não, não vou mais poetizar o presídio,
lustrar o pedestal reluzente das vítimas,
ou justificar minha mediocridade pelo pacto comum dos mártires.
a partir de agora, vou pisar na lama
sujar o pé de tentativas. ser opaca.
aceitar a solidão de ser única
afrouxar o corpo, passar entre as grades
colher os frutos das árvores (na grande floresta de dúvidas)
sem garantia. sem glamour. só liberdade.
travessando
há dias que passam
outros acontecem
tem dias que a gente atravessa
outros atravessam a gente
nesses dois últimos, se vive.
promessa de casamento
o cabeça grita: mais!
a corpo pede: paz!
mas sei que a dupla se ama.
estou dando uma de cupido
e, enfim, sentirei: mais paz.
língua do B
a boca do bebê baba
e beijo babado de bebê
é bom é bom é bom
onde está você?
por isso, meu bem,
solidão
é ilusão
chegamos em plena fusão
um só corpo, duplo coração
e se a vida não for em vão
teremos ligado estrelas,
cada toque, um traço,
duplo corpo, uma só coesão
(cada ser, uma conexão)
té partirmos rumo ao desenho
a soma de todos os laços
o alto igual ao de baixo
sem dentro sem fora, só vôo
pro centro da constelação
coser
esse pequeno gesto – generosíssimo gesto – de se deslocar das próprias crenças e se colocar, nem que seja por um minuto, na outra pele, é a única coisa que faz diferença. que faz a mudança.
(ainda que não concordemos de imediato.)
sair de si, ver, aceitar,
conciliar
acolher, remexer;
até perceber que isso não é APENAS ver e receber o outro
é costurar os tantos em si.
delírios da espera
são tantos e tantos os sentimentos que antecedem o nascer…quase um desfile de alegorias.
(ou aventura)
observo, vivo, dou passagem;
enquanto isso, Francisco silencia.
e nos preparamos para a grande travessia
(ou travessura?)
tempo de espera
pequena escuta no grande hiato das revoluções
O gigante acordou! brandamos, orgulhosos.
e sim, foi motivo de orgulho: a manifestação do despertar consciente.
porém, com o caminhar da lua no céu,
o gigante se revelou multifacetado. E mil cores ainda desconhecidas (ou indesejadas) pintaram seu rosto.
então miramos com horror para a face informe do que somos. talvez, pela primeira vez, em contornos tão claros, refletidos nas ruas de asfalto, tão cinzas e tão espelhadas.
algumas dessas faces, órfãos de pai, de pátria, de comando, pedem ordem.
algumas sentem medo
algumas fritam o cérebro buscando respostas rápidas
é duro, é terrível: mas junto com o tal gigante, acordamos nossa consciência para o ser ferido e fragmentado que somos: um ser perdido entre múltiplos discursos e gritos de ordem.
não é uma pátria, não é um pai. é um grande órfão pedindo cuidado.
mostrando, com sua violência, o abandono sofrido
reclamando os anos tomados
mas revelando, também, sua enorme potência.
é duro aceitar a face torta, e torto é sempre o outro.
está sendo difícil olhar para tudo como um único ser que chama por justiça. a justiça que rege o universo, as leis do amor universal.
hoje acordei dolorida. então resolvi curar.
e percebi que pedimos: “cuidado!” não apenas por medo. não há porque ter medo, as forças que regem o país estão cada vez mais claras, iluminadas pelo sol e pela lua. o oculto agora se revela.
Cuidado! = atender. cuidar do novo que brota no meio ao caos.
cuidar e confiar
que o verdadeiro gigante ainda está às portas, ainda semente, e é o novo espírito que está nascendo.
Que o amor dissolva a dureza da terra, para que nosso corpo possa ser fértil,
e deixar brotar,
apesar do difícil pensar, e do tortuoso agir.
E se o novo, para chegar, pedir sangue
que esse seja o sacrifício vindo não da violência,
mas do nosso consciente parir. a dor de se auto-gerar.
pra nascer.


