cotidiano

Eu passo por eles às quintas de manhã.

O tráfego é intenso. Poderia olhar atentamente, se quisesse.

Quero, mas o receio de que a cena enquadrada pela janela, tal tela de cinema, torne-se real demais, próxima demais, segura o olhar no soslaio.

Retrovisores.

É uma casa a céu aberto, como seria a de Vinícius, se não tivesse ao menos o chão. Minto, mais que isso: chão, colchão, correntes e papelão.

Eita que um deles escova os dentes em plena rua, enxagua a boca com água de garrafa pet, num despertar público. Ousa ser cotidiano, trivial, e no meio desse ato obsceno, observa a bunda da moça que passa, fingindo indiferença num salto alto.

Ousam seguir vivendo, os miseráveis. E eu, que tenho hora pra acordar e quis dormir só mais quinze minutos, atrasada para o trabalho, só consigo pensar tudo isso porque estou presa no trânsito.

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