tremores de abril

em caso de desespero

arrepie os pêlos. sinta, mas não ressinta

não desvie o olhar pra trás do ombro

não desvie os pés pra falsos lados

respire, apenas

suporte as penas

o tremor da mudança apavora

o abraço do nascer

desespera

 

não sucumba: aguenta a espera

que na noite, outro tempo se engendra.

 

não podendo parar, então dance.

não podendo falar, siga a reza

que o que está doutro lado, já era

e o porvir ainda é sentimento.

mas resista, não perca o momento

pra nascer

rompe o chão a quimera

 

e a serpente, enfim livre do pranto

unirá de uma vez céu e terra

 

vida em montanha russa

melhor aceitar viver a inevitável incerteza
(mas a vida sopra sinais)
melhor aceitar de vez a desconfortável aventura
(mas a vida presenteia com paz)
melhor acalentar de vez nossa horizontal orfandade
(sermos também mães e pais)
coração palpitante
caminho derrapante
frio nas tripas
vento no rosto
(vida é isso e nada mais)

a favor

caminhava por fricção.

então necessitava de um solo duro, árido, para me contrapor.

até a não-violência já me parecia oposição.

minha liberdade de movimentos dependia de uma luta diária contra meu chão,

corporação. patriarcado. verticalismo.bandos opostos. tanta mentira.contradição.

 

até que vi ser impossível fixar raízes em algo contra o qual se luta.

para acelerar o movimento, raspava os pés, touro desenfreado em direção a vermelhos aleatórios.

enquanto isso, a cabeça calculava movimentos. e o corpo arqueava, vazio de tanta pressão nos extremos.

 

um dia, meus pés já secos de tanta briga,

começaram a coçar,

depois ferir,

depois sangrar.

recusaram-se a caminhar.

pediam trégua, água.

deixaram de ouvir os comandos do general geral do alto comando central

 

o centro da voz interna escorregou pra pineal

o centro do movimento externo subiu pro planalto central.

 

revirou meu estômago

mexeu nos meus medos

instalou-se no coração

 

e o fogo que ardia meus pés acendeu a fogueira da alma.

 

e me vi assim: tocha acesa.

 

sem pressa. só presença

 

e a mente ordenando comandos vazios

 

.

(só espera)

 

até que meus pés, finalmente livres,

 

descobriram um caminhar para cima. movidos pela fogueira da alma, com a terra fofa acarinhando o percurso.

tempos de áries

constelação

 

muita mudança no céu: estrelas mutantes convocam ações.

sistemas solares despencam. sistemas de falsos sóis.

 

o tom da nota é: verdade.

outono pede só essência. fica só o que alimenta.

tirar cascas sérias,

sair das casas velhas,

voltar pro centro, morrer, e só depois florescer.

 

só peço a essas constelações verdadeiras que mandem de lá o sentido.

e a justa ajuda para o reajuste

na medida do meu merecimento

mas no tamanho da minha necessidade.