pra trás, cura.
pros lados, distribua.
pra baixo, depura.
pra frente, evolua.
se engessar, destrua.
(no mais, confia)

de Claudia Pucci Abrahão
pra trás, cura.
pros lados, distribua.
pra baixo, depura.
pra frente, evolua.
se engessar, destrua.
(no mais, confia)
Quando você perguntou, não me surpreendi. Senti sua relutância em abordar o tema pelo telefone, como pegar em algo delicado com luvas de borracha. Senti sua hesitação, agradeci em silêncio o cuidado, e acabei me surpreendendo com a simplicidade de sentimento que veio: sim, já fez um ano. Há pouco tempo.
Não falei nada não sei por que. Talvez por receio de tingir de dramaticidade algo que já era, para mim, cotidiano. Não quis fazer disso uma data maior do que as outras, nem conferi exatamente o dia. Senti que estava perto. Assim como a primavera não começa exatamente no dia 22 desse mês (e as flores que estão surgindo por aí são provas), senti que essa precisão cirúrgica não era tão necessária.
Só sabia que ainda era inverno, e perto do tempo das flores.
Senti a data próxima, porque senti novamente os rios correndo em mim, pedindo choro sem razão aparente. Será que um ano é mesmo um circuito que traz de volta lembranças? Que nem o mar quando joga na areia, ao fim da tarde, o que nele sobra?
Hoje conferi: foi na madrugada do dia 29 de agosto.
E se não quis fazer dessa data nada tão diferente, não foi por fuga. É porque desde aquele dia tenho vivido essa morte todos os dias. Ela passou por mim, me deixou nua frente à possibilidade de minha própria finitude, me despiu de tantas certezas… me colocou de volta num caminho antes relegado às férias, ao final de semana, ao período que se reserva para viver – se for capaz – o que nos gera vida, o que nos nutre a alma.
A partir daquele dia, comecei um longo, longo reajuste. Quis despir de mim o que não servia. Percebi – com dor – que muitos desses excessos tem raiz em apegos profundos, em tesouros, na minha própria personalidade. Em medos. Percebi espantada que apesar de ter vivido uma experiência de despedida, repleta de sangue e de dor, ela tinha sido algo tão verdadeiro e vivo que me colocou em cheque. Colocou em evidência a palheta pastel dos meus medos cotidianos, e me fez perceber que, no fundo, junto com aquela dor havia um êxtase em estar plena e inteira em tudo o que a vida oferece.
Não que se possa viver diariamente naquela intensidade, mas deixar de viver por temer as cores vivas, por temer o vermelho vivo, era pior do que a morte.
Por isso, talvez, não senti falta desse luto com data marcada. Mas agradeço à vida por ter trazido a você, companheiro amado, uma experiência correlata para que você pudesse sentir um pouco daquela verdade, ainda que fosse na pele de outra pessoa – e bem-vinda seja ela que te mostrou o indizível desse momento. Benditas sejam suas mãos, para que possam conduzi-la, a cada massagem, a um lugar de alento, de desapego, de aceitação. E, talvez, longe de toda pressão de se fazer forte, de ser aquela mão que amparou o meu pranto, você possa ter liberdade de visitar esse lugar esquecido, e também, agora, dizer adeus.
Vou te falar… não se pode começar a escrever e logo já vem a criatura.
Ela disse que o nome dela é Loren, mas vai ficar igual à Lauren, então pra não confundir – e pra contrariar – vou chamar a persona de Hercília. Com H.
Ela tem todos os cacoetes da escritoura. Só falta morrer ao ver uma máquina de escrever antiga. cria playlists de personagens. escreve com musiquinha de frase puladinha. é engraçadinha (mas sem senso de humor), ou às vezes tão profuuuuunda que é tipo nescau com o triplo de açúcar, e com o tripo de palavras necessárias. Um saco. Mas nunca aprofunda: nem sangra, nem goza.
Resolvi apresentar a Hercília a mim mesma, apesar do medo de ser internada por esquizofrenia. Porque se o Fernando Pessoa pode, eu também posso.
Vai ter dia que talvez ela fale no meu lugar, mas paciência. Demora pra perceber que a bicha apareceu, porque ela é metida a sofisticada e sabe disfarçar. Isso ela faz bem, reconheço.
Aí um amigo uma vez me disse: quer escrever? então escreve como quem pica couve. A Hercília odiou a falta de glamour, mas eu adoro ficar com a mão com cheiro de tempero.
Hoje ela tentou cruzar os mundos. Deu com a parede.
A mesma parede que havia debaixo da estante do seu quarto, quando criança. Debaixo de uma prateleira branca de três estantes onde pousavam porta-jóias, bichos de pelúcia e pequenos enfeites. A última prateleira ainda ficava alta em relação ao chão, e formava com as bases laterais um perfeito quadrado vazio. Naquele vão, ali embaixo, havia uma promessa. Era um portal perfeito demais para que de lá nada saísse.
Ela bem que esperava que do nada abrisse uma porta, do nada surgissem seres. Morreria de susto, é verdade, mas então não seria mentira aquele lugar que mandava sinais há tanto tempo. Mas com os olhos de sempre, ela não viu, nunca viu, como jamais veria. Sua escola não ensinava ver além.
Agora, novamente, a parede. Foi até lá, esperou, e cadê? Deu com a cara no vazio só vazio. Talvez estivesse já chegando tão perto que o lado de cá tenha mandado exércitos de fadiga, de mentiras, de desilusão. Quem sabe? Ou poderia ser o calor pela falta de chuva, o sentimento de escassez do fluxo…Mas não, tudo desculpa. Esse lugar não é de agora, desse tempo, dessa estação. E se ela não rompesse o torpor, e os nãos, e não se dignasse a ir até lá e ver, jamais saberia como romper essa casca. Ver onde a parede se formou pela primeira vez.
Ela ia precisar de uma dose de crença para começar. Colheria crença dentro da descrença?
Talvez no pico de desilusão tivesse semente de outro lugar. Não é do auge de alguma coisa que outra brota?
e a mulher girou e novamente caiu no descampado celeste. era noite, e havia ainda o fogo. e havia ainda a menina.
e ela lhe apontou as estrelas.
eram muitas.
e disse que era bom esperar. era uma espera preenchida.
então a mulher viu que era ela, e não a menina, quem havia se perdido. que a imagem desolada do primeiro encontro era pura projeção da parte crescida.
e como quem diz que é verdadeiro seu mundo, ela a levou a sua aldeia. um lugar de casas entre clareiras, onde muitas outras crianças brincavam. um lugar entre as árvores, que certa vez, a mulher lembrou, há muito tempo, havia desenhado – numa tarefa de escola, cujo título era “minha cidade”.
sua cidade era de casas entre árvores, abaixo e no alto dos galhos, casas conectadas por passarelas douradas, por onde se desliza como por anéis de saturno. sua cidade era tecida em espirais, hexágono de colméia, forjada por tecnologia da mata, de mensagens telepáticas, de crianças voadoras, e pequenas luzes amarelas, e pequenas fogueiras, e muitos sorrisos.
então ambas deitaram abraçadas debaixo do céu de estrelas. e a mulher ficou pensando se algum dia, há muitos anos, alguma vez sentiu um abraço de mãe que não era a sua. abraço do seu próprio braço, anos mais tarde, num lugar onde os anos não existiam.
dizer não é luta.
fazer o que acredita é revolução.
… e da mata ela nada mais sabia. mas não era esquecimento, porque de algum lugar ainda lembrava. sentia o cheiro de mato e fogo, sentia o relinchar do bicho amigo. procurava, procurava, sentia a menina. seria a filha que ainda não teve? ouvia seu sorriso.
sentia o cheiro de cor de floresta, ouvia indícios nada ver com seu mundo. ouvia? mas havia o véu separando universos, iludindo com horas, dias e anos o tempo também presente em dimensões secretas.
mas ela precisava dessa memória antiga. e por mais difícil que fosse o acesso, daqui, a mulher crescida pediu. de sua dimensão adulterada pelos anos, fez-se um salto inesperado e cruzou a neblina dos sonhos, e de repente, lá estava: num imenso campo descoberto sob uma noite estrelada e fria, ao lado de uma pequena fogueira, ela se aquecia. era pequena, talvez quatro ou cinco anos. vestia uma capa avermelhada, tinha sapatos gastos e um pingente brilhante. tinha, ao lado, um cavalo. tinha, à frente, sua busca. tinha, ainda, a fé que move o mundo, ainda não corrompida pela crença do “impossível”. tinha medo, mas tinha certeza.
então a mulher viu que a menina seguira seu destino. suas mãos se aquecendo ao fogo tinham marcas, e seu rosto cicatrizes de alguns percalços. seu coração, contudo, era brilhante. era de fogo.
a mulher não ousou se aproximar, só sentiu uma compaixão imensa, um agradecimento profundo. a menina seguira o seu caminho há muito tempo abandonado, tal como guardiã de uma grande terra onde muito mais era possível. ela alimentou, com sua pequena fogueira, os sonhos daquela realidade.
então ela viu o momento: aquele dia na ilusão de tempo passado, em que a mentira entrou, em que a menina se dividiu, em que parte ficou ainda acreditando, e que a parte que agora é ela, ainda criança, cruzou o véu para essa dimensão, e aqui cresceu. e enquanto tentava seguir o roteiro da vida dos homens, ouvia, bem longe, o galopar do cavalo. sentia o fogo. ouvia o sussurar das estrelas. sentia o rosto úmido pelas lágrimas da menina, que apesar de ser sua parte, permaneceu inteira.
então ela viu que não eram lágrimas de desalento. lá estava a pequena, aquecendo-se ao fogo, e o líquido que saía de seus olhos era o embalar de um acalanto. era a própria terra cuidando de seu espírito, de sua música. era todo o sentimento do mundo escorrendo por seus olhos, tal como mantra, garantindo o fluxo:
estamos aqui, estamos aqui, estamos aqui. está tudo bem, está tudo bem, está tudo bem…
não acredito em partidos.
só em todos.
multifacetados, multicoloridos, polidimensionais,
amorosos
integrais
e felizes
inteiros.