fragmentos de uma peça em gestação

Na gangorra cinema-teatro, de tanto cinemar, volto um tantinho ao escuro de mim, e escrevo. Deixo sair um pouco, pra respirar pro mundo, pra dividir com quem lê. É só um pedaço, mas já dá o tom do que vem. Ainda sem nome. Desculpe. Não posso mostrar muito, tão antes do fim…

“Sentia arder o que não sabia ser. O que ainda não era, porque estava desconectado do resto. Eram fragmentos de ser colados por músculos, tão frágil que era, mas não se dissolvia em pedaços porque a casca era dura. Apesar da delicadeza da pele.

Aproximaram-se a uma distância ambígua, no limite de múltiplos significados. Conspiravam. A pele feita casca, não se sabe o por que, derretia, suava, assim como também exalavam outros humores. Uma quentitude nada estranha tomando corpo, tomando espaço, alterando o estado de consciência. A mente, que julgavam clara, mergulhou no torpor do desejo – e não havia nada, nenhuma substância, um licor que fosse, que viesse do externo. Era uma embriaguez gerada pelo próprio sangue, como proteção de um momento sagrado que não poderia se perder na corrente dos preconceitos. Era quase tóxico. O torpor chegara ao limite da perda de consciência, e as mentes saltaram o espaço-tempo e fugiram, juntas, para o interior da floresta.

Ali, não eram eus. Não eram época, nem endereço. Eram mulher e homem, dois seres que se buscavam e completavam, como se tivessem subido pela escada da queda, retornado ao paraíso perdido e suspendido, por um segundo, a dor de quem caiu e procura o caminho pra casa. Suspenderam todo o abandono de si e, ainda que durasse pouco, abriram de vez a casca protetora.

E ele atirou-se até ela simplesmente como água que rompe a represa, inundando a floresta de água fervente. Ela sentiu o corpo abrir-se sem ressalvas, sentiu o calor do peso atiçando fogueira, queimando o passado, queimando a culpa, queimando o abandono, reconectando cada célula com a outra, reconstruindo o campo sagrado feito corpo de mulher que era pura onda de energia latejante. Já estavam além do desejo – subiram pelo prazer sagrado sem saber o que faziam, foram juntos para outro tempo.

Ao fim de tudo, no silencio do retorno, resistiram à tentativa de explicar o acontecido, de esticar o momento na linha do tempo cotidiana. Perceberam que aquilo não pertencia à frequência dos dias. O estado de embriaguez ainda os acompanhava, agora mais sutil, mas lembrando à mente confusa que eram muito mais do que julgavam ser. Devagar e sem pressa, retornaram à sua época, aos seus nomes, às suas máscaras, mas agora um pouco deslocados de tudo, como quem muda de lugar no mapa da eternidade. Olharam-se como além de amantes, como partes do mesmo ser que se entendem separados apenas por uma suave ilusão.”

(…)

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