Vão te dizer, meu filho,
que a vida é guerra.
Que ela se enfrenta, se encara.
Contra ela se luta.
Assim se tornam bravos, os homens.
Pois te digo: ela é boa.
A vida tem coisa de fêmea. Não se conquista ou domina.
Decifra-se.

de Claudia Pucci Abrahão
Vão te dizer, meu filho,
que a vida é guerra.
Que ela se enfrenta, se encara.
Contra ela se luta.
Assim se tornam bravos, os homens.
Pois te digo: ela é boa.
A vida tem coisa de fêmea. Não se conquista ou domina.
Decifra-se.
Lá estava ele, enorme, convidativo, inesperado, extra-cotidiano.
Lá estava ela, sentada, criança, com desejo no coração e frio na espinha. Um puxando pra frente, outro pra trás.
Alguns outros, mais ousados, foram imediatamente. Ela, pequena, hesitou.
O apresentador do circo fez a última chamada ao passeio. Ela, menina, raspou pé no chão, moveu o músculo certo que a faria levantar e se jogar, mas no último segundo colou na cadeira. Apresentador abaixou os braços. O tempo acabou.
E o elefante deu cinco voltas pelo picadeiro, e crianças cheias de coragem, lá em cima, pularam no seu cangote.
E ela apenas assistiu à aventura.
E o tempo passou.
E novos elefantes vieram.
(ilustração de Michael Vincent Manalo, coletada em Infinitos Mundos)
ouvi um ciúme de uma namorada cujo namorado estava grudado em mim
ouvi um tsc tsc bem perto da minha orelha (pessoa limpando dentes)
ouvi muitas músicas de fones alheios, que para mim eram chiados ritmados
ouvi meu coração pedindo socorro e mais transporte público
ouvi o espírito selvagem da vida enlatada
ouvi resignações, e a minha própria
ouvi zumbido na cabeça, horas depois.
numsegundosó, não ouvi nada
éramoscorposjuntosbalangandosemrumo.
FILHO
Mãe?
Pausa
FILHO
O que é a mulher?
Pausa
MULHER
Fica de pé, parado, ereto. Respira fundo, parado,ereto. No centro, bem lá no centro, vem um desejo espiral de giro ao redor do eixo. Uma graça que se movimenta, padrão de galáxia, uma dança infinita rodando pra cima. Flor com cheiro delicado. Você, meu filho, no centro: só cuida. Se tentar agarrar, ela escapa, dissipa, resseca. Só cuida, gentil. Protege, sutil. Sobe junto, na espiral sagrada, mão a mão, lado a lado, você no centro, a mulher nas bordas, girando e subindo. Você, o esteio, ela, movimento, você, a moldura ela, o momento.
Mulher, ligadura. Você, complemento.
GABRIEL:
mamá.
(depois…fase Yoda.)
mamá qué
(depois…evolui:)
qué.
eu qué.
qué. qué. qué. (não se sabe o que. é só um querer. às vezes, direcionado a algo concreto, às vezes a nada específico.)
palavras que nasceram praticamente juntas,
crescem juntas,
té longe na vida: eu qué.
Eu não sou atriz. É assim que eu me defendia de ser (atriz, e outras demais coisas: eu não sou).
Aí, no curso de pós em direção teatral (do Célia Helena), a gente ia ter que atuar. Era um exercício pra aula do Marco Antônio Rodrigues. Eu até poderia dirigir ao invés de atuar, mas uma coisa maior que minha ranhetice (que disfarçava minha vergonha, que disfarçava meu medo, que disfarçava….) me jogou na corrente. Boralá atuar.
Danilo Moreno seria o diretor. Figura linda, vinda de outros cantos (Recife, Rio, outras paragens). Karina, psicanalista, e Jacqueline, única atriz entre as atrizes, completariam comigo o elenco. Entre as escolhas possíveis de texto, ficamos com Plínio Marcos, o Querô. Quem conhece sabe que não é bolinho: da classe média ao cais de Santos. Chão, chão, chão. Lama, lama, lama. Nós três, poéticas, lendo Clarice, imagine… Mas foi uma escolha.
Das personagens possíveis, me coube a Violeta, cafetina, dona do puteiro, proprietária e exploradora da mão de obra (corpo) alheio. Ou, nas palavras de Leda, a outra personagem, prostituta-mártir de Plínio: machona, greluda. E eu, pesquisando o sagrado feminino, a sexualidade transcendente… fui dar com a sombra de tudo isso.
Numa semana, mergulhamos fundo. Numa semana, nos deixamos, entre encontros e polêmicas, nos conduzir pelas imagens delirantes do Danilo. E eu mergulhei na dor daquela criatura, daquela figura, mergulhei no ressentimento que poderia transformar uma mulher no reverso de si. Dei as mãos a Violeta, aceitei sua existência. Descobri parte de sua voz, parte de um riso funesto que me fez tremer. Vivi parte de uma dor, e digo parte porque só toquei com os pés esse oceano, mas senti essas águas geladas.
Na hora da cena, fui pra lá. Se pensasse, não faria. Me entreguei a ela, ao ponto de não me reconhecer. Depois soube que essa foi a impressão de vários colegas: demoraram para me perceber ali. Eu, não-atriz, a não-puta, me tornei a sim…simultaneidade de possibilidades. Sim ao avesso do que aspiro. Sim à sombra das mulheres, sim ao que lhes torna feridas, humilhadas, submissas e finalmente, também carrascas e castradoras.
Trouxe à tona, à luz. Aceitei. Curei, assim, essa parte de mim. Ainda tremo com ela, tremo de medo, mas sei o seu rosto, seu nome, sua voz, seu grito.
Obrigada, Plínio, por nos trazer esse mundo desprezado. Obrigada, Danilo, Jacque, Karina, companheiros de nau, pela confiança mútua. Obrigada, teatro, por abraçar do baixo ao sublime, por abraçar a todos nós, em sorrisos e dores.
… e não era
plenamente nada
repartida
era e nesse fragmento se
ancorava no que
dava
e dava certo porque
o mundo em que ela estava
tava
desse
jeito tava assim o mundo que ela estava
então a parte
parecia todo
e era
frag
mento
tira, tira, tira,
tira a sobra,
o que é que fica?
sobra?
tira, tira, tira,
a sobra e fica
com o que tem na alma
tira, zica, tira,
a fantasia
deixa a casca
larga máscara
e segue, segue, segue,
ouve o canto,
deixa a flor brotar do
pranto, ferve, esfria,
muda,
transfigura
e transmuta
escuta,
a guia, congelada,
dá espaço
deixa entrar a venta
nia pelas ventas
ria, inventa,
deixa entrar
amor
no verso
tira o véu que cobre
à noite
espera o sol.
Espera o dia.
VAI HAMLET! MATA ESSE TIO FÉDAPUTA LOGO DE UMA VEZ!
Noutro dia, chegou meu uniforme, e fui surpreendida por uma alegria de criança que ganha um brinquedo esperado. A indumentária, afinal, é importante na forma. Vesti a roupa com orgulho e o desajeito da primeira vez.
Gongo. O sapato ficou apertado. Meu pé é largo e alto, incompatível com sapatilhas chinesas. Dei de brava e segui em frente, até perceber que seria uma idiotice sentir uma dor pontual que me prejudicava o movimento. Fiz o resto da aula descalça, meio contrariada, meio incompleta.
Ao final de tudo, no vestiário, fui surpreendida por um presente. A Aline, que já treina há cinco anos, “irmã mais velha”, na linguagem do Núcleo 7 Esferas do Tao, me deu uma sapatilha antiga, que ela usava antes de comprar a mais recente.
– Aqui a gente tem esse hábito de passar as coisas adiante – ela disse, provavelmente respondendo à minha cara de espanto.
Aceitando o presente, passei a treinar com ela, o que me gerou um sentimento interessante: pisar com o pé alheio. Meus pés experimentaram a memória de outras pegadas, de caminhos já percorridos. Aquilo, não sei por que, me encheu de ternura. Um agradecimento pelos percursos e formas há muito aperfeiçoadas, pela ancestralidade daquelas práticas que cruzaram mares e séculos até chegar a mim, em 2010, nesse tempo.
Eu, que sou filha mais velha, pude sentir a delícia de ter irmãos mais velhos. Pude experimentar a herança de receber roupas alheias, já carregadas de algum sentido, e passadas adiante com carinho. Agradeço a paciência e a generosidade dos meus “irmãos de treino”, por passarem um conhecimento milenar adiante, hoje, aqui, em pele contemporânea.
E eu, que sempre conduzi a brincadeira, eu, sempre a primeira, pude experimentar a calma de ser quem vem depois, de quem aprende e joga junto. Em conjunto. Em irmandade.