carta-prólogo de mim para mim

ainda pra peça.

Querida(o) amiga(o),

Há muito tempo aprendi que não tem como se transmitir registros ou sentimentos. Isso acontece por ressonância, e só o que podemos fazer é vibrar. Então te mando essa mensagem, esperando que ela reverbere no seu vazio. Talvez ainda haja uma partícula de alguma coisa que possa conduzir o dentro de mim para dentro de aí, de você, que também sou eu. Ou serei, ou fui. Sei lá.

Não vou ocupar tanto seu tempo, eu sei que vc tá ocupado. Eu sei que tem trabalho da faculdade, eu sei que também tem trabalho fora, estágio, eu sei que carta tá fora de moda e minha letra é horrível, mas eu não sei escrever em arial. Eu sei que você diz que não tem mais tempo de inventar outros mundos, porque nesse já tem muito trabalho. Eu sei.
Mas outro dia eu te peguei sonhando, lembra aquele dia que você quase perdeu a hora trocando de roupa no quarto? Naquele dia você abriu uma fresta no tempo e eu te raptei, e você nem viu, porque achou que só tinha passado um segundo olhando praquele brinquedo que você nunca lembra de tirar da estante. Você não entendeu como foi que a hora passou tão rápido, porque não lembra da volta que deu comigo. Não lembra da volta que fez naquele tempo sem horas. Sem números. Naquele tempo de sempre presente.
Eu sei que pode parecer confuso, mas no começo é assim mesmo. É que a gente deu vinte e um giros no tempo da experiência. Naquele momento em que ninguém tinha que fazer nada, e a vida passava pela pele como se fosse gelatina. Lembra daquele tempo permeável? Em que nada parecia melhor do que hoje parece idiota. Ou antigo. Aquelas experiências de verdade que entram pelos poros e marcam a pele por dentro, que nem tatuagem, formando o mapa de quem a gente foi. Ou será. Ou ainda é.
Por isso, eu evoco seu tempo de agora pra te dar um presente. Virar sua pele do avesso e mostrar o que fica de dentro pra fora. Mostrar as marcas do que ficou, dos momentos em que você realmente viveu. Porque sentiu. Porque não tinha que fazer. Porque não tinha que nada. Porque só se deixou ir.
Que nem aquele dia em que você fez o pedido praquela estrela que pisca só durante um segundo no exato segundo antes de nascer o sol. Lembra que você ficou esperando, tão cheio de desejos e expectativa? Lembra da duração de cada um daqueles segundos? Lembra do que passou? Do que passa? Lembra?

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