fim de tarde de um fim de ano

Era tanta coisa pra ainda fazer,

que ela foi ver o céu azul virar alaranjado. Pra sua surpresa, viu foi rosa e violeta.

Era tanta cor no céu,

que ela largou as tantas coisas pra fazer pra virar violeta ou rosa.

e fincou os pés na terra, sujou tudo, a casa até, nem ligando pra mais nada.

poema-título

tenho?

mundo passa

serve à pressa

ao passo,

tempo

caio lento, narmadilha,

ri-te, passa

ao largo alento

tempipassa

quem que guia?

quem?

ao que arma o dia

sou?

mês bis passa

de estação em solilóquio

de equinócio a solstício

na procura

nautopia

nau veleja

capitânia

nau que segue nalma guia

que navega

enverga o traço

mapa, engano

gps

passa o ano,

ARRITMIA.

Diário de ET: o mais difícil de entender até agora

Terráqueos emprestam seus bens – chamados dinheiros – a um grupo privado chamado banco. Emprestam pra eles guardarem, porque as casas não são seguras. Para guardar dinheiros em bancos, pessoas deixam parte dos dinheiros como pagamento.

O banco pega o dinheiro que a criatura deixa lá e empresta pra outros, até pra esse próprio. Por emprestar, as criaturas pagam mais dinheiros ao banco. É uma lógica estranha, pois se não tem nem pra eles – por isso pegaram emprestado – como darão mais ao banco?

Os dinheiros podem ser na forma de papéis impressos, papéis preenchidos a caneta (esses ninguém gosta) ou um cartão de plástico. O cartão é o que o banco mais recomenda. É tudo mais rápido, e o banco pode intermediar tudo com muita facilidade, porque os dinheiros estão deixando de ser uma coisa concreta e estão virando informação.

Os bancos manejam bem a informação. uma outra coisa chamada mídia também, mas essa é outra coisa difícil de entender.

Recaptulando:

1) A criatura coloca dinheiros nos bancos, porque são lugares muito seguros, onde ninguém vai ser roubado.

2) Os bancos pegam emprestado esses dinheiros e os emprestam a outras criaturas, cobrando delas dinheiros (juros). mas não repassam esses dinheiros que sobraram (lucro) aos donos originais. Ao contrário, também recebem destes mais dinheiros para hospedar o deles em seus “cofres”.

3) Esses dinheiros, em breve, serão só de plástico. Ou nem isso. Essa mudança (dizem os bancos) tornará o fluxo mais ágil. Só não entendi, se esse for o caso, como o dono original dos dinheiros poderá guardá-lo consigo, se um dia quiser, se ele não fala a língua dos bancos.

Tentaram me explicar, mas não entendi. Me parece que as criaturas saem perdendo, mas se fosse esse o caso, por que continuariam colocando seus dinheiros em bancos?

O bacana (eles adoram essa palavra) é que eles tem uma ótima relação.  Nessa época do ano, bem festiva, o banco retribui todo afeto, confiança e dinheiros recebidos de todos com um grande show na avenida mais famosa da maior cidade do país chamado Brasil. Muitas, muitas luzes, bonecos gigantes (alguns com criaturas dentro – não sei como respiram) e muita neve, que cai em intervalos controlados. O que também não entendi, porque hoje praticamente derreti de calor, e me parece que está longe de nevar, se for observar o mecanismo climático do planeta. Mas todos parecem felizes, registram as imagens em máquinas portáteis, aparentam normalidade. Devo estar em curto-circuito…

lugares sagrados III

Hoje passei o dia na USP filmando. Como há dez anos, só que hoje do outro lado. “Orientando”.

Deu muita alegria – passar o dia em frente ao monolito-2001-kubrick-praça-do-relógio, lembrar do aprender sem limites e ainda querer mais, gravar o mesmo campo de flores roxas onde, em 2000, atores gritaram EU TE AMO saindo do meio delas (na cena pinabausheana criada por Ana Roxo e por mim),

passar no bosquezinho de árvores do lado do CAC, onde eu pensava na vida e no que seria dela.

Refletia, re-fletia. Pelo reverso.

Terminamos o dia tomando café, alunos e eu, + Dja e meninos, juntando ESPM, USP e casa. Unificando pontas, papéis, décadas, juntando tudo num mesmo espaço-tempo. Tão estranho que deu barato, até agora estou meio em transe.

líquidas

Tenho aprendido muito com as águas.

Não se muda um curso de rio, aprende-se a navegar nele.

A natureza das coisas nasce com a sua essência.

pequena ode a Itamar Assumpção

acho que não falei por aqui, mas estou orientando um documentário sobre o Itamar – orientando, leia-se metendo a mão na cumbuca, porque não dá pra ficar só no palpite com um assunto desses.

tenho aprendido muito. me deliciado muito. isso vale um post exclusivo, inclusive.

agora estamos afinando o olhar para a cidade, buscando Itamar em São Paulo, hoje.

dei de frente com uma cena dessas.

vazou um tequinho de peça nova

Tá bom, eu não aguento. vou publicar só um pedacinho – mas ainda é segredo, não conta. tá bem no começo.

Reverberavam, sentados, lado a lado, escondendo do outro e de si, sem mais poder esconder nada. Ela ria alto, sem freio, deixando escapar parte da ânsia entre os dentes cerrados, tentando frear o inevitável. Olhos se cruzavam rápidos, se demorassem um segundo mais seria fatal, o silêncio não deixaria rotas de fuga. Falavam, então. Cantavam, às vezes, gargalhavam sempre, sempre, evitando as pausas do pós-gozo do riso com novas piadas ou uma súbita seriedade, como se houvesse algo mais sério que a incontrolável entrelinha que, furiosa, cavava espaço.

Enfim, aconteceu.

Foi descuido, depois da décima nona gargalhada, exaustos de tanto achar graça das coisas. Sabiam o perigo da pausa, da brecha que levaria ao portal. Era esse o momento de um tema corriqueiro que se esvaneceu, mas podia ter continuado, havia ainda tanto a se falar, o tempo anda muito instável, na pior das hipóteses teriam assunto. Mas naquele momento, cientes de todo o resto que viria, calaram. E a onda de torpor cobriu a atmosfera de um cheiro doce, irresistível, ainda que ainda resistissem. Antes de tudo, tocaram-se com a densidade do silêncio. Um silêncio aveludado, que fazia cócegas na nuca, que trazia cargas elétricas espinha acima, que tornava líquida, cada vez mais úmida, a fronteira. Não precisaram trocar olhares, trocaram ouvidos. Ficaram ali, em silêncio, amando-se na atmosfera, perderam noção da hora. De ouvir o silêncio, passaram a escutar o ar que respiravam, e sem perceber conspiravam em ritmos alternados, como partes complementares de coisa só. Entoavam um canto ritual, chamado. Sorriam sem se olhar, sabendo que o outro também sorria, provavelmente na exata mesma hora. Eram somente música, e uma só, entoando pelo espaço.

hummm… parte II

acordei com sol e vontade de dar ao mundo

de trepar, de escrever, de saltar de paraquedas, só pra tingir a atmosfera de adrenalina da primeira vez. nunca fui.

adoro primeiras vezes de coisas.

amo ventos. especialmente aqueles antes de tempestades. trazem com eles presente: delícia da descoberta, maior que o medo das águas.

hummm…

vida de graça

engraçada

delícia de ser. êxtase

ter muitos tesões por dia

por coisas assim

gozadas

por coisas sagradas

bestas

por risos frouxos

enviados.