café no castelo

hoje, no café da manhã, só eu + Gabriel. ele esperava o lanche brincando com um macaco de corda metido dentro de um peixe de plástico, fazendo barulho de mar e dizendo que aquilo era barco.

claro que quando o sanduíche chegou, cortado em duas metades, também virou brinquedo. e então ele pegou cada uma das metades e colocou de pé, na lateral. logo vi muralhas de um castelo medieval, ou rochedos no mar. fiquei intrigada imaginando o que poderia ser aquilo dentro do mundo dele. perguntei, querendo participar: o que é isso, filho?

a resposta foi curta e simples: pão.

ensaios R&J: Primeiro Encontro

Uma das coisas mais deliciosas que já li foi o diário de montagem de Romeu e Julieta do Grupo Galpão (que, aliás, vai remontar!), feito pelo dramaturgista Cacá Brandão. Além das informações, o texto tem o sabor dos ensaios, compartilha agonias, descobertas. Movida pela inspiração, resolvi tentar o mesmo, num breve relato de nossos breves encontros.

Nosso primeiro dia (que foi à noite) já começa contagiado pelo amor de todos pela peça, servida acompanhada de jantar e vinho, e sorrimos ao som de promessas. Garbel (Marco Antônio Garbellini) já vem de um longo caminho de pesquisa na teatralidade da poesia, tendo trilhado Drummond, Manoel de Barros, Guimarães e outros gigantes. Daniela (Evelise) e Cris (Cristiano Meirelles) recém-chegam de um logo processo no Grupo Bartolomeu, onde vivenciaram o amor de Orfeu e Eurídice. Cris é ator, músico e dançarino, Dani é atriz e recentemente aventura-se no universo das contações de histórias. Todos nós, há um tempo e cada um a seu modo, pesquisadores do transe, do trânsito entre o ordinário e o sagrado. Em suma, não começamos do zero, mas percebemos que zerar é necessário.

Apresentei a eles o recorte da pesquisa, as perguntas: Como preencher a palavra? Por que a poesia? Onde nos levam as palavras?

Dividi com eles os textos de referência apresentados pela Tatiana (Motta Lima). Falamos de música, de delírios, de escolas de samba, do momento pulsante e denso em que estamos, do sol e das tempestades.

Do texto e das traduções – tema essencial e ainda não resolvido.

Marcamos o primeiro ensaio para a semana seguinte. Seguindo orientação, vamos brincar com a musicalidade do texto. Se as chaves para a compreensão dos personagens estão na própria palavra (como dizem diversos teóricos), no pulso das falas, na batida do coração, então vamos a esse lugar fazer perguntas.

Entre o apimentado do curry e o doce das tâmaras feito por Garbel, com sabor de reencontro de (já) velhos amigos, com a delícia de saber que vamos mergulhar em algo querido, começamos. Sim, é o sabor certo. Porque, apesar de ser uma tragédia, ao final, junto às lágrimas do desencontro, não fica também um doce de possibilidade?

dependência

greve dos transportadores de combustíveis

até então ignorava a categoria (me admirei)

postos sem combustível

até então nem pensava em ficar sem (me admirei)

achei um posto ainda vivo (aliviei)

com fila de quase uma hora (admirei)

40 minutos de espera (resignei)

ao pagar, esqueci a carteira (espantei)

descubro que tinha um cheque (aliviei)

o posto não aceitava cheque (…)

o gerente aceitou o meu cheque (aliviei)

pude então buscar meu filho na escola

que é quase no meio do mato

onde eu não chegaria sem carro, sem gasolina ou cartão.

percebi a dependência (assustei)

mas lá, voando no mato,

vi uma borboleta azul.

movida a vento e farfalhar

sem tanque ou máquina de crédito

de verdade, então, respirei.

de carro, sem cartão, de tanque cheio, voltei.

misplica sucesso?

um grande amigo que há tempos não vejo me perguntou sobre meus sucessos recentes.

emudeci. que dizer frente a isso?

depois veio: sucesso é conseguir dar o melhor com os recursos que se tem no momento presente e, assim, subir o próximo degrau.

mesmo sabendo que a escada é infinita, e que cada um tem a sua.