Ensaios R&J – Terceiro encontro

Conforme combinamos na reunião anterior, iríamos nos encontrar numa escola de educação infantil na Rua Humaitá, espaço que o grupo de pesquisa do Garbel ocupa há  quatro anos. Marcamos na quinta à na quinta à noite, único dia possível a todos.

Essa foi mais uma semana de muito calor em SP. Por alguma razão desconhecida, meu joelho esquerdo passou a doer muito, e apesar de ter provavelmente forçado no treino de Kung Fu (que pratico), imaginei que alguns fatores emocionais também teriam sua parcela de responsabilidade. Nosso ofício de construir sonhos está sempre rodeado pela densidade do real, e todos nós temos sempre que lidar com a fricção entre a paixão pelo teatro e o descaso público. Todos trabalhamos muito, saímos de um canto a outro da cidade, de uma aula a um ensaio, e essa é rotina constante dos trabalhadores da cultura, termo atual que define o ofício. E se bem estamos guiados por nossa vocação e propósito, também aprendemos a surfar nessa instabilidade.

Todo esse prólogo vem trazer um contexto para o ensaio dessa noite. Eu saía de nove horas dando aula em direção ao centro, mancando, cansada e feliz, a caminho da escola. Na mochila, levava o tesouro da semana: os livros e o texto final. E alguma idéia de como trabalhar com os atores.

Chegando na escola, Garbel me esperava na porta. Ali mesmo deu a notícia: estava também com o joelho zoado. Por um segundo achei que era uma piada cósmica aquela sincronicidade (depois descobri que a piada era de Saturno), e aquilo me deu alguma presença de espírito. Obviamente, ele não poderia passar por um trabalho físico intenso, o que dificultava a cena de Mercuccio e Romeu, cujo movimento é evidente. Logo depois, chegaram Dani e Cris, também recém-chegados de um longo dia de muitas atividades. Nos saudamos entre sorrisos sinceros, reconhecendo, em cada um, o quase absurdo do desejo que nos movia além do cansaço.

Ao entrarmos na escola, um espaço grande e acolhedor se revelou. Estávamos cercados de pequenas mesinhas coloridas e pelo menos cinco ventiladores ligados. sentamos no chão de cimento para iniciar o ritual, e Garbel comunicou a eles seu problema do joelho. Como, frente ao fato, minha idéia de começar com um aquecimento coletivo não seria a melhor, passamos uma vez o texto recém-chegado, para ir entrando no clima. Ficamos felizes com o resultado. Como não havia ainda trabalhado a cena do balcão, pedi para que eles a lessem na versão de Onestaldo. E assim redefinimos o recorte: cortaremos a cena de Romeu e Mercuccio anterior ao baile. começaremos com o baile em si, seguido da breve cena em que Romeu resolve retornar à casa dos Capuletto (e o protesto de Mercuccio, que pode ter uma ação mais baseada na palavra) e depois parte da cena do balcão.

Voltamos ao texto do baile, primeira troca de palavras entre Romeu e Julieta. Entendido o movimento interno do soneto, a ação de cada palavra, pedi para que eles fossem para a cena. Cris trouxe seu acordeon, e pedi para que ele entrasse tocando, configurando a festa, enquanto observava Julieta dançando. Foi muito interessante ver a partitura criada pela Dani, que já trouxe movimentos alternados de expansão e contração, típicos de Julieta. Assim, ainda com o texto em mãos, passaram uma vez a cena. Em seguida, pedi para que deixassem o texto e improvisassem livremente, tendo o mesmo ponto de partida, mas sem necessidade de se ater somente à cena do baile.

É sempre impressionante o que acontece nesses momentos de evocação. Minha única sugestão foi pedir para que eles sentissem a atração, como se fossem pólos opostos de ímas, e o que acontecia ao se aproximar ou afastar. Daí teve início a partitura. Deixei que ficassem um tempo, nisso, e foi quando eu resolvi colocar uma música.

Bom, esse foi um capítulo à parte. Não dá pra esperar muito de coisinhas de plástico feitas sob trabalho escravo do outro lado do planeta. era pra tocar algumas músicas da trilha de Amelie Poulain, cuja delicadeza combinava com o momento do encontro, mas para minha surpresa, ela resolveu tocar a seleção que eu havia separado para Mercuccio:  Queen e David Bowie. E a música entrou no susto, sem qualquer sutileza. Como ninguém esperava, deu uma qualidade louca à cena: Os dois aterraram. Saíram do idílio romântico e foram pro corpo, pro sensual, pro lugar onde deveriam estar. E eu percebi o grande perigo da cena, o risco da morte iminente. Percebi o desperdício de ficar somente no amor pueril, lugar bem comum de se cair, especialmente na cena do balcão. nesse momento, eles grudaram, e daí veio o resto da peça transbordando em seus corpos: veio também a tragédia. Veio a dor. A separação e o resgate. Em determinado instante, eram eles complementos, um corpo encaixado no outro como yin/yang. Eram pleno movimento na completude. E a caixinha made in China ainda fazia seu show: parava a música no meio, mudava de faixa, parava de novo, era um espetáculo de brutalidade. Acabei deixando rolar esse caos um pouco, porque criava um ambiente meio hostil, meio instável, porque nunca dava pra saber quando a música ia pular, ou parar, ou mudar. A energia os levou, tal como a máquina da peça, à morte compartilhada. E eles ficaram parados por um bom tempo, e nós olhando, e eu sem saber se eles esperavam que eu desse o corte, mas sentindo que a cena ainda acontecia. Deixei que eles decidissem, pelo desgaste do momento. E assim foi. Ficaram ainda alguns minutos ali, vivendo aquela morte em silêncio. Até que ficou claro o momento em que não eram mais Romeu e Julieta, mas Cris e Dani.

Depois, conversando, falamos de algumas coisas, em especial desse fim. Entendi que a cena do balcão, apesar de ser o momento do êxtase, já carrega, em potência, a história até seu fim. é o ápice do amor, mas justo por isso, já carrega a dor. E é essa dualidade que aterra a cena, que os torna gente de carne e osso, e não seres alados em diálogo etéreo. Porque por mais linda que seja, a poesia tem que ser permeável a cortes, e dela poder escorrer sangue.

Enfim, marcamos o próximo ensaio, entre os mil compromissos de cada um, nessa grande cidade. Garbel me acompanhou até o ponto de ônibus, uma pequena subida da Rua Humaitá em direção à Brigadeiro. E nesse caminho, por um instante me descolei de mim e vi dois amigos de joelho zoado mancando, cada um de um lado, ladeira acima, e falando do poder do bardo. Era realmente patético. E no espaço entre a sujeira do centro e o céu estrelado, nos despedimos.

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