pra quem tem tempo, um papim.

Num sei pur que, duns tempracá, eu tenho lembrado de Min’s.

Juiz d’fora. Lá dionde eu vim.

De viver num outro tempo, sabe? Do cafezim. De bater um papim. Sei lá, boba, faz um tempão que eu tô aqui, em São Paulo, mas nossa senhora! Acho que é saudade.

Trudia, pedi prum amigo o endereço dele pra mandar uma carta. Faz tanto tempo que eu não escrevo carta que vai doer a mão de escrever. Porque é uma coisa de doido isso, depois do e-mail só chega conta debaixo da porta, e às vezes uma encomenda. E também depois do facebook só chegam mensagens coletivas, dessas de listas, na minha caixa de e-mail. Faz tempo que não recebo e-mail pessoal, nem quando mando pra alguém, respondem. Pra falar a verdade, não me importo. Assim como não me importo de me assustar quando toca o telefone fixo. Em muitos casos, é telemarketing. Hoje é tudo network.

Então não vou fazer aquela reclamação ranheta da tecnologia, apesar de ter saudades de receber as tais das cartas. Menos papel impresso, penso, pra compensar. Eu mesma me surpreendo comigo: antes ligava pras pessoas e dizia: “Que saudade! Liguei pra conversar”. Agora pergunto: “Tá podendo falar?”Supõe-se que sim, já que a pessoa atendeu. Mas a verdade é que é todo mundo tão escravo do telefone que a gente atende mesmo sem poder, xingando quem ligou.

Aí eu lembro de uma aula de cinema que eu dava dentro dum estúdio preto em que imagens eram projetadas num telão. Passei uma semana de sol  vendo projetadas imagens de montanhas e cachoeiras. Nunca estive tão próxima da caverna, e desesperada para viver. E lembrei das montanhas de Ibitipoca.

Mas dá saudade mais das pessoas, sabe? Das portas abertas. Trudia, eu cismei de levar o pedro, filhim de 3 anos, numa loja de instrumentos musicais pra ver se ele ia curtir o presente que a vó queria dar: um violino (ele é meio que fissurado nisso). Sabe aquelas coisas que a gente faz meio abilolado? Porque, obviamente, ele surtou ao ver o violino ao vivo e a cores, e surtou ainda mais quando o vendedor tirou, sabiamente, a peça de mostruário das mãos dele. Até o segurança da loja chegou pra ver o que tinha de errado com o pequeno ser que se debatia, protegendo seu sonho recém-concretizado dos adultos do mal que o ameaçavam. É, a gente educa. Faz de tudo. Nessas horas, faz o que pode. Compramos o tal violino num desespero de final dos tempos, sem afinar nem nada, com a certeza derradeira de que ele tinha gostado, e ao chegar em casa, a coisa não tocava. Voltei na loja (sozinha), sendo reconhecida rapidamente por todos, e pedi com ar de desespero que alguém pelamordedeus fizesse aquilo tocar.

Aí apareceu um minerim.

Recém-chegado de lá, recém-chegado na loja. Recém-casado. Com portas abertas.

Pegou o violino como se fosse uma obra de arte, ainda que fosse desses made in china. Ouviu, ouviu. Foi para um canto quieto da loja. Sorriu. Pediu calma. Eu ainda me desculpando pelo ataque de fúria do filho, ele só disse: “Criança é assim mesmo.” E disse isso com um amor tão grande que me fez perceber que minha rigidez vinha mais de um medo de não estar sendoeficientenaeducaçãodomeufilhoquenãopodedarchiliqueporquequercoisas do que de um desejo concreto de ajudar. E ele, ali, ajudando. E ainda repetiu, num outro contexto: Criança é assim mesmo.

Eu pedi, naquela hora, dentro daquele templo que ele construiu à nossa volta sem perceber, para que ele conseguisse manter aquele lugar sagrado vivendo aqui, nessa terra de tempo doido. E ele, em silêncio, afinando, com suas portas abertas balançando com sua respiração, convidando a entrar, tomar café, desacelerar. Entrei paulista, saí mineira. Ele afinou o violino, e a mim também.

Amo São Paulo, viu? Apesar de tudo. Mas às vezes é muuuuuuuuito, muito bom voltar pra terra, aquela, aninhada pelas montanhas.

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