onde está você?

por isso, meu bem,

solidão

é ilusão

chegamos em plena fusão

um só corpo, duplo coração

 

e se a vida não for em vão

teremos ligado estrelas,

cada toque, um traço,

duplo corpo, uma só coesão

(cada ser, uma conexão)

 

té partirmos rumo ao desenho

a soma de todos os laços

o alto igual ao de baixo

sem dentro sem fora, só vôo

pro centro da constelação

coser

esse pequeno gesto – generosíssimo gesto – de se deslocar das próprias crenças e se colocar, nem que seja por um minuto, na outra pele, é a única coisa que faz diferença. que faz a mudança.

(ainda que não concordemos de imediato.)

sair de si, ver, aceitar,

conciliar

acolher, remexer;

até perceber que isso não é APENAS ver e receber o outro

é costurar os tantos em si.

a grande batalha

A partir de hoje,

no parir de hoje,

limpo minha casa, meus pés, minhas mãos,

minha alma, meu espírito, minha história,

da sua presença.

da sua influência.

da sua EXISTÊNCIA.

 

Não mais te comporto em meu corpo,

não mais te suporto em minhas costas,

nas minhas raízes,

não mais te carrego em minhas dores,

coceiras, ardores.

 

Você, que assombrava minha história há tempos. que habitava em meus pesadelos. que aterrorizava meus caminhos.

 

Hoje te vi, e também te persegui.

te peguei.

te flagrei na sua fragilidade. vi seu verdadeiro tamanho. vi o peso da tua capa, o porquê da tua covardia. vi seu desespero para o qual a resposta é única: a violência.

vi, percebi, quase caí. Mas não me submeti.

dei voz à dignidade que me habita. dei voz à nova forma que em mim fala. dei voz, entre tosses e espasmos, entre um coração doendo, abri caminho entre os espinhos da tendência a ficar ali, sofrendo.

não.

a vida que em mim nasce e renasce teve mais valor. a primavera que perfuma o ar trouxe coragem.

sua covardia não chamou minha submissão, meu desespero;

ao contrário, acordou-me desse lugar. então percebi o poder de escolher outro caminho.

 

Empoderei-me dessa liberdade, indiferente e imune ao seu ódio.

E mudei meu curso.

 

Figura, não sei teu nome. só sei que vagas pela minha vida há tempos, tomando o corpo de seres amados. homens amados.

Conhece,  a partir de agora, teu lugar: nunca mais acima de mim. nunca mais no terror.

 

nunca mais.

 

Cura-te da raiva, do desespero, da covardia. cura-te da compulsão de ferir, como estou me curando do medo de ser transpassada.

Hoje minha voz se fez forte, escudo pra tua lança. não tenho mais ações para você, a não ser deixar esse palco, esvaziar-me desse papel, deixar-te sem réplica.

Mas não faço isso por você. faço pelo novo em mim que vem com os novos ares de final de inverno.

(final do inferno.)

Se quiser, aproveite o vazio de minha nova inexistência na sua vida, pra deixar de ser destruição.

 

Mas do seu caminho, só você sabe, e é problema seu.

assim como do meu, eu sei: eu optei pelo amor.

delírios da espera II

o mais louco desse tempo de espera é ficar tanto tempo sozinha.
Ou comigo mesma – dá na mesma.
E quanto mais comigo estou, menos sei que pessoa (é? sou?)

essa.
esperar é um derretimento.
esperar é escoar.

delírios da espera

são tantos e tantos os sentimentos que antecedem o nascer…quase um desfile de alegorias.
(ou aventura)
observo, vivo, dou passagem;

enquanto isso, Francisco silencia.
e nos preparamos para a grande travessia
(ou travessura?)

tempo de espera

enquanto Vênus beija a Lua,
barca feliz com estrela-guia,
observo as marés que dançam.
espero,
aguardo,
anseio,
sonho,
devaneio:
Em qual onda você embarcará, meu filho?

 

lua e vênus

frases do cão (de se ouvir e acreditar) sobre vida com filhos

normalmente, parecem grandes elogios, ou pequenas piadas.

mas são a porta pro fundo do poço.

sobre pais:

“que sorte que ele te ajuda em casa”

“quer dizer que você tem dois meninos na sua casa?” (um é o pai)

“que bom que ele é um pai carinhoso!” (oi? não era pra ser?)

“nossa, ele trabalha e também ajuda a cuidar dos filhos” (variação das anteriores, mas sintetizando o espanto)

(história termina com um moleque-mimado-mimimi  – mas ainda pai – posando de herói e secretamente arrependido de ter se metido nessa “roubada” . Ainda achando que merece uma medalha cada vez que pega o filho no colo)

 

sobre mães:

“como ela é forte!” (como uma mula de carga)

“impressionante como ela dá conta!”

“e ela faz tudo sozinha!”

“tem coisas que só a mãe pode fazer” (isso só vale pra aleitamento. o que nos primeiros 6 meses, significa pelo menos 5 horas do dia dedicadas a isso, no mínimo.)

(história termina com uma mãe-chuck-norris com síndrome de mulher-maravilha completamente esgotada, cheia de medalhas por ter dado conta de tudo melhor que qualquer um.)

 

no futuro:

O pai nunca deixa de ser filho, e passa a ser filho de seus filhos, mala eterno.

A mãe, depois de anos de raiva acumulada, manda a conta de tudo o que deu conta pros filhos, virando vítima eterna do fardo maternal.

 

(gente, a Medéia já passou por isso, virou mito, peça grega, até sambinha do Chico. tá na hora de aprender e largar essa carroça, né não?)

38 em vênus

olhos irradiam raios
apontando nas bordas
presentes da maturidade

 

vEnUs

 

 

a tempo: carxs canalhas da indústria-da-estética-padronizadora: meu rosto não é poleiro pra ter pé de galinha.

não me importam as marcas. o que me interessa é se elas vão registrar mais sorrisos (sinceros) que tristezas (escondidas).

Miguel

Daqui a alguns dias,

vão se somar dois anos.

Dois anos desde sua partida para as estrelas.

 

Fiz desse dia um marco. Desde que você se foi, levou com você uma trava, um espinho. Abriu um caminho vermelho entre minhas pernas.

 

Doeu.

 

Tentei fingir que era comum, tentei me agarrar às estatísticas, tentei voltar à rotina.

Tentei me fazer de forte, mas do nada, de uma hora pra outra, desfalecia.

derretia.

Fiquei com vergonha do fracasso. Fiquei com medo de ser punida por algo que nem sabia. Segurei sozinha sua mão, porque não deixei ninguém mais segurar, mesmo sabendo que não poderia nunca te segurar aqui. Porque a escolha foi sua.

Você chegou no tempo das folhas amarelas, e partiu como partem logo as suaves flores de inverno.

 

Mas ao romper o cordão, você rompeu muito mais.

 

Desligou, em mim, uma corda que me prendia. Desenrolou um outro cordão do meu pescoço. Desencadeou um longo processo de liberdade, de reconexão, de reencontro com o próprio amor.

 

Você, alma imortal, me reaproximou do Caminho

me trouxe de volta as estrelas

a ponte.

 

Você, filho querido

me trouxe de frente a humildade

me mostrou o tamanho da minha arrogância

me mostrou reverência e fé

mostrou que as marés que trazem a vida e a morte são idênticas,

que nascer e morrer é uma coisa só,

e coisa que não se controla: só se navega.

 

Seu luto foi minha liberdade

não pela sua partida

mas porque a partir dela

fui ao meu encontro

ao meu próprio parir

 

E nesses dias tão intensos

há quase dois anos de sua viagem,

e a poucos dias da chegada de seu irmão caçula,

você nos trouxe a família.

 

Percebi, entre dores no corpo e nervos pinçados,

entre dentes cerrados,

que eu ainda carregava nas ancas o seu pequeno peso

que nunca pude embalar.

 

E carregava sozinha.

 

Percebi que apartava você do restante de nossa família

percebi que ainda confundia sua trajetória de luz com meu próprio fracasso

e percebi o quanto temia

 

enquanto meu corpo tremia.

 

Então, querida alma,

soltei de vez o cordão

libertei sua memória da torre

e deixei que todos celebrassem sua existência

entre dores e alegrias, a própria essência da vida.

 

Aí, e só aí

no meu último suspiro,

respirei

você foi, eu fiquei,

e só então nos unimos.

 

E juntos,

seu pai, sua mãe

seus pequenos irmãos já em terra

e seu pequeno caçula entre mundos

contamos sua história

para que nunca ninguém te esqueça.

 

Seu pai, por te sentir menino,

te batizou Miguel

e eu, por ainda te sentir flor

te chamo também Sakura

 

Aqui, você é anjo de quartzo rosa,

no centro da nossa unidade

nas estrelas,

alma imortal

e parte (nunca apartada) de nossa vida.