sobre o amigo Antônio Mercado


Hoje me lembrei de um grande amigo e mestre: Antônio Mercado.

Ele cruzou minha vida (ou eu a dele) num momento bem decisivo, há 10 anos atrás. Na época, eu era estudante de cinema na USP, e havia recém-descoberto que o mundo não se restringia à sala de produção da ECA. Militava ardorosamente no Movimento Humanista (onde estou até hoje) e passei a questionar, entre tudo o que fazia, o papel da arte e do artista.

Até que resolvi “filar” sua aula, direção de atores. Esse era somente o título da matéria, porque o conteúdo era algo muito maior. A cada manhã, eu saía plena, sempre com a sensação de ter roçado em algo que sempre procurei, porque não só a carga de informações que ele generosamente nos transmitia era muito consistente, mas também sua humanidade. Era a primeira vez, por exemplo, numa escola de artes, que alguém falava sobre posicionamento artístico, do que buscamos com o que fazemos. E nada parecido com os modelos “mestre Yoda”, pelo contrário. Ele não fazia força para ser referência, no entanto, lá estávamos nós, sempre uns cinco ou seis da turma, segurando-o na conversa até uma hora além do término da aula.

Eu tinha um privilégio: Ainda dava carona, e podia contemplar mais uma hora de diálogos exclusivos…

Juro que não é tietagem. Quem o conheceu, sabe desse poder que ele tem de abrir dentro da gente um lugar especial. E isso não acontecia somente pelo que ele dizia, pelas histórias que contava (entre elas, seus tempos como advogado criminalista quando, junto a outros como ele, libertou vários presos políticos na época da ditadura militar). Havia uma aura em que se podia intuir tudo o que ainda não tinha sido dito. Porque ele foi uma pessoa que se lançou à excelência do seu trabalho, não teve receio de ir além dos limites, e isso transparecia. Ele nunca disse, mas eu sempre soube.

Na época, antes de conhecê-lo, eu quase desisti de tudo. Estava frustrada com as brigas dentro do curso, com a pouca profundidade do que eu fazia, e comecei a crer que o mundo precisava de coisas mais urgentes. Comecei a questionar o que eu estava fazendo com minha vida, e tudo me parecia uma grande egotrip.

Ao mesmo tempo, aquelas manhãs sempre me deixavam um gosto de uma estranha alegria, como um afago na alma. Como se meu carrasco interno tirasse um cochilo na presença do Mercado. Como se eu vislumbrasse que sim, eu poderia fazer algo pelo mundo escrevendo, criando. E que esse meu “compromisso com o mundo” que se contrapunha à vida artística era um puta medo de errar e ser plenamente o que eu era. Que sim, eu poderia assumir minha vocação sem culpa. Porque vocação, quando é verdadeira, é uma correnteza que te busca onde você estiver e te arrasta sempre. Lutar contra isso era terrível.

O Mercado também me ensinou (sem falar) que estar no mundo, dentro das estruturas, não necessariamente é se vender. O Mercado me fez ver que o “mercado” é mais um campo a ser transformado, se você não acredita nele. Ele contou da sua experiência na Rede Globo, imagine…Dele e de tantos outros que usaram o veículo com fins revolucionários, que tiveram estômago e fígado para isso.

O Mercado, então, foi implacável: me desnudou de todas as minhas desculpas.

Sem dizer nada, sua simples existência em minha vida me fez vislumbrar um possível destino em que eu realizava plenamente o que vim fazer: CREAR. Gerar vida a partir do nada.

Hoje, ele está lá em Portugal. Já faz um tempo grande que ele cruzou o mar levando com ele a vontade de realizar que pulsava sempre. Já faz um tempo que não nos falamos, pode até ser que agora ele seja um jogador de pôquer famoso, um dionisíaco dono de reustaurante à beira-mar, um artesão de sapatos, aparador de bigodes, mas ainda aposto que ele segue pisando firme nos palcos. E eu, depois de ter gerado um filho e algumas peças, sempre me surpreendo, às vezes como um assalto, com a sua presença em minha memória. Talvez ele já tenha se convertido, dentro de mim, em um guia. Porque aquelas manhãs na ECA deixaram um cheiro estranho, que é um forte antídoto aos momentos de desânimo, aos momentos quando novamente cedo à pressão do carrasco e deixo de realizar o meu destino.

Um cheiro de permissão para ser. Integralmente, ser-se. E viver o que se é.

Caro amigo, te serei eternamente grata. À sua existência no mundo e à sua permanência nas minhas lembranças de todos os dias.

alegrias

adoro encontros inesperados em lugares inesperados em dias inesperados, momentos inesperados. tem gosto de festa preparada pelo destino.
pra isso, basta sair de casa.

quando grávida (dez luas)

O que isso tem a ver com todo o resto da matéria viva?
Tudo.


Mas nem sempre foi assim. Houve uma época em que o medo era maior. Não me pergunte do que, porque quando se tem medo nem se sabe, é só um ar dilatado impedindo o ar de verdade. Teme-se tudo, porque no fundo a gente se sabe mudança constante. E o medo cria uma ilusão de pintura na parede. Sem perspectiva, cor ou forma. O medo cria as ameaças, o poder estabelecido, a fuga de si, a necessidade de quem manda (pra onde?). O medo é o capacho do desejo de permanecer. O medo tem nomes toscos e imperativos que mudam ao longo da história (Nero? Bush? Quantos…), mas também tem marcas individuais criando esses pequenos nomes dentro de cada vivo. Nos vivos que se sabem vivos, os humanos, ele cria história regressa.


O outro lado do medo é a coragem. Coragem, coração, peito aberto que pulsa e marca o ritmo do movimento, que nunca é quadro parado. Nada mais lindo e temível (para os que têm medo) que um coração pulsando. Talvez daí venha o medo das bombas de onde nascem as guerras, porque o coração é bomba de onde nascem luzes.


Mas antes da visão do coração pulsando, o saber-se recheada de vida. Não só o impulso vital de todos os dias, mas uma vida alheia, alma outra que quis vir nessa Terra-universo-espaço-tempo por meu intermédio. E antes da cena do coração pulsando no ultrassom, um banho infinito, talvez o maior da minha vida, o banho após a notícia de se saber agora outra, agora grávida, me disse mais do que a imagem cinza e enigmática do ultrassom. E uma voz doce desceu de algum lugar de onde vozes doces vivem e, no meu coração acelerado e feliz e de repente perdido e sem acreditar, encheu de matéria fé um corpo que jamais seria o mesmo, um espírito que, já em construção (o meu), jamais será o mesmo. A voz cantou um canto sem palavras prenunciando o retiro dos próximos nove meses. O que a voz cantou eu entendi a prestações, mês a mês, ao perceber que gravidez não é só espera, são encontros.


O começo é a novidade com terremoto do corpo. Tudo se reajusta, provando que sempre há espaço pro que se deve nascer na gente. As vísceras vão cedendo espaço, mas como são melindrosas (porque nós as carregamos desses sentimentos não resolvidos), dão gritinhos mal-humorados. Mas nessas horas a gente, com dois corações pulsando, acha coragem em dobro. Essa coragem escorre até os dedos dos pés, que se liquidificam e escorrem pela terra, por mais que se use sapatos. Vira um líquido que, em contato com a terra, por mais que se pise em cimento, assume formato raiz. E todos os cantos internos de todos os cantos não revelados sobem por ela como seiva, numa ação contrária à gravidade, alimentando o espírito. Esses cantos são os hinos entoados mês a mês, e apenas ouvidos se a coragem tiver silenciado o medo do novo. A gente cala o cotidiano, cala as conversas inúteis, acho que até o ouvido deve crescer um pouco, de tanto que talvez se escuta. Digo talvez porque não é óbvio, é tão sutil que escapa ao menor retrocesso à vida anterior. Mas os dois corações ajudam. Às vezes a gente até solta um rugido que escapa de alguma herança perdida, lembrando que só somos gente por ser de outra espécie e por escolha, mas que o impulso está lá, para quando se quiser tomar contato. Então é o canto da terra com o tambor duplicado no peito o que, durante esse tempo nos coloca em estado de graça, e também nos desestabiliza, enquanto nosso corpo vai se tornando lua. E os contatos também ficam sutis, com a alma de quem vem, com a alma do pai que assiste à revolução em tempo lunar mudando também o seu calendário. E assim como a terra muda as marés com a lua, o pai deixa-se tomar (caso queira também cair na correnteza da vida) por essas ondas gigantes, vivendo uma trindade ainda secreta entre dois mundos.


De tudo, só é necessário querer o que é vivo e humano. Em si e nos outros.
São três momentos. Gestação, parto, maternidade. Cada um com canto próprio. Agora o que experimento é o final do primeiro ato. As últimas notas, as últimas viradas da lua.


Não é um mês. São semanas


Não, não são semanas. São dias. Dias não!
Horas…
(Oras)
Horas perdem os contornos. Nada mais se conta em unidades de tempo.
….
É um longo tempo…
Talvez não pela ansiedade ou pela demora…mas por, talvez, se esperar que a cada momento a vida irrompa a realidade cotidiana, e é preciso estar atento, é preciso estar desperta, preparada, em prontidão de pássaro antes do tiro, vive-se o último mês como se deveria viver sempre, atenta e grata pela morte iminente, pelo nascimento iminente, pela vida, o presente, enfim.

a minha casa tem goteira

antes, pingava ni mim
em cima do meu travesseiro
remendamos o telhado umas 1500 vezes. O cara que arruma disse que não tem mais jeito.
agora, quando chove, só chove (e chove meeeesmo) no banheiro.
devo agradecer porque é no banheiro, piso frio?
espero, conformada, pela estiagem? Mesmo que o ar de SP fique horrível?

vitórias ecohumanistas do dia

1.manifestação no IBAMA hoje não teve violência policial
2.conseguiram que haja uma audiência pública com os municípios atingidos por barragens antes de inundarem tudo com a porcaria da usina
Agora só falta o Sr.Antônio Ermínio deixar de lado o capricho, deixar a miopia, deixar essa gente em paz, meu Deus, que todo mundo tem mais o que fazer da vida! E ele não tem? Quem precisa de alumínio, lata de Cola Cola?
para saber mais: http://www.terrasimbarragemnao.blogspot.com/
e tenho dito!

palavras-bebê

Hoje o Pedro falou água. E mostrou a língua.
Eu sou a tetê. às vezes, a mamamamamama. Pra mim é aleatório, pra ele deve ter sentido uma ou outra.
o Dja é o papapapapapapa
já tem também uo(v)uô e uo(v)uó
e andar: adiá
a campeã: taita. Essa eu nunca entendi, que burra!

gracinha musical

Sabe que o incrível é que às vezes, a gente parece que…não sei… A gente parece que…, sabe, a gente não sabe de nada…

aceitação

Ser do rodapé. Ser da ralé. Ser do foda-se, do foda-me, do cais. Ser mais.
Ser da falta. Ser da não precisar. Será? A liberdade dos que parecem livres, do que padecem livres, mas que afrouxaram o passo por falta de RG.

Ser a banda que ressoa no coreto da cidade para ver os velhos dançarem sem importar o cachê. Ser a mola do realejo ao entregar o bilhete certo a quem ansiava boa sorte. Ser a valsa na noite de lua. ser o acalanto da lua após uma dor desconsolada, ser a voz do desespero que alivia o risco do suicídio. ser a luz na névoa fria. feito brisa. que torna-se tormenta;

Ser a volta da fortuna na vida. ser a permissão pra sorrir, ser a planta da casa, renovar o O2 esquecido, ser o porto dos amores esquecidos Ser. Não importa quando, nem onde, mas fazer orbitar os elétrons ao redor dos núcleos, pelo simples motivo de manter a vida em movimento.

Recriar não a vida, nas a razão dela. e deitar-se na íntima certeza de ter nascido para fluir seiva fresca ao mundo, seja ele qual te deram.

Ode ao câncer contemporâneo

Ela vende.
Ela mostra
ela tem que agradar.
Ela carrega a alegria do sonho realizado
ela espanta tristezas
abomina tristezas
tem que ser digerível

Ela evita o confronto
Mas não se esquiva do confronto com o outro
que possa lhe roubar a posição

Ela evita a dúvida
a dívida
o fracasso
auto-suficiente, auto-centrada, autonomatizada.

Ela sorri para todos
Ela é linda
ela não erra
Ela tem que vender
Ela não silencia
Ela não descansa
ela fala, fala
mas não troca

Ela patina na solidão de si mesma
para ela, silencio é anonimato
e anonimato é morte certa
vida é fama
ser de todos, menos de si.

os outros são apenas aplausos
palcos
degraus
amigos a favor do pêlo
amigos-platéia-aplausos

Silêncio

Silêncio

Silêncio

De repente, uma fratura
vazou um silêncio
vazou outra possibilidade
vazou o desespero de novos caminhos

o desespero da libertação

vazou um outro pensamento
vazou um desejo até então estranho
de não ser ninguém
além da vontade daquele momento

Vazou um desejo de implodir estruturas
de jogar para o alto o pódium de tantos espetáculos
de tantas vitórias

Vazou, e logo foi tapado
com um novo show
que nunca mais foi o mesmo

a partir daquele dia,
a felicidade gerava dúvidas
o espetáculo gerava dívidas

anos de dívidas de alma.