entre leites e tomates

– Eu não sou uma pessoa boa. Eu só faço coisas ruins.

– Claro que você é uma pessoa boa, meu filho! que bobagem é essa?

Provocação ou não, a declaração me entrou como uma faca.

Ela me chegou depois de uma bronca: uma espécie de autoconsciência depois da décima arte para puxar o foco. Porque eu não tive tempo de pegar tomates, e veio a retaliação. Não era só fome: era vontade de amor. E o amor estava direcionado a nutrir o irmão menor, de nem quatro meses. Mas Gabriel, de quase quatro anos, o atual filho do meio, não entende, nem pode entender, o que é parar o mundo para precisar alimentar alguém.

É difícil aceitar. Eu bem que sei.

Depois de amamentar e ninar o caçula, fui atender o pedido. Dei mais: tomates, beijos, um abraço e uma conversa. Mas aquela frase doeu ouvir. É claro, havia uma certa dose de chantagem emocional, mas era verdade: ele não podia evitar fazer coisas “ruins”, porque queria atenção. Eu queria você, mãe. E teve. E depois disso, abriu um sorriso e disse: Agora o dia está feliz de novo.

Então entendi, mais do que nunca, que a gente nunca pára de amamentar. E que o começo é só um começo, um grande treino de escuta. E que a rede de apoio daquele começo (para as mulheres que tem essa sorte) pouco a pouco se dissipa, o bebê se incorpora à rotina, e as muitas atividades batem à porta, uma a uma, completamente ignorantes da sua falta de tempo ou excesso de cansaço.

E em várias vezes por dia, é necessário parar.

Parar  para nutrir

parar para ouvir

parar para dar.

E a gente. no olho do furacão, tentando não olhar para as tantas coisas pendentes, inacabadas, para as expectativas, pra coisas no fogo, pra um texto pra escrever, outro pra revisar, pra volta ao trabalho, pra casa caindo, especialmente a interna. Sim, é um presente, estupendo presente. A quantidade de ensinamentos que desce com o leite é enorme, cada parada é um transe, se a gente consegue silenciar e escutar.

Mas o silêncio é conquista, ele não vem tão facilmente.

E pesam as coisas que e deveria estar fazendo, as pessoas que eu deveria estar atendendo, o trabalho, os outros filhos, o namoro pendente, os projetos adiados, a vida que mudou completamente, o tempo que insiste em correr além da minha conta, o medo de que o circo pegue fogo sem minha presença onipresente, e o pavor de olhar para o espelho e ver atirada à minha cara, por próprio julgamento, a ofensa:

Eu não sou uma pessoa boa. 

Porque eu não dou conta. Porque me falta paciência. Porque me sobra intolerância. Porque sinto calor, porque me sinto sozinha, porque é tão assustador ser responsável por um ser tão frágil, porque tanta coisa… porque não posso ir ao beco diagonal, comprar uma varinha mágica e dizer: tempus paratus! Porque o braço dói. Porque dói não entender por que às vezes um banho mais demorado do que deveria é mais importante, mesmo que ele esteja chorando… E que às vezes concluir um texto (como esse) é tão urgente que não dá pra adiar um minuto. É difícil entender porque não consigo ser igual à todas aquelas que amamentam serenas, sorrindo, com coluna ereta e posando pra foto. Pelo menos não o tempo todo.

Mas sim, há outro lugar possível. Além do caos dos pensamentos. Além das ansiedades.

Porque às vezes acontece um tempo divino, e um olhar me conquista. Um sorriso ainda mamando. uma mãozinha que me toca o seio. Aí o tempo é eterno. E faz valer a pena, além do que dizem os médicos, as obrigações de mãe, os órgãos públicos, as outras mães.

Aí entendo porque a natureza me fez assim, mamífera. Entendo porque alguma coisa lá dentro de mim, além dos moralismos, me fez seguir por essa opção. Apesar do trabalho, apesar das pressões, dos preconceitos, dos medos.

Porque é sublime.

Aí sou nutrida, e a imagem se espelha: com um bebê no meu colo, vejo-me apoiada no colo da Mãe. E tantas e tantas maravilhas me chegam, vertendo em leite divino o amor necessário para enfrentar o que seja.

E isso vai muito além.

Porque depois do desmame, dá pra transformar esse tempo em abraço, em beijo, em novas atenções. Em outras escutas. Vira um lugar sagrado, onde se nutre e se é nutrida.

Então que esse tempo nunca seja ocupado com nada menos importante, é o que eu peço. Assim posso ter coragem para ouvir tantas e tantas frases duras e difíceis, passar por situações novas, e saber que terei condições de ver um sorriso brotando de novo.

Amamentar é só o começo. Ainda bem.

3 respostas para “entre leites e tomates”

  1. Cada vez mais, admiro esta minha Nora. O Gabriel é assim mesmo. Imprevisível. Com todas imprevisões, o amo muito. Sempre direto. Parabéns pelo Texto. Um cheiro.

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