Ensaios R&J – Pequeno interlúdio estelar silencioso

Essa foi uma semana atípica de começo de Outono. Não conseguimos nos encontrar, apesar de dois encontros marcados. Como pedi para que o que regesse esse processo fosse o aprendizado, não faria o menor sentido brigar com as circunstâncias, especialmente aquelas fora do nosso alcance. E se nesse ano de 2012 as coisas estão realmente intensas, como creem vários – inclusive eu – achei por bem entender a mensagem, a começar por algo óbvio: o que significa essa mudança de estação?

O útero da Mãe Terra é representado pela caverna do Urso. É o lugar de morrer para renascer. Da nutrição e da proteção. Do mundo subterrâneo e da escuridão, o Feminino Profundo. (…)

Segundo Meadows, o Outono vai se firmando, criando uma tensão. Ao sair do verão, o tempo flutua diariamente as vezes com o morno e como as chuvas do frio do inverno. A natureza faz a passagem da estação do crescimento e da produtividade para a estação da colheita e do ajuste. Onde o urso nos ensina o valor de sonhar, de entrar na introspecção, e como usar isso para a manifestação na realidade física.

O poder do Espírito do Oeste é a Introspecção, a Consolidação. A última colheita, quando para o crescimento e o esquema natural das coisas.
Humanos armazenam frutos dos seus esforços e também examinam a si mesmos para descobrir mudanças necessárias para progredir, quando o tempo de renovação chegar.

Entramos na Caverna do Urso, no lugar de introspecção e de escutar…

(fonte: site do Viavidya)

Além da chegada do Outono, as estrelas revelam o fenômeno de mercúrio retrógrado. Isso quer dizer que podem acontecer:

  • Falhas em equipamentos (computadores, telefones, etc).
    * Algo que possa causar transtornos no dia-a-dia, seja do trabalho ou com trânsito. Canais que podem ser interrompidos.
    * Greves, em especial em setores ligados a transporte ou comunicações.
    * Mensagens chegando incompletas ou com erros.
    * Mudanças de idéia em determinações oficiais.
    * Atrasos no dia a dia.

(fonte: site de Vanessa Tuleski)

Introspecção + problemas de comunicação. E talvez outras coisas, porque nunca vi tanta gente com problemas de saúde variados ao mesmo tempo. Não foi só aquela virosezinha típica de mudança de estação, aquela que serve à indústria farmacêutica. Eram coisas complexas, limpezas profundas, e pelo menos três integrantes de nosso pequeno grupo de cinco (incluindo Tatiana), por razões diversas, pediram tempo.

O que isso tem a ver com a peça?

E dá pra fazer teatro desconectado do seu tempo? Não. Palco não é museu. E de tantas coisas a filtrar entre as tantas notícias cotidianas, fiquei com essas duas, porque são também da época de Shakespeare, em que outonos também existiam, assim como os humores dos astros. Aliás, são eles que regem a peça desde o início, no prólogo-soneto onde conta-se que from forth the fatal loins of these two foes, a pair of star-cross’d lovers take their life.

E o texto é povoado por leituras estelares, intuições vindas dos céus. E mercúrio não é, também, Mercutio? E não é o drama disparado também pelas falhas de comunicação? Historicamente, todos os desentendimentos mútuos entre as famílias, cuja incapacidade de dialogar geraram o enrijecimento, terreno fértil para as tragédias. E depois, no tempo cronológico da peça, a história é repleta de personagens que não se escutam, mensagens extraviadas e a própria tragédia final se dá por um pequeno lapso de tempo (se Romeu esperasse mais um pouco pra tomar aquele veneno…)

Então, nessa semana, sem poder ensaiar, dediquei-me ao estudo da peça. Reli os teóricos já lidos, e foi grande a minha surpresa em descobrir coisas novas. Posso dizer sem medo de errar que essas horas passadas com os livros foram o melhor da semana. Ando cansada de máquinas (especialmente carros e computadores) e desse cotidiano doente e acelerado, então esse estudo me reporta a um tempo mais lento, a uma época em que nem se sabia que era a Terra que girava em torno do sol, e as estrelas eram um pouco mais que pontos reproduzíveis em planetários. Então regredi alguns séculos, ou talvez saltei dimensões – pois se o tempo é só uma forma de enxergar realidades simultâneas e sobrepostas, pode ser que eu também ainda viva, em algum lugar, ao lado das margens do Tâmisa. Lembro do que senti certa vez, estando lá no Globe, mesmo sendo apenas uma réplica: uma identificação estranha, certa alegria familiar e instigante, em plena Londres de 2006 que, para mim, era bem asfixiante.

Se o estudo desse texto é uma fusão entre mundos, o meu de agora e o daquela época, ou até mesmo no tempo em que Romeu e Giulietta eram de carne e osso, na Itália-berço dessa história, pode ser que Mercuccio morto tenha virado do avesso a comunicação daquele tempo quando, parece, era verão. E sendo Verona ou um palco, de alguma forma isso tudo me gera uma profunda identificação. Desde uma fresca memória de infância, em que vi o filme pela primeira vez. Ou talvez antes.

E peço aos céus que nos tragam lucidez e saúde. E que consigamos deixar morrer o que não mais nos pertence, por mais difícil que seja, para nos jogar no fluxo do que é vivo. Por mais que pareça suicídio. Para depois descobrir que suicídio não é buscar a morte, mas não querer nascer.

(talvez isso mude minha leitura do final (trágico?) da peça. assunto pra um outro momento.)

Ensaios R&J – Sexto Encontro

Nessa semana, conseguimos um dia comum para Romeu e Julieta. Resolvemos ensaiar no estúdio de video da ESPM, onde leciono, espaço amplo e quieto, que era exatamente o que precisávamos. Agradeço ao meu amigo Luiz Fernando da Silva Jr, coordenador do Núcleo de Imagem e Som, por essa chance de um mergulho no fundo infinito.

A cidade já pulsava o outono, mas ontem choveu bastante, ou o suficiente para deixar o paulistano ainda mais agitado, além do já normal de uma sexta-feira. Antes de começar o ensaio, almoçamos juntos, compartilhando as percepções sobre a densidade do mundo nesse momento. Realmente, ninguém escapou de uma semaninha enfrentando leões, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas. Pessoalmente, eu mesma me engalfinhei com o Banco Santander, e me perguntei com sinceridade quem precisa de famílias inimigas tendo conta em banco e devendo pra ele. Uma prova de amor incrível não deixar que esse veneno penetre no sentimento, alterando ânimos, motivando cobranças, ativando desesperos. Manipulando o outro, para que me dê o que eu quero.

Há algum tempo tento me livrar da manipulação: a dos outros dirigida a mim, a de mim para os outros. Mesmo que a intenção seja das melhores, mesmo que a causa seja nobre e o resultado valha a pena. Mesmo que.

Tentando não manipular, estou evitando, também, ter muitas concepções prévias da cena. O que tenho feito é me colocar a serviço do ofício: gerar o encontro nas melhores condições possíveis, e ver o que dali brota, nesse momento, com essas pessoas. O que vem a partir do texto. Então se é que posso falar alguma coisa sobre esse processo, é que ele tem o texto como ponto de partida, e quando digo texto não são apenas as palavras escritas. É o espírito da peça. Em suma, estou tentando ouvir bastante antes de concluir alguma coisa. Em algum momento me perguntei se isso era mais insegurança que proposta, mas depois dos últimos ensaios tenho percebido que vale a pena. Apesar da ansiedade, apesar do desamparo que isso dá, apesar do salto no escuro, apesar da pressão do tempo, apesar da pressão do sucesso, apesar de.

Começamos o ensaio com um aquecimento bem rock, pra aterrar mesmo. Pra evocar a intensidade além do poema, pra descer pra carne, pro fogo, pro desejo. Pra esse instante adolescente e intenso, do qual já nos distanciamos um pouquinho. Depois de um tempo, começamos a cena do baile, que hoje ganhou contornos mais nítidos. Cris entrará tocando o acordeon enquanto Dani faz uma dança em espiral, que desde o primeiro dia surgiu e eu sempre achei ótima. Eles se olham por um tempo, até que ela o nota, e Romeu divide esse momento de descoberta triangulando com a platéia.

Romeu – que moça é aquela ali, adiante, que enfeita as mãos daquele cavalheiro?

Ela ensina as tochas a brilhar

e, pendurada na noite sem luar,

é jóia rara em rosto de carvão

é riqueza demais pra um mundo vão

como um lindo cisne entre aves agoureiras

assim paira entre suas companheiras

terminada essa dança, quero ver o seu lugar

e pela pele da sua mão, meu rude toque abençoar.

meu coração já amou? Olhos, desmintam essa certeza!

porque, até essa noite, eu não conhecia a beleza.

Esse texto tendia a ficar bastante declamado, mas aos poucos fomos entendendo juntos que nada dito aqui é pensado previamente, é sempre uma tentativa de definir o indefinível, e nem todas as maravilhas da terra e do céu juntas dariam conta desse absoluto. Pedi para que Cris intercalasse o texto com a música, e isso deu um efeito interessante, porque causava algumas quebras que impedia cair na “musiquinha do poema”, a armadilha sempre à espreita. Também houve uma mudança no tom: Pedi para que ele evocasse a inocência, o sentimento de descoberta de uma criança frente aos seus primeiros espantos. É esse o olhar dele em direção à Julieta, e quando o direciona a nós, espectadores, podemos compartilhar desse desnudamento. Não que Romeu fosse infantil, ou inocente, mas nesse instante é como se nascesse de novo. A instabilidade causada pela visão o leva a um desnudamento e, ao perceber-se correspondido, a alegria do encontro é impossível de conter. E recordamos aquela imagem já trazida pelo Cris, a de um Romeu molhado – e, segundo ele, como se fosse recém-saído do barro. E comecei a imaginar um pássaro, ou partes dele, pelo menos em asas, numa roupa branca manchada de terra. E Julieta em vestido à la Pina Bausch (e olha que nem vi o filme de Win Wenders ainda), branco e com bordas vermelhas, colado em cima e rodado em baixo. E vi também os dois com máscaras, como o yin/yang (como se cada um vestisse uma metade)

Devaneios, devaneios, devaneios vindos daquela dança cantada musicada interpretada intercalada meio alada meio terra meio carne meio espírito

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Dessa forma, seja pelo seu texto seja pela música escolhida – um tipo de tango – a cena se inicia, carregando a atmosfera de uma doce sensualidade misturada ao frisson da descoberta. Dani lembrou-se do vocalize do ensaio anterior, e novamente o evocamos, e ele virou a ponte entre a música tocada e o texto. Assim, intercalando os três – música, canto e texto – podemos instaurar rapidamente a atmosfera pedida pela peça, ainda que, no nosso caso, trabalhemos apenas um fragmento. Esse começo ajuda a suprir a lacuna do recorte e dá o pedal para que, ao chegar no primeiro diálogo entre eles, alguma coisa de fato já tenha acontecido.

E se temos na música e no canto o vigor de um Romeu atordoado, inebriado pelo encanto, temos também a dança de Julieta, com os movimentos trazidos pela escuta de Daniela, trazendo o vigor potencial da personagem, como uma força da natureza em espiral. É claro que não seria essa a dança a se ver em um baile, mas essa camada já temos pelo saber da história, pela narração de Romeu. A coreografia não se preocupa, então, com o realismo, mas também com o desvelar-se. A música de Romeu toca o corpo de Julieta, que, a partir daí, dança os sentidos descobertos, dança a carne exposta do sentimento aflorado.

Ficamos um tempo nesse preâmbulo, até ir para o diálogo entre eles. Numa primeira passagem, foi tudo muito lento, e eu já havia sentido isso no ensaio anterior. De fato, eu havia pedido para que eles dilatassem o tempo, caso quisessem, mas vendo de fora era como se a cena estivesse, literalmente, em câmera lenta. Pedi para que repetissem, dessa vez embalados por um jogo de pega-pega, e a qualidade se transformou completamente. Ainda fizemos alguns ajustes de compreensão em cada verso, e várias opções interessantes surgiram nas diversas vezes que repetimos. É incrível como são infinitas as possibilidades e, a cada escolha, o texto muda completamente. Ao final, acho que conseguimos chegar ao objetivo de trazer o texto aos corpos, e o beijo já estava mais pra dois apaixonados em delírio do que para dois seres alados. O jogo conseguiu se estabelecer, e as palavras se tornaram motores para que esse momento acontecesse. Ufa.

Mas então foi o tempo do ensaio que voou, e só nos restava mais meia hora, e toda a cena do balcão ainda por ensaiar. Senti uma pontada de desespero, pensando no tempo que ficamos numa cena bem menor, e cheguei a pensar em cortar essa cena da nossa apresentação. Depois lembrei que o objetivo era a pesquisa, e não fazia o menor sentido não se dar ao deleite de um outro mergulho em mais e mais palavras. E como o texto ainda não estava decorado, nós apenas o lemos juntos, buscando novas compreensões de cada momento. Para finalizar, assistimos aos trechos correspondentes do filme Romeu e Julieta (versão Baz Luhrmann, nas interpretações de Leonardo di Caprio e Claire Danes). Sempre gostei das escolhas do diretor, de como eles falam de forma terrena, fazendo com que a poesia encarne. É claro que por se tratar de um filme há algumas diferenças conceituais de linguagem, mas justamente por isso percebemos a beleza da simplicidade, do que pode ser dito entre sussurros, entre suspiros, entre sorrisos, na água e nos corpos. Eu tinha um certo receio de apresentar a eles um resultado pronto, mas acho que foi bom para vermos juntos lugares que podemos explorar. Resisti à tentação de cortar trechos difíceis do texto – como fizeram no filme – reafirmando minha fidelidade ao autor e à proposta de entender o sentido de cada um daqueles versos. E como já havíamos passado uma hora do tempo máximo possível, terminamos ali.

E assim os leões da semana converteram-se em tigres e dragões…

Ensaios R&J – Quinto encontro

O nosso quinto encontro divide-se em duas partes: o ensaio propriamente dito e a apresentação da cena a Tatiana Motta Lima, minha orientadora.

Marcamos no Célia Helena às 13:30 (Garbel+eu), às 14:00 (Cris e Dani) e Tatiana chegaria às 15:30. Retomamos o ensaio do Mercuccio, começando por um aquecimento. Ele estava preocupado com o texto, que ainda não estava totalmente memorizado – realmente, isso é uma questão que drena bastante energia do ator, e ele em especial, PHD na arte da auto-cobrança. Já no aquecimento, percebi o peso desnecessário que Garbel carregava consigo, o que dificultaria chegar na energia de Mercuccio, e percebi que eu também carregava esse peso. Não é todo dia que a gente está pleno, afinal. Recém-chegada de alguns probleminhas cotidianos, percebi a muralha me separando do ensaio, e que seria injusto cobrar do ator um salto que eu mesma não estava fazendo. Num impulso, me joguei na cena, levando essa matéria ao fogo da transmutação. Na falta de um interlocutor (que estava mesmo fazendo falta), arrisquei ser Romeu, e isso foi bom pra todo mundo. Fizemos um aquecimento na base do kung fu, pedi para que Mercuccio provocasse Romeu, e aquela brincadeira foi tingindo a cena da energia adequada. Como eu já pratico há um ano, e Garbel praticou por dois, algo mais ou menos (bem mais ou menos) parecido com uma luta apareceu, e a falta de jeito que estava mais para Trapalhões que pra Bruce Lee nos levou ao terreno maravilhoso do ridículo. Assim, entre risadas, o personagem chegou. E assim passamos a cena, ainda limpando excessos. Mas sinto que ainda me faltam palavras precisas para alguns diagnósticos, ou para sugerir ações claras. Fica clara a inexperiência nessas horas, em que me sinto como espectadora, percebo os pontos altos e baixos, mas ainda me falta clareza para saber exatamente o que falar em alguns momentos.

Terminado o ensaio, esperamos um pouco para ver se Cris e Dani chegariam. Eles passaram a noite em um trabalho espiritual, e imaginei que isso seria motivo de algumas surpresas. Às 15:30 em ponto, Tatiana chegou (começo a duvidar que ela seja carioca), e começamos a conversar sobre os encaminhamentos – teríamos apenas 2 horas para tudo. Bem, bem pouco tempo, como sempre, nos empurrando ao essencial.

Comecei mostrando algumas opções nas traduções. Logo em seguida, chegou o casal. Fomos para a sala de ensaio, e resolvemos ir direto para a cena, já que esse era o principal motivo da presença de Tatiana. Começaram a se aquecer, e pedi para que quando estivessem prontos, Cris iniciasse a cena do baile tocando o acordeon.

Quando o improviso começou, a qualidade foi muito interessante. Os dois estavam ainda bastante sensíveis pelo trabalho na madrugada, e não precisou de muito para que uma atmosfera mágica se instaurasse. Digo mágica mesmo, não é um adjetivo que pudesse ser substituído por “linda”, ou algo assim, eles chegaram rapidamente no estado que abre brecha a múltiplas possibilidades do ser. Cris, em um dado momento, somou à melodia do acordeon um canto, uma espécie de vocalize bastante interessante, como um chamado. Dani às vezes o acompanhava, fazendo desse encontro vocal um prenúncio do que viria depois. tE alguns momentos, ela parecia ter sido tocada fisicamente pela música, quase como se os corpos já estivessem ali, juntos.

O improviso foi chegando a um lugar bastante estático. Apesar de ter força, foi se tornando muito etéreo, e eu precisava de um pouco mais de chão na cena. Pedi para que fizessem um novo jogo, uma brincadeira de criança em que, colados costas a costas, Romeu deveria tentar ver o rosto de Julieta, que não poderia deixar. Assim o movimento voltou à cena, e pedi para que eles seguissem até que Romeu tocasse sua mão, código para que o texto tivesse início. Como eles ainda não o tinham decorado, deixei o impresso próximo a eles, para que não descolassem do clima tentando lembrar do diálogo.

A seguir dessa cena, Garbel entrou com Mercuccio. Era a primeira vez que ele fazia a cena assim, intercalada, mas ela saiu com a qualidade que conseguimos chegar nos dois ensaios. Logo depois, pedi para que Romeu e Julieta voltassem, e os atores seguiram no improviso sem texto da cena do balcão. Um pouco depois percebi que a cena tornaria a ficar etérea, então preferi que seguissem a partir dali com o texto em mãos, para que ele se ancorasse nas palavras. E, com um em cada ponta da sala, a cena foi se desenvolvendo, enquanto eles se aproximavam aos poucos. Foi a primeira vez que ouvi o resultado da tradução resultante de tantos cruzamentos, e fiquei feliz com o que vi. Nada me pareceu estranho, ou empoeirado, mas ainda era poético.

Terminado a cena, sentamos para conversar. Não me lembro que horas eram, mas lembro que não tínhamos muito tempo. Tatiana tinha algumas páginas de anotações e parecia satisfeita com o que viu. Aliás, estávamos todos muito felizes. Não conseguíamos parar de falar, tentando dar conta da experiência – assim como Romeu, que busca tantas e tantas palavras para definir Julieta – e do encantamento que o texto dispara, todas as suas múltiplas dimensões e contornos. A dramaturgia-feitiço do Bardo. Burilar Shakespeare é acionar engrenagens antigas, disparar uma máquina que anda por si só. Ensaiar a peça é entender a rotação exata desses giros todos, e se deixar levar.

E assim como no tempo da história, o nosso também era muito curto e urgente. Na síntese do que conversamos, passeamos pelas diferentes possibilidades de interlocutor para o texto – Tatiana sugeriu desde o princípio que incluíssemos a platéia, fosse triangulando mesmo, fosse se “deixando ver”, como um compartilhar público de sentimentos que, de tão intensos, não conseguem se restringir ao âmbito privado. Ela se lembrou, então, de beijos adolescentes em pontos de ônibus, contaminando quem passa daquela libido incontrolável, cujo espetáculo não é feito para o transeunte, mas também não consegue se esconder, por não se conter em pouco. Falou também de um trio que certa vez vira numa pista de dança, três moços em êxtase de amor compartilhado, e como achavam lindo não apenas o que acontecia entre eles, mas todo o mundo ao redor. E entre essas evocações, uma atmosfera de entusiasmo foi se construindo entre nós. Tatiana sentiu falta de uma pulsão também sexual na cena (talvez o que eu estivesse chamando de “chão” fosse “corpo”), o que concordei prontamente. E citou, como não poderia faltar, Grotowsky, falando de sua prece carnal, da indivisibilidade entre o erótico, o amoroso e o sagrado. E falamos do alimento que é beber nessa fonte, e do que gostaríamos que acontecesse na cena, do amor como grande pó alquímico que tinge de ouro e beleza tudo o que toca. É incrível como a cada novo passo em direção a essa obra, fica mais evidente o seu fluxo transmutador, espelho da própria alquimia propiciada pelo amor. Um amor além do romântico, do “amor” banalizado, do amor de Romeu por Rosalina. A palavra é a mesma, mas descreve estados bastante diferenciados, e é esse outro estado que Romeu e Julieta atingem, esse êxtase físico e espiritual, capaz de dar asas e saltar sobre o impossível, e impossível de se conter apenas em dois, e ao qual também chamamos amor. É pleno, é gigante, é arquetípico, mas também é pessoal, encarnado em duas almas que se buscam e se atraem e se querem e se necessitam, e quando juntas, se magnetizam e transbordam sobre que testemunha um pouco de sua plenitude um pouco dessa libido direcionada aos céus, um pouco dessa inspiração de dessa graça por estar vivo.

Aqui, uma pequena digressão. Sempre desconfiei que a cena do balcão era a vivência desse êxtase não apenas pelos personagens, mas através deles, pela platéia. É por essa capacidade de ressonância que vivemos essa parcela um pouco maior do infinito. E é o desejo que isso não acabe que nos leva a torcer para que o quase impossível aconteça, para que a mensagem chegue, para que o plano vingue, para que eles despertem juntos, para que o amor continue. Finda a possibilidade, fica o gosto da querência, e daí segue, o insatisfeito espectador, com sua missão de plasmar ele mesmo esse amor no mundo. Porque uma vez experimentado, prova ser possível, e é justo nessa cena que ele, o Amor, desce dos planos superiores e mostra sua face encarnada na nossa existência.

Julieta – Só teu nome, em ti, é meu inimigo.

Não és um Montecchio, mas tu mesmo

Afinal, o que é um Montecchio? Nem um pé,

nem a mão, nem o braço, nem um rosto,

nada do que forma um corpo humano. Toma outro nome!

Um nome, mas o que é um nome?

Se o que chamamos rosa não fosse rosa

não perderia ela seu perfume. Então, Romeu,

se também não se chamasse Romeu,

seria ainda a face do meu encanto.

Romeu! Renuncia o teu nome, que não é parte de ti,

Em troca dele, toma-me a mim, que já sou inteira tua!

Romeu – Aceito! Eu farei o teu desejo

Por ti serei, então, rebatizado.

Não mais serei Romeu, mas sim Amor.

A cena do balcão é, portanto, muito mais que uma declamação entre dois amantes. É um ritual de morte, em que ambos perdem seus nomes, seus contornos, abandonam antigos servos e passam a servir apenas a essa divindade. Nessa cena, instaura-se o templo do deus-Amor, que nada mais é que a face iluminada do próprio Absoluto. Um deus que pode não apenas ser reverenciado, mas também vivenciado – é contemplação pela fusão, pela perda dos contornos.

Julieta – (…) Minha bondade é como o mar: profunda e ilimitada.

Quanto mais eu te der, mais tenho, pois ambos são infinitos.

Através do balcão, abre-se a janela à sublime capacidade humana se escalar o divino. E as palavras feitas poesia não são declamações, mas tentativas de dar palavras ao belo, tentativas de colher em vocabulário restrito toda a abrangência da experiência mística, mas também carnal, daquele momento. É maior que o mar, maior que qualquer astro celeste pode descrever, mas também é o prosaico, o simples, uma troca de palavras entre dois adolescentes que, em contato com tal força, sentem-se acima de qualquer coisa. Também é a imprudência, também é o falso recato, também possui o reino das pequenezas humanas. Não é o amor entre os deuses, mas entre encarnados, com toda sua sombra e confusão, deslumbramento e luz.

Não exatamente com essas palavras, fiquei com a sensação de que todos sentíamos isso da cena. E também concordamos que faltava a ela justamente esse dado mais cotidiano, essa quebra trazida pelas pequenas coisas concretas. Saber, claramente, a ação que cada palavra comunica – ou, como diz Tatiana: “cada palavra está ancorada em o que eu quero do outro, ou uma pergunta, mas sempre uma ação. Vocês tem que pensar que estão sempre fazendo alguma coisa, e não dizendo”. A palavra é meio para se chegar a algo, não tem o fim em si mesma, na pronúncia declamativa. E assim volto ao sentido da pesquisa, buscar as ações em cada verso. O afeto – potencial para afetar – de cada palavra.

Conversamos também sobre um movimento que Shakespeare faz no texto, alternando planos mais elaborados (por exemplo, com versos rimados) com mais prosaicos, em que a fala é mais direta. Tatiana percebeu que esse movimento também já está na cena, e achou interessante essa alternância. Isso me fez pensar em realidades sobrepostas: eles são simultaneamente sacerdote e sacerdotisa do amor, e também Capuletto e Montecchio, e também dois adolescentes que querem se pegar e se beijar até o infinito, e também os desejos concretos da platéia que se projetam nessa vontade. Camadas, camadas, camadas, elaboradamente construídas, e que tentamos decifrar e reproduzir. É essa a partitura escrita pelo bardo, pelo menos na nossa compreensão.

E tudo isso passa pelos aspectos técnicos. “a quem eu me dirijo agora? qual o tom de cada palavra?” O cuidado para que o estado declamativo não se instaure, o cuidado para que o doce clima da poesia não torne o texto uma melodia sem contornos, e já citada ação contida nessas palavras. O colchão de intenções construído atrás do texto. Ficou clara a necessidade de experimentar mais e mais, alternando estados e possibilidades, para que essas camadas se sobreponham também na memória do corpo dos atores. Porque o corpo, e só ele, é a âncora de tudo o que já foi dito até então.

Nesse momento, já havíamos passado mais de meia hora do ensaio, e o grupo seguinte já nos esperava há bastante tempo. E assim como Romeu e Julieta, não conseguíamos nos despedir. Para finalizar, Tatiana comentou rapidamente a cena de Mercuccio, de como sentia que em alguns momentos perdia-se o foco da intenção, e a cena virava “cena”. Entendemos o que ela queria dizer. Em alguns momentos havia muita elaboração de elementos, a fala acabava sendo muito direcionada ao público, e perdíamos o essencial: Mercuccio queria que Romeu voltasse, e toda sua evocação dirige-se essencialmente a ele, ainda que triangule em alguns momentos. Se o foco vai muito para o espectador, o objetivo do personagem se perde.

Só então entendi o que já sentia na cena durante o ensaio, mas não conseguia diagnosticar com precisão. Depois, conversando com Garbel, delimitamos a essência do que deveremos fazer.

Saímos felizes, depois para um café, e depois cada um para os seus mil outros compromissos, ainda que fosse sábado, ainda que fosse noite. E eu fiquei torcendo para conseguir um dia comum de ensaio, para podermos voltar a esse lugar-montanha-russa, locomotiva do êxtase.

Ensaios R&J – Quarto encontro

Entre uma semana e outra muita coisa acontece, e entre essas coisas, a Dani conseguiu um trabalho. Sem Julieta, não faria sentido ter um Romeu, ainda mais um Romeu que sairia de um dia inteiro de compromissos, iria ao nosso encontro e sairia para uma nova reunião às 11 da noite. Se eu insisto nesses detalhes, não é por preciosismo de narração, mas porque é essa a nossa realidade, e é ela que levamos à cena. Para cada hora de arte representada temos, em igual proporção, a mesma energia colocada na arte de conseguir cruzar encontros. E conseguir é sempre uma comoção.

Como resolvemos intercalar a cena do baile e a do balcão com o texto de Mercuccio, mesmo sem Romeu e Julieta havia trabalho a ser feito, e já estava mesmo pensando em ter um dia separado com Garbel. E esse foi o momento.

Então eu saí de mais um dia dando aulas em direção à Rua Humaitá. Ao descer a Av Brigadeiro Luiz Antônio em direção ao ponto de ônibus, tentando desconectar de tudo e me sintonizar com a peça, sentia meu ritmo interno totalmente dissonante com o ritmo da cidade. Pessoas passando apressadas, trombando ombros por mais uma ínfima parcela de espaço ocupado no ar. Eu sentia a hostilidade trazida por um dia de trabalho sem sentido, rumo à jornada sem sentido da volta para o lar apertada no busão. Nada que um paulistano trabalhador não viva todos os dias, mas não é por ser banal que a coisa se torna amena. Então percebi que a cidade de Escalus, a Pólis que nasceria do fim da barbárie dos clãs, que daria fim à violência, logrou gerar infinitos clãs de um só, e cada um por si. A cidade não resolveu, com sua lei, a violência. Porque a lei é o amor artificial, e nada que é artifício muda rumo das paixões humanas. Só uma paixão ainda maior – e é dela que a peça tanto fala.

Ao chegar na escola, um pouco de conforto: Garbel me esperava com um copo de água com hortelã, uma proposta de figurino e algumas músicas. Conversamos um pouco sobre o texto, que nesse caso, foi um pouco mexido em relação à cena original. O trecho é quando, logo depois de sair do baile, Romeu resolve voltar à casa dos Capulettos, deixando para trás Mercuccio e Benvólio. É o momento anterior à cena do balcão. Como não temos Benvólio, cortei algumas partes que soariam estranhas sem a réplica.

A decisão de incluir essa cena, ao invés de justapor o baile e o balcão, é deixar (mesmo com cortes) que o movimento da peça ocorra. O momento do baile é o primeiro encontro, o rapto, o êxtase, em que eles, ainda sem nomes, são dois que se tornam um. Ainda no baile há o choque de realidade – quando descobrem, simetricamente, os nomes um do outro – e Romeu sai da casa, junto a seus companheiros, até que ele resolve retornar a Julieta. Esse breve intervalo entre o baile e o balcão dá um respiro à história dos dois, e traz de volta o mundo exterior. Justapor as duas seria eliminar a descoberta do risco, eliminar a evocação jocosa e rude de Mercuccio, que gera um lindo contraste com o texto do casal de amantes. Por esses motivos, Mercuccio ficou, mesmo com problemas no joelho.

Também, é claro, interessava a pesquisa da palavra dita em diferentes registros, em diferentes momentos. Porque, em Shakespeare, a palavra é sempre elaborada, recebendo os contornos da fala de cada personagem. Começamos, então, pelo entendimento do texto, pelo movimento proposto pelas palavras, pelas nuances. Logo depois, Garbel começou um improviso. Hoje a música funcionou, e pedi para que ele resgatasse a energia juvenil de Mercuccio, seu turbilhão, e assim ele começou. E ao som de David Bowie, relembrei quando estavámos Garbel e eu, há mais de dez anos, quando ficamos amigos, naquela mesma situação – mas na época, ele me apresentava poemas de Drummond num solo que fizera. Na época, eu era fotógrafa e amiga do seu amigo, e iria registrar sua cena para o folder da peça. Lembrei do susto que foi ver a poesia passando por sua voz, de tão crua que ficou, tão presente e aterrada. Lembro que tive uma epifania líquida, chorei sem parar por meia hora, e ao fim da sua apresentação, já éramos amigos. Uma década depois, lá estava ele evocando Mercuccio, e eu senti os anos que passaram escritos no seu corpo, que obviamente não era o mesmo. Essa visão sobreposta me trouxe certa comoção – aliás, tenho sentido muito isso nos ensaios.

Ao final do improviso, dos elementos trazidos ficou uma maçã que, para minha surpresa, foi pisoteada em cena. Ficamos um tempo depurando a proposta, entendendo o que era esse momento de evocação. A dificuldade do fragmento é torná-lo simples, porque como é a única cena de Mercuccio nesse recorte, a tendência é colocar elementos demais, complicar o que, na peça, é um momento rápido, contaminado pela urgência do texto. Qualquer detalhe a mais alonga a cena que deve ter esse ritmo. E meu desafio é trazer esse registro, porque o ator, pelo seu momento de vida, seu fluxo interno e sua pulsão, está mais para Hamlet que para Mercuccio. É sempre um esforço fazer com que a maçã não vire uma caveira. Então percebi que, apesar de ser um improviso, teria que ser dirigido, porque a energia que espontaneamente se apresentava, apesar de ser bastante potente, levava o ator para um lugar mais crítico, mental, reflexivo, tempo esse que não é do personagem.

Apesar disso, o vigor necessário à cena se apresentou, assim como o entendimento das intenções do texto. O próximo ensaio traria novas camadas.

jaca

acho jaca uma palavra que parece jaca. engraçada que nem a fruta, só que menor que ela.

passei no sacolão e cheirei uma, sem coragem pra encarar o combate de desmembrar a bicha. para minha surpresa, ganhei um pouquinho da fruta já domesticada, presente da minha sogra, senhora dona Socorro.

desde então tenho lembrado de Araçoiaba, cidade pernambucana onde uma vez estive.

onde conheci gentes incríveis. e por onde a gente passava fazendo documentário, ganhava uma jaquinha de presente. com o maior carinho. carinho da terra do maracatu, mas isso eu só descobri quando cheguei lá.

vai um teco? tem bastante. e cheiro bom.

Ensaios R&J – Terceiro encontro

Conforme combinamos na reunião anterior, iríamos nos encontrar numa escola de educação infantil na Rua Humaitá, espaço que o grupo de pesquisa do Garbel ocupa há  quatro anos. Marcamos na quinta à na quinta à noite, único dia possível a todos.

Essa foi mais uma semana de muito calor em SP. Por alguma razão desconhecida, meu joelho esquerdo passou a doer muito, e apesar de ter provavelmente forçado no treino de Kung Fu (que pratico), imaginei que alguns fatores emocionais também teriam sua parcela de responsabilidade. Nosso ofício de construir sonhos está sempre rodeado pela densidade do real, e todos nós temos sempre que lidar com a fricção entre a paixão pelo teatro e o descaso público. Todos trabalhamos muito, saímos de um canto a outro da cidade, de uma aula a um ensaio, e essa é rotina constante dos trabalhadores da cultura, termo atual que define o ofício. E se bem estamos guiados por nossa vocação e propósito, também aprendemos a surfar nessa instabilidade.

Todo esse prólogo vem trazer um contexto para o ensaio dessa noite. Eu saía de nove horas dando aula em direção ao centro, mancando, cansada e feliz, a caminho da escola. Na mochila, levava o tesouro da semana: os livros e o texto final. E alguma idéia de como trabalhar com os atores.

Chegando na escola, Garbel me esperava na porta. Ali mesmo deu a notícia: estava também com o joelho zoado. Por um segundo achei que era uma piada cósmica aquela sincronicidade (depois descobri que a piada era de Saturno), e aquilo me deu alguma presença de espírito. Obviamente, ele não poderia passar por um trabalho físico intenso, o que dificultava a cena de Mercuccio e Romeu, cujo movimento é evidente. Logo depois, chegaram Dani e Cris, também recém-chegados de um longo dia de muitas atividades. Nos saudamos entre sorrisos sinceros, reconhecendo, em cada um, o quase absurdo do desejo que nos movia além do cansaço.

Ao entrarmos na escola, um espaço grande e acolhedor se revelou. Estávamos cercados de pequenas mesinhas coloridas e pelo menos cinco ventiladores ligados. sentamos no chão de cimento para iniciar o ritual, e Garbel comunicou a eles seu problema do joelho. Como, frente ao fato, minha idéia de começar com um aquecimento coletivo não seria a melhor, passamos uma vez o texto recém-chegado, para ir entrando no clima. Ficamos felizes com o resultado. Como não havia ainda trabalhado a cena do balcão, pedi para que eles a lessem na versão de Onestaldo. E assim redefinimos o recorte: cortaremos a cena de Romeu e Mercuccio anterior ao baile. começaremos com o baile em si, seguido da breve cena em que Romeu resolve retornar à casa dos Capuletto (e o protesto de Mercuccio, que pode ter uma ação mais baseada na palavra) e depois parte da cena do balcão.

Voltamos ao texto do baile, primeira troca de palavras entre Romeu e Julieta. Entendido o movimento interno do soneto, a ação de cada palavra, pedi para que eles fossem para a cena. Cris trouxe seu acordeon, e pedi para que ele entrasse tocando, configurando a festa, enquanto observava Julieta dançando. Foi muito interessante ver a partitura criada pela Dani, que já trouxe movimentos alternados de expansão e contração, típicos de Julieta. Assim, ainda com o texto em mãos, passaram uma vez a cena. Em seguida, pedi para que deixassem o texto e improvisassem livremente, tendo o mesmo ponto de partida, mas sem necessidade de se ater somente à cena do baile.

É sempre impressionante o que acontece nesses momentos de evocação. Minha única sugestão foi pedir para que eles sentissem a atração, como se fossem pólos opostos de ímas, e o que acontecia ao se aproximar ou afastar. Daí teve início a partitura. Deixei que ficassem um tempo, nisso, e foi quando eu resolvi colocar uma música.

Bom, esse foi um capítulo à parte. Não dá pra esperar muito de coisinhas de plástico feitas sob trabalho escravo do outro lado do planeta. era pra tocar algumas músicas da trilha de Amelie Poulain, cuja delicadeza combinava com o momento do encontro, mas para minha surpresa, ela resolveu tocar a seleção que eu havia separado para Mercuccio:  Queen e David Bowie. E a música entrou no susto, sem qualquer sutileza. Como ninguém esperava, deu uma qualidade louca à cena: Os dois aterraram. Saíram do idílio romântico e foram pro corpo, pro sensual, pro lugar onde deveriam estar. E eu percebi o grande perigo da cena, o risco da morte iminente. Percebi o desperdício de ficar somente no amor pueril, lugar bem comum de se cair, especialmente na cena do balcão. nesse momento, eles grudaram, e daí veio o resto da peça transbordando em seus corpos: veio também a tragédia. Veio a dor. A separação e o resgate. Em determinado instante, eram eles complementos, um corpo encaixado no outro como yin/yang. Eram pleno movimento na completude. E a caixinha made in China ainda fazia seu show: parava a música no meio, mudava de faixa, parava de novo, era um espetáculo de brutalidade. Acabei deixando rolar esse caos um pouco, porque criava um ambiente meio hostil, meio instável, porque nunca dava pra saber quando a música ia pular, ou parar, ou mudar. A energia os levou, tal como a máquina da peça, à morte compartilhada. E eles ficaram parados por um bom tempo, e nós olhando, e eu sem saber se eles esperavam que eu desse o corte, mas sentindo que a cena ainda acontecia. Deixei que eles decidissem, pelo desgaste do momento. E assim foi. Ficaram ainda alguns minutos ali, vivendo aquela morte em silêncio. Até que ficou claro o momento em que não eram mais Romeu e Julieta, mas Cris e Dani.

Depois, conversando, falamos de algumas coisas, em especial desse fim. Entendi que a cena do balcão, apesar de ser o momento do êxtase, já carrega, em potência, a história até seu fim. é o ápice do amor, mas justo por isso, já carrega a dor. E é essa dualidade que aterra a cena, que os torna gente de carne e osso, e não seres alados em diálogo etéreo. Porque por mais linda que seja, a poesia tem que ser permeável a cortes, e dela poder escorrer sangue.

Enfim, marcamos o próximo ensaio, entre os mil compromissos de cada um, nessa grande cidade. Garbel me acompanhou até o ponto de ônibus, uma pequena subida da Rua Humaitá em direção à Brigadeiro. E nesse caminho, por um instante me descolei de mim e vi dois amigos de joelho zoado mancando, cada um de um lado, ladeira acima, e falando do poder do bardo. Era realmente patético. E no espaço entre a sujeira do centro e o céu estrelado, nos despedimos.

Ensaios R&J – Entreato: As traduções

Até esse último ensaio, tinha conseguido reunir algumas das traduções oficiais: a de Beatriz Viegas-Faria, de Carlos de Almeida Cunha Medeiros, a de Bárbara Heliodora, e a de  Oliveira Ribeiro Neto, além da que estava disponível na web, no site de obras de dominío público, cuja tradução não foi creditada. Também tinha em mãos a versão que Christine Rohrig fez para Marcelo Lazzaratto (que gentilmente me enviou, a título de pesquisa) e ainda esperava chegar pelo correio a tradução em verso de Onestaldo de Pennafort, que encomendei de um sebo. Essa última foi a versão utilizada como base pelo Grupo Galpão, e despertou também meu interesse. Resolvi que não ia começar a trabalhar antes de ter todas essas traduções comigo, para que eu pudesse realmente fazer uma escolha, dada a natureza da pesquisa.

Além disso, tinha comigo a edição de Romeu e Julieta na língua original, na coleção “The Arden Shakespeare” que, além do texto, traz diversos comentários sobre a época, a obra, o sentido de algumas palavras e trocadilhos. Essa edição também contextualiza a peça, comparando os diversos “quartos” (como eram chamadas as transcrições das peças vendidas na época do bardo), e esclarecendo sobre o que os historiadores consideram a versão mais fiel à montagem originalmente encenada. Também cita as diversas fontes da história de Romeu e Julieta, história já popular antes que Shakespeare a eternizasse, inclusive com suspeitas de ter se baseado em fatos reais. O livro cita especialmente a versão do italiano Luigi da Porto, de 1530 (Romeu e Julieta de Shakespeare tem data estimada para 1596), cujo enredo já carregava todos os fatos, e vários personagens – além do casal, também o Frei, Mercuccio, Páris, e obviamente, o mote da briga das famílias inimigas e o duplo suicídio. Segundo o Arden, as contribuições de Shakespeare à história são – à parte de seu incontestável valor poético – alguns ajustes para que as cenas tenham simetria, ressaltando a tensão entre os opostos, entre outros “detalhes” que fizeram da história revelasse outros aspectos além do seu enredo.

Finalmente, depois de duas tentativas fracassadas de entrega, chega em minhas mãos o último livro, na sua segunda edição. O que o sebo descrevera como “levemente deteriorado” era, para mim, uma viagem no tempo. Páginas amareladas, palavras em verso, e um prefácio lindíssimo do tradutor-poeta. Destaco aqui algumas partes:

“(…) figurou a cogitação de se tornar possível no Brasil, mercê de traduções fiéis, a representação das grandes peças do teatro universal.

Para tal fim e por intermédio de sua Comissão do Teatro Nacional, promoveu inicialmente o Ministério, em fins de 1936, um inquérito entre escritores, artistas e intelectuais, com o propósito de apurar quais as vinte peças, de todos os tempos e de todos os idiomas que, aos quesitos de serem obras primas incontestes e de terem sentido universal e humano, juntassem ao mesmo tempo o de serem capazes de despertar o interesse do grande público.

Dentre as peças mais votadas, salientou-se, como era natural, Romeu e Julieta, a mais popular, a mais compreensível e todas as latitudes, na qual extravasa a mais simples, a mais popular e compreensível das paixões humanas, o amor, o amor espontâneo, impulsivo, avassalador, exclusivista, que vence todas as contingências, que triunfa da vida e das convenções sociais, que nasce de um olhar e não morre nunca, porque, segundo a Bíblia, é mais forte do que a morte.”

Sobre a escolha da tradução em verso, ele ressalta:

“(…) era forçoso que observasse a mesma forma do original, ou seja, a forma alternada entre prosa e verso, na qual se acham vasadas todas as peças de Shakespeare.

Essa condição, parecendo à primeira vista secundária ou considerada dogmaticamente impraticável,  – tal o interesse com que os tradutores em prosa, de Shakespeare e outros autores do gênero, servindo-se de argumentos especiosos, se empenham a estabelecer a priori que toda tradução em verso será necessariamente infiel – é, ao contrário, fundamental.

Negá-lo seria negar preliminarmente um truísmo, isto é, que “a poesia e a prosa constituem não somente os dois mecanismos da expressão verbal, mas duas tendências rivais do espírito humano, os dois modos de conhecimento que as criaram”.

E ainda:

O motivo circunstancial da presente tradução foi, conforme já dissemos, uma incumbência do Ministério da Educação. Mas suas razões profundas de nossa parte foram, por um lado, uma natural predileção pelos poemas de amor – que outra cousa não é essa peça – e, por outro, um encantamento estético jamais arrefecido, e desde os longínquos tempos do deambular notâmbulo da mocidade, pelo crepúsculo matutino, hora entre todas misteriosa e cheia de uma inefável poesia, hora de Julieta, hora de Romeu e Julieta.

Cada obra de arte e, em especial, cada obra literária, tem seu estado de espírito particular, o seu clima próprio, a que correspondem determinados aspectos da natureza e a estes determinada hora. E assim como Macbeth, com seus três temas do sono, do sangue e do crime, é a tragédia da noite profunda, Romeu e Julieta é a tragédia da antemanhã, dos primeiros albores do dia, dos primeiros “rubores de luz”, desse instante indeciso e sutil em que já não é noite e ainda não é dia”.

Lia esse livro no ônibus, a caminho do trabalho. Ao ler esse último trecho, em especial, tive que parar. Comecei a chorar, besta que sou, arrebatada pelas imagens sugeridas, que já confirmavam minha intuição sobre do que a peça fala, afinal: de algo sublime demais para a densidade do mundo, como o orvalho da manhã, que frente a uma maior brutalidade do sol, evapora. Porém, existe por um tempo, deixando em cada um a experiência do sutil, terreno do amor.

Podemos ler a história como um amor interrompido por uma tragédia, mas também podemos percebê-la como a força imprevisível do amor que, apesar de todas as situações adversas, consegue encontrar um berço para florescer, ainda que por um tempo. Ao ler essas palavras de Onestaldo, percebi tudo como um grande poema do alvorecer possível, como um prenúncio do amor incondicional que podemos manifestar mas que ainda é, por ser novo, inconstante entre os dois mundos. O amor de Romeu e Julieta é o que sentiríamos se conseguíssemos viver constantemente em estado de graça, e eles são os arautos desse estado de espírito humano.

Mas voltando à tradução: a partir desse momento, já decidido por uma tradução em verso, mergulhei nas infinitas possibilidades da palavra. Depois de escolher o recorte das cenas, resolvi que iria ler em todas as opções. Logo fui descartando algumas pelos seguintes critérios: rebuscamento excessivo, tradução às vezes literal sem se ater à musicalidade do texto, entre outros. Ao fim, fiquei principalmente com a de Onestaldo de Pennafort e a de Christine Rohrig, com algumas consultas ainda à de Barbara Heliodora. As primeiras tomaram decisões opostas: a primeira é em verso, a outra em prosa. A de Bárbara é em versos decassílabos. Assim, tomei como procedimento o seguinte padrão: lia o verso no original, percebendo em que momentos havia métrica mais formal, ou rima, e quando isso era quebrado. Percebi o sentido desse ritmo, a quem se dirigia a palavra, o quanto cada opção revelava o íntimo estado das personagens, e o quanto o respeito a essa alternância dá ao texto sentido. Também percebi, apesar do meu inglês básico, que a fala poética do autor não é, por isso, rebuscada. Há uma simplicidade juvenil nas palavras, e a poesia está mais nos trocadilhos e nas imagens sugeridas que por malabarismos da língua, que tanto torturam os atores e os espectadores.

Entendendo isso, fazia o seguinte: lia o original e entendia o ritmo, a música – não apenas a métrica, mas o lugar desde onde os personagens falam – e tentava antes, com minhas palavras, esboçar o que seria minha tradução daquilo. Depois comparava às escolhidas, agradecendo cada caminho arduamente já percorrido, e todas as pérolas colhidas. A de Christine, sendo em prosa, não usei tanto no texto final, mas sua clareza e simplicidade ajudaram a trazer do texto o que ele realmente queria dizer, sem distrações de estilo. A de Onestaldo chega a momentos sublimes, e essa carpintaria verbal foi muito inspiradora para que eu me arriscasse, também, em versos próprios. Assim, o resultado final é uma grande mistura de tais referências, onde também tive o deleite de poder navegar em palavras e, com isso, entendesse profundamente o sentido de cada uma delas no texto.

Somando tudo, foram seis dias de trabalho para apenas quinze páginas de cena. Mas esse ritual de passagem foi, sem dúvidas, a iniciação que eu precisava para ir para a cena com mais confiança de estar realmente entendendo alguma coisa daquele universo. Claro, estou longe de achar que está tudo apreendido, mas trabalhar tão intimamente não apenas com o texto, mas com tantas possibilidades que ele transpira, liberou diversas imagens que poderão ser levadas aos ensaios. E sendo a pesquisa justo sobre o que se dispara na cena a partir da poesia em movimento, era essencial que cada palavra fosse conscientemente eleita, e não apenas colhida ao acaso.

ensaios R&J – segundo encontro

Depois de passar uma semana bem cabeção, lendo teorias e buscando livros esgotados, tentando manter a linha de raciocínio entrecortada pela volta ao trabalho e a rotina deliciosa e caótica dos filhos pequenos, enfim chegou sexta-feira, uma semana após o nosso jantar. Fazia um calor dos infernos, e assim foi durante toda a semana. Ela passou e eu nem vi. Perdida que eu fiquei entre devaneios, fui pro ensaio sem saber o que fazer. Ainda não tinha a versão do texto definida (ainda esperava chegar pelo correio a versão do Onestaldo de Pennafort que queria ler antes de decidir), e então não tinha ainda idéia de como conduzir nada. Fui para o conhecido: falar, falar, falar. Olhar pro texto.

E ouvir.

Não me interessa (ainda) uma ambientação. Claro, não estamos na Inglaterra do século XVI, assim como Shakespeare não estava em Verona. Os atores não tem a idade dos personagens, e esse realismo de nada me interessa. Falamos das chaves para os lugares de cada um. Onde vive Romeu, Julieta e Mercuccio dentro de nós? Que lugar é esse? Que força cada personagem representa e, ao ser representada, acessa em cada um?

Garbel começou falando do seu Mercuccio, desse estado alterado que ele impulsiona. A leitura cinematográfica do diretor australiano Bas Luhrmann, que trouxe um lado andrógeno ao personagem, reverberou bastante em sua visão, da qual eu compartilho. Para mim, a energia que pulsa em Mercuccio é Freddy Mercury, é Dzi Croquettes, é Ney Matogrosso. É pura pulsão e movimento. O texto da Rainha Mab (que iremos trabalhar) é praticamente um feitiço, como um redemoinho de palavras que evocam imagens que evocam sensações que geram estados que preparam Romeu (e nós, espectadores) para o êxtase do primeiro encontro. Mercuccio traz a Romeu o carnal que lhe falta no seu amor platônico por Rosalina. Nessa cena, ele puxa Romeu à terra, ao fogo da vida que lhe é característico. Mercuccio, nesse momento anterior ao baile, exala com suas palavras um perfume afrodisíaco, perturba a atmosfera, gera inquietação, promove instabilidade. E só por isso a cena seguinte consegue “pegar fogo” tão rápido.

Assim como, por ação de Mercuccio, acontece o encontro que leva ao amor supremo, também pela sua ação a tragédia se desencadeia. É ele o condutor dos movimentos essenciais do texto. Ele, Mercuccio, mercúrio, mensageiro, assim como a Rainha Mab que ele dá voz e com quem sonha, por onde passa gera movimento. É ele o pulso da vida, da carne, do humano, e é puro fluxo, sem medo das consequências. Puro fogo. Acelerador de processos, catalisador do amor e da tragédia. Arauto da vida, que ao se ver privado dela, revolta-se em plena maldição. É o pulso que se recusa a partir de algo que lhe é tão doce: o deleite do corpo, da existência. O sabor de estar vivo.

E Cristiano falou de Romeu: é uma ave em estado de quase vôo. Ele, músico, ator e dançarino, sentiu no corpo o movimento do personagem. A inquietude, a impermanência, o desequilíbrio. Romeu começa apaixonado, aluado, avoado. Seu encontro com Julieta encarna essa amor em Terra firme, mas torna ainda mais forte seu galope. Romeu é ave que sobe e desce, que alça vôo mas não se mantém ainda estável. Vive em estado alterado, e desde esse lugar, pode ir a qualquer outro. Romeu é instabilidade. É estado de possibilidades. Romeu é nosso salto lúcido em direção ao abismo, sem a certeza de que as asas funcionarão. É cordial, regido pelo fogo cardíaco, seu pensamento é mero narrador da ação já executada, para seu prazer ou terror. Romeu é a entrega apaixonada e devota ao sentimento, sacerdote do amor, e sua falha não é a dúvida, mas ter encontrado outra energia de igual intensidade, mas com direção oposta: a fúria. Romeu é um avatar das paixões, médium dos sentimentos intensos, campo de batalha dos opostos. Em seu corpo tremem o amor e a violência, em seu corpo vibram as duas forças antagônicas. Ele simplesmente dá passagem. Romeu é coração, e também coragem, não hesita em largar a pele do nome e se jogar no desconhecido. Não é o louco inconsciente, ele sabe do perigo. Tem a força de um valente, mas é ainda aprendiz. Ainda não tem a arte de manejar as forças, apenas as reconhece. Ainda depende da regência do Frei Lourenço, alquimista em hábito de frade.

Sua falha foi não ter conseguido escolher. Em pleno campo de batalha, o ego vence. O orgulho já ferido por ter sido banido, sua primeira morte. Romeu, filho de casa nobre e (por que não) um bom vivant, gozando sem restrições a vida na polis. Gozando da liberdade de poder se ocupar dos assuntos filosóficos e amorosos. Gozando de diversões entre amigos. Mântua é a solidão, o abandono de todos os privilégios agregados ao seu sobrenome. Se de bom grado ele abre mão de seu nome em prol do amor, no êxtase com Julieta, no momento em que isso acontece, de fato, ele diz preferir a morte. Assim, dividido, Romeu é humano. Assim, dividido, ele nos leva a uma escolha. Não figura o lugar do príncipe galante, cujas adversidades estão fora, nos outros. Ele carrega em si essa batalha, e por não ter vencido essa luta dentro de si, não tem força para realizá-la fora. Se estivesse inteiramente decidido ao abandono do seu passado, do seu nome, não deixaria brecha. Mas essa fraqueza, que o faz de carne, é o lugar por onde a tragédia floresce, por onde a fúria ganha força e movendo a espada, faz dele “um joguete do destino”.

Por fim, Julieta. Dani descreve seu estado como um rapto. Ela se mostra efêmera, fugidia.  De fato, ao ser tocada pelo amor, sua natureza muda subitamente – ela passa de uma adolescente comum da corte a uma jovem guerreira. Apesar do costume a manter no comum arquétipo da “princesa na torre” – ela sai bem pouco de casa – sua atitude não é a da espera. Julieta não é resgatada por Romeu, ambos são levados ao lugar do rapto. (Barthes). Ambos vivem a subida aos céus e a descida aos infernos, contudo o percurso de Romeu é externo, se passa no espaço da Polis, enquanto o de Julieta é interno. Sua ação, portanto, não está em função de Romeu, é uma jornada dentro de si e com ele. Sua fala muda, sua atitude perante a família, ao pequeno cosmos que a circunda. Do “seja feita a sua vontade, pai” à rebeldia arquitetada. A coragem para morrer, também no exílio. O abandono dos pais, a ausência de Romeu, a perda do apoio da Ama, a decisão por tomar a poção, apesar do terror. Ao saber da morte de Teobaldo, Julieta, assim, como Romeu, oscila. Vive em si também a batalha mas, diferente dele, ela a domina. No final, faz sua escolha, e opta pela morte consciente do nome, enquanto também escolhe a morte aparente do corpo. Nesse momento, passa pelo ácido e transmuta. Não é a heroína romântica. É também carne e tentação, é também violência, é também medo e terror. Julieta entrega seu corpo ao destino, apesar dos presságios. E com a mesma coragem que toma a poção, depois, através da adaga, sela sua escolha, dessa vez em definitivo.

Julieta escapa às mãos dos pais, da ama, e da própria atriz que a busca. É o hálito doce da rebeldia, que só aparentemente é frágil e acessível. Julieta é o anseio pela liberdade acima de qualquer consequência. Sendo ela esse espirito, também não se deixa encarcerar em conceito, em forma. E se Romeu é movimento pela instabilidade que vibra, Julieta também o é, mas tomada pelo vento que a torna impossível de segurar. Assim, ao se ver sozinha, incapaz de viver, então, a única história compatível a sua essência – seu amor com (mais do que por) Romeu – ela abandona a carne para libertar seu espírito de um destino que não elegeu. Prefere a dor ao sofrimento. Prefere novo salto ao desconhecido ao conhecido resignado, ainda que sua outra “opção” não fosse de se jogar fora, ou até melhor (no conceito da ama), que Romeu. Páris é gentil, bonito, amoroso. Não é um velho comerciante amigo de seu pai. Ele a corteja, a respeita, a espera. Não fosse seu rapto, talvez considerasse esse encontro uma sorte, “uma honra com a qual jamais sonhou”. A frase é ambígua. Um antagonista gentil, delicado, tira Julieta do lugar vitimado típico das princesas encarceradas. Páris se parece mais ao arquétipo do Príncipe Encantado que o alucinado Romeu. Páris é a civilização, o concenso, o acordo em que todos ganham. Páris é a Polis, é a lei bem aplicada, a ordem, seria, talvez, um amor apolíneo. Romeu é o incerto, inconstante, o rebelde, a vida sem roteiros, o destino ignorado. Romeu é dionisíaco, talvez tenha o mesmo pulso de Mercuccio, localizado em outro plexo – enquanto um é puramente sexual, o outro eleva essa força ao cardíaco. Ao escolher Romeu, ao escolher o caos, o divino, Julieta age, e também move a ação.

Romeu e Julieta encontram-se no delírio. Ambos começam deslocados, como se já fossem feitos de uma natureza diferente de suas famílias. Ao se encontrarem, se reconhecem. A intimidade se instaura já na primeira palavra, ou antes dela, no primeiro olhar. Um é o acesso do outro ao terreno além da realidade cotidiana, além dos opostos. Eles saltam juntos a outro espaço, onde as palavras são harmônicas, onde os nomes e convenções não fazem sentido. Experimentam o êxtase, o lugar da unidade. Uma vez aí, não querem mais a realidade ordinária, confusa, grosseira.

O lugar onde eles chegam montados no amor, essa experiência de unidade, só é possível nesse outro estado. Na realidade cotidiana, dividida, adormecida, cabe à lei esse papel de forjar o consenso. Então a lei humana entra onde o amor não consegue se firmar, quase como uma sombra, tentativa artificial e arbitrária de simular o que podemos experimentar naturalmente em outro nível de consciência. E a lei é importante na peça. A formação da Polis, a figura do Príncipe, a necessidade de se resolver os conflitos entre clãs para que o Estado ganhe força. A necessidade de reger as forças que dominam os ânimos humanos. Romeu e Julieta é repleta de espelhamentos e oposições, além da óbvia disputa entre Montecchios e Capuletos. Shakespeare nos mostra que o que tentamos às duras penas, por força do Estado, por força militar, por força da moral, conseguiríamos plenamente em estado de puro amor. Romeu e Julieta são os arautos da harmonia. São a materialização de uma nova possibilidade humana, que se mostra encarnada, sexualizada, viável, e não utópica. O amor vivido por eles é o lugar do acordo, e onde ele não tem espaço, aí entra a lei, como uma torpe interpretação de uma unidade possível ao homem. E é esse jogo de oposições que amplia o terreno onde a narrativa nos leva. Não se trata apenas de indivíduos, mas de toda uma coletividade. E se esse lugar é possível, o da harmonia, por que nos é tão distante? Talvez nos falte cuidar desse amor. Talvez nos custe perceber sua presença.

Não é à toa que as imagens que chegam aos atores sejam efêmeras. Asas, fugas. Fugacidade, instabilidade, velocidade, movimento. Fluxo. E uma outra imagem que Cristiano me trouxe de Romeu: meio molhado, recém-saído da placenta. É o cheiro que fica no ar após o nascimento: um perfume sutil, quase imperceptível, misturado ao ferro do sangue.

E todo o tempo os personagens transitam entre esses dois mundos. Por isso as falas mudam, e são elas as chaves para perceber em que plano o personagem se encontra. Esse livre trânsito que a obra de Shakespeare tem entre a realidade visível e a matéria dos sonhos, por ele considerada igual. E se em peças como “Sonho de uma noite de verão”essa realidade é manifesta em cena, em Romeu e Julieta ela é trazida pelo estado dos personagens. A fala revela o lugar. Por isso alternam-se prosa e verso, por isso falas nada óbvias aparecem. São as vozes do campo ordinário, convencional, seguidas de falas provenientes de outros lugares, como se alguns personagens fossem, por momentos maiores ou menores, porta-vozes de divindades. Ainda que essa divindade seja, talvez, apenas mais uma probabilidade humana em outro estágio de evolução. Pois se essas forças não tem nome, apenas voz, é aberta a possibilidade para que o divino venha do próprio espírito humano.

Em Romeu e Julieta, o divino vem da fricção. Do fogo transmutador. Tudo coexiste, em pura tempestade.

E voltando ao tempo do ensaio, isso foi o que ouvimos de nós, em conjunto. E no final, os atores deram voz ao texto. Garbel saboreou a crescente tensão do sonho alucinado que faz com que Mab fale através de Mercuccio. E de repente nos demos conta de que o tempo havia passado, e os compromissos externos foram evocados. Era Daniela quem tinha maior urgência. Tinha que sair, mas queria ficar, e queríamos ler, queríamos experimentar depois de tanto falar e ouvir. E o tempo era pouco, e eles se sentaram no chão, Cris com livro nas mãos, Dani o abraçando por trás, e assim leram o encontro. Assim, no chão, com pressa, abraçados, evocaram o texto. Assim, sem mais pensar, com pressa, sem tempo, com vontade, assim, tão simples, já foi tão lindo e deu vontade de mais.

Ouvir de si os ecos daquelas palavras. Ouvir onde ressoam Romeu, Julieta e Mercuccio. Ouvir as palavras como mantras, perceber o estado para onde elas levam. Ouvir, ouvir, ouvir. As palavras são os carrosséis condutores. Através delas, a história acontece. Pelo ouvido, em Shakespeare, entra tanto o veneno quanto o bálsamo, e nós, em estado de escuta, falamos. Ouvindo, tudo fez sentido, e já visualizei o recorte do texto que será nossa cena.

Combinamos o próximo encontro, e dessa vez será direto pra ação.

E mais uma vez, agradeci.

cria ensina

recentemente, roubaram as ferramentas do Dja no seu local de trabalho. como sempre, nesses casos em que a gente se sente invadido, ficamos um tempo elaborando isso. sobre o que significa pegar o que é do outro, o que significa ser roubado, sobre por que isso acontece, que brechas a gente deixa, o que fazer a partir daí, etc etc etc. complexidades.

aí ontem fomos a uma festinha de aniversário. quase no fim, o Gabriel estava com uma bexiga na mão – e havia pelo menos umas trinta espalhadas pelo chão do salão – e um menino cismou de pegar justo a dele. pior, queria a bola para dar ao aniversariante. não cabe a mim julgar as razões dos filhos dos outros (ou vou guardar pra mim, que já é muito), e bem sei que num monte de moleques juntos, nenhum é santo, mas estou contando isso pra descrever meu estado: o tal menino – maior, é claro – perseguiu o Gabriel até a piscina de bolinhas, e lá conseguiu, à força, tirar a bola das mãos dele. eu, a duras penas, me segurava no papel de observadora. vi o meu filho gritando: é meu! é do Gabriel! eu, na espreita, de prontidão, paciência forçada, rangia os dentes, enquanto ele reagia, guerreiro, sem auto-piedade. tive que deixar ele viver esse momento, tão dele, sem interferir, mas sentia dentro de mim o impulso de avançar num salto pra defender a cria da criança equivocada. pelo bem dele, me segurei. no fim, o próprio aniversariante, percebendo a injustiça, devolveu a famigerada bola ao Gabriel, frente ao olhar indignado do escudeiro.

coisas de menino. Gabriel saiu da piscina satisfeito, confiante na Justiça Divina. segundos depois, conquista lograda, largou a bexiga no chão.

e eu entendi o que é gritar “é meu” sem culpa, sem egoísmo, por pura evocação do que está certo dentro do jogo. porque mesmo pra ser generoso, a gente só dá o que primeiro tem.