Ensaios R&J – Entreato: As traduções

Até esse último ensaio, tinha conseguido reunir algumas das traduções oficiais: a de Beatriz Viegas-Faria, de Carlos de Almeida Cunha Medeiros, a de Bárbara Heliodora, e a de  Oliveira Ribeiro Neto, além da que estava disponível na web, no site de obras de dominío público, cuja tradução não foi creditada. Também tinha em mãos a versão que Christine Rohrig fez para Marcelo Lazzaratto (que gentilmente me enviou, a título de pesquisa) e ainda esperava chegar pelo correio a tradução em verso de Onestaldo de Pennafort, que encomendei de um sebo. Essa última foi a versão utilizada como base pelo Grupo Galpão, e despertou também meu interesse. Resolvi que não ia começar a trabalhar antes de ter todas essas traduções comigo, para que eu pudesse realmente fazer uma escolha, dada a natureza da pesquisa.

Além disso, tinha comigo a edição de Romeu e Julieta na língua original, na coleção “The Arden Shakespeare” que, além do texto, traz diversos comentários sobre a época, a obra, o sentido de algumas palavras e trocadilhos. Essa edição também contextualiza a peça, comparando os diversos “quartos” (como eram chamadas as transcrições das peças vendidas na época do bardo), e esclarecendo sobre o que os historiadores consideram a versão mais fiel à montagem originalmente encenada. Também cita as diversas fontes da história de Romeu e Julieta, história já popular antes que Shakespeare a eternizasse, inclusive com suspeitas de ter se baseado em fatos reais. O livro cita especialmente a versão do italiano Luigi da Porto, de 1530 (Romeu e Julieta de Shakespeare tem data estimada para 1596), cujo enredo já carregava todos os fatos, e vários personagens – além do casal, também o Frei, Mercuccio, Páris, e obviamente, o mote da briga das famílias inimigas e o duplo suicídio. Segundo o Arden, as contribuições de Shakespeare à história são – à parte de seu incontestável valor poético – alguns ajustes para que as cenas tenham simetria, ressaltando a tensão entre os opostos, entre outros “detalhes” que fizeram da história revelasse outros aspectos além do seu enredo.

Finalmente, depois de duas tentativas fracassadas de entrega, chega em minhas mãos o último livro, na sua segunda edição. O que o sebo descrevera como “levemente deteriorado” era, para mim, uma viagem no tempo. Páginas amareladas, palavras em verso, e um prefácio lindíssimo do tradutor-poeta. Destaco aqui algumas partes:

“(…) figurou a cogitação de se tornar possível no Brasil, mercê de traduções fiéis, a representação das grandes peças do teatro universal.

Para tal fim e por intermédio de sua Comissão do Teatro Nacional, promoveu inicialmente o Ministério, em fins de 1936, um inquérito entre escritores, artistas e intelectuais, com o propósito de apurar quais as vinte peças, de todos os tempos e de todos os idiomas que, aos quesitos de serem obras primas incontestes e de terem sentido universal e humano, juntassem ao mesmo tempo o de serem capazes de despertar o interesse do grande público.

Dentre as peças mais votadas, salientou-se, como era natural, Romeu e Julieta, a mais popular, a mais compreensível e todas as latitudes, na qual extravasa a mais simples, a mais popular e compreensível das paixões humanas, o amor, o amor espontâneo, impulsivo, avassalador, exclusivista, que vence todas as contingências, que triunfa da vida e das convenções sociais, que nasce de um olhar e não morre nunca, porque, segundo a Bíblia, é mais forte do que a morte.”

Sobre a escolha da tradução em verso, ele ressalta:

“(…) era forçoso que observasse a mesma forma do original, ou seja, a forma alternada entre prosa e verso, na qual se acham vasadas todas as peças de Shakespeare.

Essa condição, parecendo à primeira vista secundária ou considerada dogmaticamente impraticável,  – tal o interesse com que os tradutores em prosa, de Shakespeare e outros autores do gênero, servindo-se de argumentos especiosos, se empenham a estabelecer a priori que toda tradução em verso será necessariamente infiel – é, ao contrário, fundamental.

Negá-lo seria negar preliminarmente um truísmo, isto é, que “a poesia e a prosa constituem não somente os dois mecanismos da expressão verbal, mas duas tendências rivais do espírito humano, os dois modos de conhecimento que as criaram”.

E ainda:

O motivo circunstancial da presente tradução foi, conforme já dissemos, uma incumbência do Ministério da Educação. Mas suas razões profundas de nossa parte foram, por um lado, uma natural predileção pelos poemas de amor – que outra cousa não é essa peça – e, por outro, um encantamento estético jamais arrefecido, e desde os longínquos tempos do deambular notâmbulo da mocidade, pelo crepúsculo matutino, hora entre todas misteriosa e cheia de uma inefável poesia, hora de Julieta, hora de Romeu e Julieta.

Cada obra de arte e, em especial, cada obra literária, tem seu estado de espírito particular, o seu clima próprio, a que correspondem determinados aspectos da natureza e a estes determinada hora. E assim como Macbeth, com seus três temas do sono, do sangue e do crime, é a tragédia da noite profunda, Romeu e Julieta é a tragédia da antemanhã, dos primeiros albores do dia, dos primeiros “rubores de luz”, desse instante indeciso e sutil em que já não é noite e ainda não é dia”.

Lia esse livro no ônibus, a caminho do trabalho. Ao ler esse último trecho, em especial, tive que parar. Comecei a chorar, besta que sou, arrebatada pelas imagens sugeridas, que já confirmavam minha intuição sobre do que a peça fala, afinal: de algo sublime demais para a densidade do mundo, como o orvalho da manhã, que frente a uma maior brutalidade do sol, evapora. Porém, existe por um tempo, deixando em cada um a experiência do sutil, terreno do amor.

Podemos ler a história como um amor interrompido por uma tragédia, mas também podemos percebê-la como a força imprevisível do amor que, apesar de todas as situações adversas, consegue encontrar um berço para florescer, ainda que por um tempo. Ao ler essas palavras de Onestaldo, percebi tudo como um grande poema do alvorecer possível, como um prenúncio do amor incondicional que podemos manifestar mas que ainda é, por ser novo, inconstante entre os dois mundos. O amor de Romeu e Julieta é o que sentiríamos se conseguíssemos viver constantemente em estado de graça, e eles são os arautos desse estado de espírito humano.

Mas voltando à tradução: a partir desse momento, já decidido por uma tradução em verso, mergulhei nas infinitas possibilidades da palavra. Depois de escolher o recorte das cenas, resolvi que iria ler em todas as opções. Logo fui descartando algumas pelos seguintes critérios: rebuscamento excessivo, tradução às vezes literal sem se ater à musicalidade do texto, entre outros. Ao fim, fiquei principalmente com a de Onestaldo de Pennafort e a de Christine Rohrig, com algumas consultas ainda à de Barbara Heliodora. As primeiras tomaram decisões opostas: a primeira é em verso, a outra em prosa. A de Bárbara é em versos decassílabos. Assim, tomei como procedimento o seguinte padrão: lia o verso no original, percebendo em que momentos havia métrica mais formal, ou rima, e quando isso era quebrado. Percebi o sentido desse ritmo, a quem se dirigia a palavra, o quanto cada opção revelava o íntimo estado das personagens, e o quanto o respeito a essa alternância dá ao texto sentido. Também percebi, apesar do meu inglês básico, que a fala poética do autor não é, por isso, rebuscada. Há uma simplicidade juvenil nas palavras, e a poesia está mais nos trocadilhos e nas imagens sugeridas que por malabarismos da língua, que tanto torturam os atores e os espectadores.

Entendendo isso, fazia o seguinte: lia o original e entendia o ritmo, a música – não apenas a métrica, mas o lugar desde onde os personagens falam – e tentava antes, com minhas palavras, esboçar o que seria minha tradução daquilo. Depois comparava às escolhidas, agradecendo cada caminho arduamente já percorrido, e todas as pérolas colhidas. A de Christine, sendo em prosa, não usei tanto no texto final, mas sua clareza e simplicidade ajudaram a trazer do texto o que ele realmente queria dizer, sem distrações de estilo. A de Onestaldo chega a momentos sublimes, e essa carpintaria verbal foi muito inspiradora para que eu me arriscasse, também, em versos próprios. Assim, o resultado final é uma grande mistura de tais referências, onde também tive o deleite de poder navegar em palavras e, com isso, entendesse profundamente o sentido de cada uma delas no texto.

Somando tudo, foram seis dias de trabalho para apenas quinze páginas de cena. Mas esse ritual de passagem foi, sem dúvidas, a iniciação que eu precisava para ir para a cena com mais confiança de estar realmente entendendo alguma coisa daquele universo. Claro, estou longe de achar que está tudo apreendido, mas trabalhar tão intimamente não apenas com o texto, mas com tantas possibilidades que ele transpira, liberou diversas imagens que poderão ser levadas aos ensaios. E sendo a pesquisa justo sobre o que se dispara na cena a partir da poesia em movimento, era essencial que cada palavra fosse conscientemente eleita, e não apenas colhida ao acaso.

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