com cara de mãe. Também sou grata por ter esse privilégio, o de poder ser presente nessa primeira infância (uma opção consciente), mas louca por conseguir coordenar os tantos outros eus que pedem passagem.
 
A casa, exigente, me grita pelo menos mais nove personas exclusivas, o que desobedeço com prazer. Mas com gosto eu cedo ao posto de jardineira, porque amo cultivar fadas, e elas me pedem locais mágicos e floridos. Nas artes culinárias faço o que tem pra hoje (apesar da herança genética favorável, esqueci de passar nessa fila de talentos) e a alegria de encher a casa de pisca-piscas depende de uma arrumação prévia, coisa que nem sempre tô a fim (e quando faço, recebo do Djair a gentil alcunha de Arnolda Schwarzenêga, tamanho o ímpeto dedicado à tarefa). O resto delego sem culpa.
 
A filha (que ainda e também sou) guardo para momentos de mimo.
 
A amiga transita a toda hora, facinha de lidar essaí.
 
A enamorada tem seu espaço guardado a dentadas. Seus domínios são protegidos por espinhos, e por eles garanto o aroma de rosas embebidas em orvalho, doce alimento dos dias. Sou tão feita de sua matéria que (ainda bem) seria quase impossível que ela se transfigurasse numa lista de supermercado. Mas é preciso estar à espreita: esse é um risco constante.
 
Há várias outras transitórias, eventuais, efêmeras.
 
Da classe daquelas secretas, há uma em especial: a que anda me cavando espaço a unhadas, arrancando a pele da sola e dos calcanhares até que eu lhê dê ouvidos e pernas. Ela não segue padrões, a santa louca desvairada. É aquela desacostumada ao giro da rotina. Aquela que quer sair a galope em linha reta.
 
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Como lidar?
 
Como lidar?
 
Como lidar?
 
 
Um dia, por pura graça, me veio resposta divina: Cavalgue pra cima – escutei – direto pro céu sem limites!
 
E lá foi ela, artista-amazona, sem olhar pra trás, nas asas do vento, montada na necessidade.
 
Pra Lá foi ela, feliz, sem saber que é seu giro espiralado ao redor do grande mastro o que faz mover o carrossel dos dias terrenos.

 

 

carrossel