Eu sou G

Ontem estive numa loja para uma troca. Peguei tudo M e sem experimentar, mas chegando em casa, ficou apertado.

Fiquei com vergonha.

Não mais do meu corpo – do meu preconceito.

Nem vou entrar no assunto das padronagens, da diminuição das numerações e bla bla bla, que isso é marmita requentada. Vou falar da minha dificuldade em ser grande. Em ocupar espaço. Em ser quem sou, fora da medida considerada – por quem? – ideal.

Então aceitei. Aceitei a música do tempo desenhada em mim, aceitei todas as ondas deixadas pelas gestações, pelos anseios, pelas gulas, pelos medos. Aceitei a medida do presente: não é o corpo do passado nem aquele que poderá ser estreitado por uma nova dieta: agora sou.

E sou G.

Saí da média.

Deixei pra trás a mediocridade.

Desencanei das maneiras.

E quero ocupar meus espaços. Com minhas medidas, com minhas palavras, com minha presença por inteiro.

Porque é revolucionário não pressionar a pele.

Então liberei a dança pintada no corpo: que vá para onde deseja. E leve, então, meu ser, sem a pressão da cabeça ou dos elásticos, para o tamanho que eu necessite.

E que 2014 seja de pura expansão: das palavras, do meu alcance, de minha consciência,

e da liberdade.

como educar um saci

Gabriel, meu filho

o que que eu faço com você?

 

Você tá virado do avesso, me virando junto

você é o filho do Menino Maluquinho com a Emília. Sem medo da Cuca, e discípulo do Saci.

você é insubordinável, irreverente, inflexível nos seus fins,

mas flexibiliza os meios, tem ginga da malandragem: olhos atentos.

nasceu com pleno domínio de cada músculo, mas escolhe cair o dia inteiro. Porque tem a cabeça na próxima diabragem.

 

você é, pintado, meu riso de infância.

você tem a coragem que eu nunca tive para as desobediências.

você é aquele amigo da escola que eu adoraria ter.

 

mas você nasceu meu filho.

 

e aí? o que eu faço?

o que que é “educar” você?

o que fazer com essa parte minha que se recusa a se dobrar a qualquer coisa? que não dá aval pra castigo, que cospe (ou esculpe, como vc diz) na ordem estabelecida?

O que fazer naqueles dias na borda do limite, com nervos à flor da pele, com o caçula no colo e o mais velho na frente, quando preciso que você me obedeça e desejo, secretamente, que você nunca obedeça a ninguém?

que raio de função é essa, a de te ensinar limites? te ensinar que o outro existe, e que às vezes você passa da conta?

te ensinar que a existência do outro não é uma pedra no seu caminho? que o outro sente – inclusive dor – e você também?

você, que brotou do pó da obra, na construção desse lar que a gente vive. Você que veio ordenar o caos naquele momento, e agora coloca a casa abaixo.

 

só me resta te mostrar que você tem coração.

só me resta te ajudar a ouvir sua música, e perceber que com outros a gente faz uma orquestra de tambores em diferentes tons.

 

você é um desafio, maluquinho, porque é a parte que eu gostaria de ter sido, mas tinha moralismo demais na frente.

espero que meus braços não sejam prisões, mas um trampolim para alavancar seu vôo.

espero ter amor suficiente para superar meus próprios limites, porque às vezes o cansaço é grande. porque me mostra o ridículo de segurar o curso do rio, o curso do riso. quebrar a cabeça da lógica da ordem. espero que você, no meio dessa bagunça, esteja forjando bem seu caminho.

 

espero que fazer a coisa certa talvez não seja sempre fazer a coisa certa,

entre um tombo e uma bronca, entre um choro e um riso, a gente acerta.

 

eu sei que você consegue.

eu sei que eu também. porque te amo.

 

gabrirock