Me alugo para sonhar

Este título – o mais perfeito, ao meu ver, para traduzir o ofício de ghostwriter – não foi escrito por mim. É o nome de um conto de Gabriel Garcia Márquez.

Eu poderia ter pensado em outras palavras, mas foram exatamente essas que me vieram à mente. Mas, ao tomá-las de empréstimo, foi inevitável me deparar com o dilema: por que eu não criei um título original? Por que, sendo capaz de forjar personagens, histórias, universos, eu decidi me expressar através de palavras cunhadas por outro escritor?

(Eis a questão.)

O trabalho de quem escreve por encomenda passa por lugares assim, espinhosos. Não me refiro àqueles “jobs” solicitados por pessoas mais práticas, que buscam reunir em algumas páginas um conteúdo específico, por conhecerem a potência que esse objeto carrega. Um filho, uma árvore, um livro – não é essa a tríade da imortalidade? Tais pessoas não querem escrever, só precisam de seu nome na capa para circularem com o livro pelo mundo, como síntese do seu conhecimento, ou da sua história de vida.  

Porém há um segundo grupo: o das pessoas que querem muito escrever, mas não se sentem prontas para isso. É aí que vivem as maiores contradições. Porque, ao mesmo tempo em que sentem-se agraciados por ter sua expressão perfeitamente transposta em frases, parágrafos e capítulos, pode-se ouvir, de um lugar bem longínquo, com uma ponta de tristeza: “Por que não fui capaz de criar algo assim?” Nesse caso, o termo “ghostwriter” torna-se irônico: ele, que deveria se referir ao ocultamento da escritora ou escritor contratado, pode acabar nomeando um sentimento de ausência de quem contrata. O “ghost” torna-se o nome que consta na capa, uma presença vazia num conteúdo forjado. Por isso, não raro, a pessoa pode se sentir uma fraude. E, por mais que esse tenha sido o “combinado”, esse desassossego cobra seu espaço, e acaba invadindo a arena dos afetos.

É possível também que aconteça o contrário: uma escritora ou escritor que, por jamais assinar seus textos, sente-se como um ser ausente não apenas nas obras que escreve, mas na sua própria expressão no mundo. Esse é um perigo constante para quem se aluga para sonhar: não mais lembrar onde fica a própria casa.

Acho que já deu para perceber o quão dramático pode ser esse ofício. Eu poderia contar páginas e páginas sobre a vida de uma ghostwriter, incluindo passagens de inveja, vaidade, transtornos de personalidade e até abusos –  Deem a uma escritora um mote, e ela pode lhe devolver um romance. Mas, sinceramente, prefiro falar sobre como duas pessoas em plena sintonia podem compor uma história juntas – ainda que apenas uma delas dê àquela obra palavras. É essa a relação me interessa construir. E digo “construir” porque descobri que ela não está dada de saída, precisa ser intencionada no passo a passo do trabalho.

Isso começa dando voz à pessoa que te contrata. Não apenas no livro, mas na própria relação interpessoal. Para mim, a pessoa que assina o livro deve ser, no mínimo, uma coautora. E isso pode acontecer sem que ela redija uma linha sequer, mas é essencial que reconheça, em cada palavra criada, algo que falaria. Ou até algo que já disse, nos tantos encontros prévios à escrita propriamente dita, recheados de memórias, insights e conversas profundas que – ao menos na minha metodologia – são parte fundamental do processo criativo.

Essa coautoria se constrói com alteridade. E esse conceito, para funcionar bem, precisa ser uma via de mão dupla. É esse o campo de força que compõe um bom livro por encomenda, quando nos reconhecemos nas histórias do outro, a ponto de também serem nossas. Não por posse, mas por identificação.

Você me mostrou parte da minha história, e eu te mostrei as palavras que a eternizam.

Nessa dança, não há fantasmas.

Apenas conexão.

(ilustração de @desenhonario / @lucasdrlopes )

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