saindo

não, não vou mais poetizar o presídio,
lustrar o pedestal reluzente das vítimas,
ou justificar minha mediocridade pelo pacto comum dos mártires.
a partir de agora, vou pisar na lama
sujar o pé de tentativas. ser opaca.
aceitar a solidão de ser única
afrouxar o corpo, passar entre as grades
colher os frutos das árvores (na grande floresta de dúvidas)
sem garantia. sem glamour. só liberdade.

travessando

há dias que passam
outros acontecem
tem dias que a gente atravessa
outros atravessam a gente
nesses dois últimos, se vive.

onde está você?

por isso, meu bem,

solidão

é ilusão

chegamos em plena fusão

um só corpo, duplo coração

 

e se a vida não for em vão

teremos ligado estrelas,

cada toque, um traço,

duplo corpo, uma só coesão

(cada ser, uma conexão)

 

té partirmos rumo ao desenho

a soma de todos os laços

o alto igual ao de baixo

sem dentro sem fora, só vôo

pro centro da constelação

coser

esse pequeno gesto – generosíssimo gesto – de se deslocar das próprias crenças e se colocar, nem que seja por um minuto, na outra pele, é a única coisa que faz diferença. que faz a mudança.

(ainda que não concordemos de imediato.)

sair de si, ver, aceitar,

conciliar

acolher, remexer;

até perceber que isso não é APENAS ver e receber o outro

é costurar os tantos em si.

delírios da espera

são tantos e tantos os sentimentos que antecedem o nascer…quase um desfile de alegorias.
(ou aventura)
observo, vivo, dou passagem;

enquanto isso, Francisco silencia.
e nos preparamos para a grande travessia
(ou travessura?)

tempo de espera

enquanto Vênus beija a Lua,
barca feliz com estrela-guia,
observo as marés que dançam.
espero,
aguardo,
anseio,
sonho,
devaneio:
Em qual onda você embarcará, meu filho?

 

lua e vênus

pequena escuta no grande hiato das revoluções

O gigante acordou! brandamos, orgulhosos.

e sim, foi motivo de orgulho: a manifestação do despertar consciente.

porém, com o caminhar da lua no céu,

o gigante se revelou multifacetado. E mil cores ainda desconhecidas (ou indesejadas) pintaram seu rosto.

então miramos com horror para a face informe do que somos. talvez, pela primeira vez, em contornos tão claros, refletidos nas ruas de asfalto, tão cinzas e tão espelhadas.

algumas dessas faces, órfãos de pai, de pátria, de comando, pedem ordem.

algumas sentem medo

algumas fritam o cérebro buscando respostas rápidas

é duro, é terrível: mas junto com o tal gigante, acordamos nossa consciência para o ser ferido e fragmentado que somos: um ser perdido entre múltiplos discursos e gritos de ordem.

não é uma pátria, não é um pai. é um grande órfão pedindo cuidado.

mostrando, com sua violência, o abandono sofrido

reclamando os anos tomados

mas revelando, também, sua enorme potência.

é duro aceitar a face torta, e torto é sempre o outro.

está sendo difícil olhar para tudo como um único ser que chama por justiça. a justiça que rege o universo, as leis do amor universal.

hoje acordei dolorida. então resolvi curar.

e percebi que pedimos: “cuidado!” não apenas por medo. não há porque ter medo, as forças que regem o país estão cada vez mais claras, iluminadas pelo sol e pela lua. o oculto agora se revela.

Cuidado! = atender. cuidar do novo que brota no meio ao caos.

cuidar e confiar

que o verdadeiro gigante ainda está às portas, ainda semente, e é o novo espírito que está nascendo.

 

Que o amor dissolva a dureza da terra, para que nosso corpo possa ser fértil,

e deixar brotar,

apesar do difícil pensar, e do tortuoso agir.

 

E se o novo, para chegar, pedir sangue

que esse seja o sacrifício vindo não da violência,

mas do nosso consciente parir. a dor de se auto-gerar.

pra nascer.