minhas sobrancelhas não param penteadas
os (raros) esmaltes não param nas minhas unhas
o bico dos meus sapatos não param reto: arrebitam.
Os fios da minha cabeça não param deitados: orbitam.
Eu não paro num salto alto
salto pra fora,
pro alto,
sempre.
Eu não paro quieta.
Eu não paro branca.
Quando eu nasci, meu nome me disse:
manca.
feita d’água
mulher: quem é você?*
O que você vê é um corpo sem pontas, arredondado, pedindo por presença como um vaso, cheio de vazio, de futuro. Quem sou eu? Sou é silêncio. Um canto que vibra depois da última nota. Espreitando, entre as pedras, esperando na concretude para quando puder ser. E o tempo é agora, no auge da dureza do mundo. Porque eu broto do contrário.
Mas eu ainda estou nascendo mulher. Ainda tentando entender de corpo inteiro como é se jogar assim, sem o mínimo de resposta, no escuro. Sem vela. Porque também tem isso, sabe, a gente também pode ser a hora mais escura da noite, aquele segundo em que todas as estrelas piscam, então a gente também pode ser a pausa no respirar nas estrelas. Estou te dizendo, mas ainda não sei dessas coisas.
(…)
Vão te dizer
que a vida é guerra.
Que ela se enfrenta, se encara.
Com ela se luta.
Assim se tornam bravos, os homens.
Pois te digo: ela é boa.
A vida tem coisa de fêmea. Não se conquista ou domina.
Decifra-se.
* esse é um trecho da peça Jukebox, escrita para a atriz Alessandra Velho, recém-saída do forno, recém entrada em ensaio (dirigida por Lucienne Guedes), futuramente por aí, se os deuses assim quiserem.
Desde já um processo lindo, entre mulheres incríveis. Orgulho!
ser ou + ser
ser
é
só
ser
ser mos é
ser +
somos
soma
somo
som
somo encanto
canto em soma
e somo
amô.
toque de re-colher
na espera
chuvarada
e o mundo lá fora, visto do vidro aguado, derrete como sorvete ao sol, mas só que como sal na chuva.
só há uma coisa salgada e doce ao mesmo tempo no mundo:
turva o vidro dos olhos
porque deles nasce.
nos campos
plantando sonhos
na mãe
terra
para colher realidades
na matéria
(ainda que etérea)
vá (ou assim falou Beatrice)
então feche os olhos.
vá ficando assim, meio sorrindo. livre a roupa que aperta.
vá ficando assim, meio livre
tire o suor do sacrifício. não, nada sacro. balance o sacro, ao invés.
vire de pernas pra cima,
vá ficando assim, meio vermelha.
vá ficando assim, meio vapor na cabeça, meio carne viva.
latejante.
vá ficando assim, mulher sem vergonha.
vá ficando assim, vida sem medo.
rogância
…então no quintal da minha arrogância
dou incumbências às divindades: façam acontecer isso ou aquilo!
(por favor)
só assim darei minha vida!
a mãe, bondosa, acolhe e ri.
o pai, então, me joga no contrário: para que eu conquiste com minhas mãos meu pedido,
ou caia no chão, abrace a terra,
(e só então entenda)
que sou eu quem devo abrir os ouvidos ao que fazer.
silenciar, ouvir e fluir
e com o livre-arbítrio de abraçar ou não o caminho.



