Espaço-silêncio.
Aquele ponto na frente do espelho é aquela que aguarda.
Sou eu.
Depois de um ônibus, dois metrôs, um trem e uma caminhada, celebro a travessia neste silêncio de espera. Travessia da cidade? Travessia Butantã-Santo André, rumo à @elcvsa onde tenho a alegria de ser “professora de roteiro”?
Não.
A travessia do tremor, confrontando todas as vozes que resolveram gritar dentro de mim, dizendo que o mundo é perigoso, caótico, irracional. Que tudo o que eu faço é irrelevante, que encarar a multidão nos transportes públicos é abrir as portas para a insanidade.
Depois de uma hora e meia ou mais, chego. Um pouco mais cedo, para poder respirar.
Após o ruído incessante do caminho, o contraste.
Aguardo.
Logo logo, a sala torna-se cheia. Cheia de gente e suas histórias, lindas histórias pedindo forma, pedindo escrita, pedindo casa.
No meio do encontro, a pergunta que não queria calar grita:
“Como saber se o que eu tenho para contar vale a pena escrever?” – Carol me traz a questão. É sempre curioso quando alguém nos devolve nossas próprias perguntas.
Tudo vale a pena, se vemos em profundidade. Porque, no profundo, nossas histórias se encontram.
Então entendo: não se ensina como escrever. O que tento fazer é firmar este imenso vazio, espaço-útero-pleno-de-possibilidades, para que as histórias que querem nascer emerjam, e que todas as pessoas ali sejam testemunhas de sua relevância. Isso a gente sente na pele, no peito, em comoções repentinas ou pequenos arrepios.
Depois a gente usa o repertório, o conhecimento, a carpintaria, a técnica (isso sim se aprende) para dar uma forma potente. Mas antes, escreve-se com o ouvido. Parindo.
O tempo compartilhado passa, deixando um rastro de inspirações.
Ao deixar o espaço, já tarde da noite, com o percurso de volta pra casa à frente, deixo também de escutar as vozes mórbidas que me acorrentavam. Eu sei que elas continuarão ali, à espreita. Mas, nesse momento, levo comigo as vidas com quem dividi as últimas horas.
Sinto a força das mãos dadas na travessia, o carinho de tantas pessoas queridas.
E sempre agradeço por ter vencido o medo. Pelo menos, por mais um dia.



