era ela, o abismo

lá estava ela, e o abismo
um texto que ainda vou escrever. estou com uma certa saudade de um delírio, a vida de repente aterrou demais.
são momentos e momentos. mas dá saudades de dioniso
essa foto foi tirada há mais de dez anos, numa expedição com um grupo de atores e de fotógrafos. Foi animada pelo renatinho chaui, um espírito lindo que hoje é só espírito.
um dia, foi ele e o abismo. e o abismo ganhou a batalha.
pra ele, naquela época, escrevi um texto. hoje, não sei por que, veio à tona:

Voa, meu amigo, voa
Ao encontro da sua paz (?) aqui nunca conquistada
Voa, meu amigo, voa,
Voa dentro de mim com o olhar edificante com que você enquadrava o mundo, e sua sede de vida nunca saciada
(talvez por procurar se adequar ao inadequável)

Não quero romantizar seu salto. Nem tentar entender suas razões, ou a falta delas.
Só espero, como um último desejo,
que sua alma tenha se refeito em algum ponto do infinito para onde você mirava.

E sua imagem voando será a minha herança
Tão fiel como sua amizade
E sua imagem no ar será a minha certeza
De que esse mundo ainda não é feito para os humanos

E sempre que eu estiver prestes a sentar no conforto e acreditar no que me vendem
Seu vôo me fará levantar, seguir em frente e mudar alguma coisa.

proibidus


a gente disse pro Pedro que ele não pode pegar o telefone sem fio daqui de casa (ele deixa ligado, baba, joga no chão…não, né?)
lógico que o telefone virou um obscuro objeto de desejo.
um prazer incontrolável que só perde a força se a gente deixa mexer.

agora ele tá com o telefone falando na sua nova linguagem élfica ou ewok. algo como butibutiguti

eu queria fotografar, mas a câmera quebrou. virou “não pode”. claro, aí que me deu uma vontade imensa de fotografar, filmar, ligar a câmera, porque ficou proibido.

aí, podendo pegar o telefone, o telefone perdeu a graça e ele quis pegar o inalcançável: o teclado do meu computador. lkmnçlkjn~ljk~kjõklj

polianice

a única coisa boa de demorar a viabilizar um projeto é que, enquanto não sai, eu vou aperfeiçoando.
NA GIRA RETA DO DELÍRIO, por exemplo. Descobri recentemente que a personagem que inspirou a peça simplesmente está equivocada.
lá vamos nós, reescrevendo.
a gente muda, elas mudam com a gente. as personas.
bora aí, mudando, minha filha! o futuro é grande, mas uma hora ele encurta! terra gira devagar pra não dar tontura, mas parar no tempo dá vertigem de retrocesso.
já tô falando demais…

identidade

eu 7kg mais magra. Hoje era segunda, mas como era feriado, comi strogonof. mas vou fazer kung fu, de repente agora vai.
estava adorando as aulas de danças brasileiras do Cris Meirelles, mas ele quebrou o mindinho do pé, é mole? um mindinho cambeia a gente toda!
eu sem óculos, mas fazer o que, não dá pra ficar sem nem usar lente. então agora assumi de vez, botei óculos daqueles de aro grosso. meio 60. meio estilozinho. meio máscara do zorro, pra falar a verdade.
eu de cabelo arrumadinho, mas disso já desencanei faz tempo. não quero fazer relaxamento e coisas do gênero, tenho medo de câncer no cérebro e da estética chapinha. pelo menos o cabelo zoado é estilo da família, eu, dja, pedro. o dele tem cachinhos.

sobre a natureza do público

certa vez, vendo o documentário “à margem da imagem”, sobre moradores de rua, um personagem me revelou a essência do pensamento acerca do público. ele havia construído sua morada debaixo do viaduto do Sumaré e, segundo o próprio, escolhera o lugar porque sendo público, não era de ninguém”.

não é ótimo?

desse pensamento, derivam outros:

“o público é o que ainda não é de alguém. Se ainda não é, é porque ninguém ainda comprou. Se ninguém comprou, ainda está à venda. Se está à venda, eu posso comprar. Se eu comprar, então não é mais público. É meu.”

o cara do filme, como não tinha poder de compra, teve que desocupar o público. Mas ele não sabia que o público era, na verdade, de todos, portanto, também dele, então teve que obedecer.

os caras de grana, como têm poder econômico, têm o poder, também, de transformar público em privado. primeiro, foram as terras. Agora, ar e água. Com o fogo só não mexeram ainda porque vão ter que acertar as contas com Prometeu. Na justiça dos humanos já está tudo certo.

crise choque pilha

crise tem sido moda. pra mim, nunca foi. acho um saco, porque tudo pára. ou antes parasse, tudo dá voltas, tudo dá náuseas, eu, correndo atrás do rabo. é claro que vem para bem, a gente cresce e etc, mas até que chegue…são voltas e voltas…
nessa semana assumi uma crise. crisezinha, mas ei-la aí, inevitável, dando sono nas horas erradas e tirando o sono nas madrugadas.
mas dessa vez, ela veio com um rosto. um rosto gordo e escroto. que ria e urinava em mim, enquanto eu, com a boa vontade de uma boa alma, fazia o que ele pedia.
foi um sonho. a figura escrota (antes, não assim revelada) me pedia para que eu pegasse um par de pilhas num poste – assim são os sonhos, não me peça explicações. botei a mão no poste, levei um choque desses de prender os dedos, o cara ria e mijava na minha cara. muito humilhante. por alguma razão desconhecida, o pedro chorou bem nessa hora, como um anjo me tirando de perto daquele traste no meio da madrugada para sua mamadinha de sempre…e deixando claro o confronto com essa energia indesejável.
o cara gordo e escroto?
não. esse é só mais um daqueles personagens internos. a energia indesejável é aquela que me faz virar uma ameba, ficar suscetível, perder meu chão.
por que, ô caralho, eu não faço logo o mero fazer? o que vim pra fazer? por que, ó por que, uma multidão de palavras inúteis invadem minha cabeça me tirando o sossego, atisicando a certeza, a clareza, a coragem, a confiança? a claudia, sei lá. hoje está estranho até dizer meu nome, como se não fosse eu.

tempo pedro tempo

cuido-te, filho
até que andes pelos teus pés
enquanto guardo e aguardo,
teu sorriso me empresta a lembrança do meu.
tua inocência me lava
e me devolve a minha.
tua confiança na bondade do mundo
me traz de volta a coragem:
braços abertos para o desconhecido e o incerto,
cambaleando ou não, sempre em frente,
tesão de viver.