mais um tequinho da peça

Uma vez eu fui com minha mãe no cemitério. Foi a única vez, pro enterro de uma tia. Era um lugar muito lindo, um dia ensolarado. Eu era pequena, mas já entendia o que era a tristeza, então queria saber por que num lugar tão bonito as pessoas choravam em vez de fazer pic nic. E também perguntava por que tanto espaço sem gente brincando, e por que tanta flor se nem gente tinha pra ver, e antes de outro por que minha mãe explicou:

– Porque quando a gente morre, que nem a tia Mena, vira flor.

– Mas e quando a flor morre, vira o que?

– Semente. E espalha na terra toda.

E eu, que era gente com nome de flor, ia virar o que? Outra flor ou semente? Como eu ia me esparramar na terra sem deixar de ser uma coisa só? Eu ia perguntar pra mamãe, mas nessa hora ela tava chorando. Deixei pra perguntar depois, muito tempo depois. Mas eu já tinha esquecido aquela pergunta, então quis saber por que meu nome era aquele.

– Porque você nasceu com um sol dentro na cabeça, um sol amarelo que nem miolo de margarida.

Uma resposta para “mais um tequinho da peça”

  1. Fiquei emocionada! Lindo o texto. Já não sou mais criança, mas ainda me questiono as mesmas coisas toda vez que vou para algum enterro. Não vejo os motivos para seguir com tal tradição, visto a evolução da medicina. Como diz Bauman, o grande problema da nossa sociedade não é adquirir novos hábitos, mas nos livrar dos antigos.

    *_*

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