prova de cavalheiro: o embate com o gigante

ele era puro suor e febre. olhar vidrado. ele estava alucinando

era ele contra o gigante. e o bicho tinha uma faca.

ele sentia os olhos doendo, e a dor da faca do gigante em seu corpo.

eu estava preparando o banho do Francisco, seu irmão menor, e ele surge assim no banheiro, já acordado mas ainda imerso no pesadelo, apavorado, em plena iniciação.

por ação da grande mãe, Francisco estava em paz no bercinho. eu estava sozinha em casa com os 3, mas pude acolher um só na sua urgência.

entramos no banho. aninhei-o pelas costas, para que ele sentisse o manto da proteção. coloquei a mão no seu pequeno coração que batia às marteladas no seu ritmo de beija-flor.

eu não sabia ainda o que fazer, mas tinha uma só certeza: não poderia dizer “não foi nada, foi só um sonho, vai passar”. isso seria um desperdício, uma mentira, uma desonra. porque  eu sabia que aquilo era MUITO forte. era uma tremenda aventura, e era o mais importante a viver naquela hora. seu mundo interno pulsava, vívido, e eu era testemunha daquele embate.

a única coisa que poderia fazer era ajudá-lo na travessia.

então, naquele abraço, coloquei-o de frente para o gigante. eu estava na retaguarda, mas ele é quem enfrentaria o perigo. Juntos, respiramos. soprei em seu ouvido o que senti que ele precisava ouvir: que eu estava com ele, que seu guia protetor estava em seu coração, e ele estava protegido para ter esse ato de coragem.

e ele falou com o gigante. encarou-o de frente, apesar do seu medo.

depois soltou-se de mim e ficou debaixo da água, deitou seu corpo em uma posição-semente. era lindo ver sua coragem nascente. era uma honra presenciar essa prova, essa forja em pleno fogo. deu um orgulho gigante ver a dignidade de sua atitude, seu enfrentamento, sua disposição.

Gabriel, o honrado cavalheiro que hoje, aos seus 4 anos de vida, teve sua iniciação. dura iniciação.

mas ele atravessou.

deixei-o a sós por um instante, com a certeza que agora ele estaria bem. Francisco já chorava pedindo colo, e fui buscá-lo no berço. entramos novamente juntos no banho, e sua alegria de bebê trouxe o bálsamo que faltava para finalizar a história.

e eu só agradecia. agradeci a oportunidade de estar ali, naquele instante, disponível para testemunhar e ajudar nessa aventura. e soube, como só as mães sabem, que esses momentos irão se repetir muitas vezes.

mas a primeira vez marca. e é inesquecível.

depois, com a ajuda do pai (que o presenteou com novas interpretações do sonho), Gabriel voltou lá.

reconciliou-se com Marte, sua potência avassaladora, cortante, mas curativa.

e ficou amigo do gigante.

 

 

 

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